19/08/2011

Sou Professora de português. Não dicionário


A jovem professora - Chardin


Professora


Ser professor, hoje em dia no Brasil, é uma verdadeira aventura. Coisa de verdadeiro super-herói. Primeiro, tem-se que sobreviver com o indecente salário docente. Então, para não morrer de fome, o jeito é correr contra o tempo, feito o Flash, e se desdobrar lecionando em várias escolas. Na sala de aula, ainda temos que usar nossos superpoderes de Supermans e Mulheres Maravilhas e atuar em diferentes funções: psicólogo, assistente social, pai, mãe, tio, amigo, médico, showman, padre, cozinheiro animador de auditório, e, até professor, acredita?
Agora, se você é graduado em Letras, prepare-se! Além de tudo isso, todos vão querer que você seja poliglota. Isso mesmo! As pessoas acham que só porque alguém tem graduação em Letras é especialista em português, inglês, espanhol... E não adianta você tentar explicar que sua habilitação é em uma língua apenas, pois eles sapecam um: “Ah, mas você fez Letras, então você sabe!”
Não foram poucas as vezes em que tentaram me enfiar goela abaixo disciplinas como espanhol e inglês para ensinar pelo simples fato de eu ter cursado Letras. Tudo bem que na faculdade estudei dois períodos de inglês, mas isso não me faz conhecedora dessa língua a ponto de lecioná-la. Vale salientar que passava me arrastando nessa matéria. Mas dizer isso aos diretores das escolas de nada servia, tanto que por dois anos fui obrigada a assumir a disciplina de língua inglesa em algumas turmas. O resultado vocês já devem imaginar. Fracasso! Não posso dizer que ensinei. Aposto que aprendi muito mais com os alunos do que eles comigo.
Ah! Esqueci de dizer! Minha habilitação é língua portuguesa. E com isso, ganhei mais uma atribuição: ser dicionário. Isso mesmo! Todo mundo pensa que professor de português é um dicionário ambulante. Já reparou? Se um professor de português estiver em um grupo, na escola, no clube, no barzinho ou no supermercado, e surgir uma dúvida ortográfica ou semântica, adivinha para quem todos olham? Pois é! Até aí tudo bem. Somos especialistas no assunto. Contudo, é importante lembrar que não somos por isso obrigados a saber de tudo sobre o idioma. Até porque a língua é um organismo vivo que está em constante mutação. Mas todo mundo quer que a professora de português conheça a ortografia correta de todos os vocábulos da língua e memorize todos os verbetes do Aurélio e do Michaelis juntos. E ai dela se não souber!!! Haverá de ouvir um”: “Não sabe? Mas você não é professora de português!?”
O pior é que em muitas situações as pessoas, por preguiça ou sabe-se lá o quê, se aproveitam para explorar nosso acervo linguístico e nossa paciência. Porque venhamos e convenhamos que, atualmente, a coisa mais fácil é consultar um dicionário. Seja na biblioteca, em casa, no computador... é facílimo buscar um significado de uma palavra. Mesmo assim não me canso de dar verdadeiras consultorias pela internet, onde existem inúmeros sites disponibilizando dicionários on-line, nos quais se pode consultar rapidamente a grafia ou o significado de qualquer palavra da língua portuguesa.
Mas há casos mais graves. Duvida? Pois bem. Outro dia, estava eu em sala de aula, fazendo uso da minha multifacetada profissão de professora, quando chega uma colega de escola com uma dúvida acerca do significado de uma palavra. Apesar de já conhecer o termo e saber seu significado, pedi licença a turma e a convidei para me acompanhar. Caminhamos até a biblioteca da escola. Lá peguei um das dezenas de dicionários dispostos em uma das estantes, abri, procurei as palavras iniciadas pela letra “P” e passeei meu indicador por uma das páginas até encontrar a tal palavra que a colega tanto queria conhecer. Ao me deparar com o vocábulo pretendido, fiz questão de apresentá-lo à colega. E em voz alta anunciei:
- Parvoíce: asnice, estupidez, burrice.
Ah! Só um detalhe: a colega trabalhava na biblioteca da escola.

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Sou Professora de português. Não dicionário de Rokatia Kleania é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogdaprofessorinha.blogspot.com.

4 comentários:

  1. Adorei a crônica, Rô. Mas, olha, surgiu aqui uma dúvida que é "abacinar"? Ou, ou brincadeirinha. Te adoro. Bjinhos.
    Aline Raquel

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  2. Pois é minha querida amiga, e você ainda esqueceu de citar a sua principal funcão, SER MULHER. Acredito que diante de tantos problemas advindos da sua profissão, na sua função "The Flash", tem que ter um tempinho para exercer esse lado mulher que todas tem, e olhe que não é fácil, pois nos é sabido que além de ter que se comportar como tal, ainda tem que saber se vestir, se maquiar e como diz no jargão popular, SER GENTE. ATENÇÃO A TODOS PROFESSORA, TAMBÉM É GENTE!!!!, Beijos, Te adoro muito

    Augusto Néo

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  3. Não sei pq senti uma grande proximidade entre este texto e eu... como vc, passei por estas tb, o pior é que levo as duas habilitações nas costas: português e espanhol. Já viu o nó né!
    Impressionante como o povo prefere o pronto a ter que ir buscar a informação por si só. Tenho pavor dessa exigência que recai sobre nós.
    Vc foi muito feliz com todas as suas narrações expositivas, é isso mesmo. Ponto e ratifico.
    ABRAÇOS AMIGA DE LUTA!

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  4. Parabém pela estrutura e conteudo de seu blog
    compartilhando aqui, abração Renato
    http://renatoartesanato.com/loja/

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