30/06/2011

O espirro do anjo


Gilson Rodrigues


Secretária

Hoje, ao sair de casa, pude por alguns minutos observar meu vizinho pintando as grades do portão de sua casa.
Casa onde mora com sua esposa e seu filho caçula.
Enquanto eu o olhava minha mente foi inundada por recordações de uma infância que parece ficar cada vez mais remota.
A casa dele, assim como é a minha, pertence a sua família a mais de três décadas.
Faz tanto tempo... Mas olhando-o lembro que já fui criança um dia.
O mandamento de me tornar como uma criancinha ou não verei o reino dos céus parece ter sido esquecido por mim há muito tempo.

Olhando-o lembrei de alguns poucos dias nos quais eu ser uma criança não era feio.
Sim, pois tem pais que ‘teimam’ em criar seus filhos não para serem adultos honrados, mas como se já fossem adultos.

Olhando meu vizinho hoje cedo eu me lembrei – me do pai dele: Senhor Vicente...
‘Seu Vicente’, para os íntimos, o caminhoneiro da ‘cegonha’.
Todos que moram a mais de 20 anos na Rua ‘da Biquinha’ lembram dele, posso apostar.

Caminhoneiro por profissão ele se ausentava por longos meses.
Mas se existe algo que ficou em minhas memórias de infância são os gritos de alegria dos seus filhos quando entre uma e outra carga ele ficava algum tempo em casa.

Lembro-me de em uma noite fria; ao menos em minha memória aquela noite foi mais fria do que as outras e a solidão infantil doeu mais no meu peito; pois bem na tal noite fria, que não posso datar tanto tantos são os anos que de lá pra cá se foram, mas arrisco que eu devia ter no máximo 6 anos, portanto lá se vão 30 anos, na tal noite o caminhão dele ‘pousou’ em nossa porta, explodindo com seu ‘barulhão’.
.As crianças, meus saudosos amiguinhos de infância, desceram por seu longo quintal gritando:
Pápa!! Pápa!!!Pápa!!!Pápa!!!Pápa!!!Pápa!!! (Os filhos os chamavam de Pápa, sem o ‘i’ no fim, se sobre o frio não posso dar certeza, isto eu afirmo!)
Ouvi os passos rápidos deles no corredor ao lado de meu quarto e depois só a bagunça de gritos e muitas risadas.
A alegria deles com a chegada do pai foi algo que nunca esqueci.

E o ‘Seu’ Vicente mudava meus dias também.
Os espirros dele são lendários.
Até hoje tento imitá-lo.
Eram daqueles espirros de fazer gosto, bem altos, bem molhados, espirros dado por gente que não tem medo de ser feliz.
Depois, às seis da manhã, ele colocava o “bichão” pra aquecer o motor.
Eu ouvia os meninos mais velhos dele o ajudando com o caminhão.
Aquele ruído logo cedo não incomodava.
Eram ruídos de crianças felizes.

Não sei que tipo de pai ele foi.
Não sei se seus filhos têm dele boas ou más recordações.
Mas sei que em mim ele deixou doces recordações de infância.
Lembro que ele organizava competições entre as crianças na rua.
Competição de corrida pelo quarteirão.
‘Seu Vicente’ dava dinheiro a quem ganhasse e doces para todo mundo.

Estas eram uma das poucas vezes que eu me permitia competir.
Nunca gostei de esporte de competição.
Meu fôlego sempre faltava e eu ficava envergonhada por perder.
Mas com o ‘Seu’ Vicente por perto não era assim.
Ele chutava para longe minha vergonha de ser criança.
Ele nos empurrava e dizia: “Vamos menina, vamos, é só uma brincadeira!”

Ele construiu pouco a pouco a casa que deixou para os filhos, durante a construção com a chegada dos blocos, das pedras e areia, ele pagava a molecada para carregarmos bloco, areia, pedra, quintal acima.
E fazia isto de um jeito tão divertido que nem notávamos que ele estava nos ensinando o valor do trabalho!
Outra lembrança boa: as moedas que ganhei carregando os blocos da construção da casa do ‘Seu’ Vicente renderam bons lanches de “pão-com-ovo” que eu comia me lambendo, seguida por minha mãe e irmã do meio.
E renderam também  muitos chocolates que tinham um sabor melhor pois eram comprados com meu dinheiro!
‘Seu’ Vicente em casa era certeza de fartura até para os vizinhos.

Ele se parecia com um anjo moreno.
Era redondo.
Bem redondo mesmo.
Seus cabelos cacheados.
E no rosto sempre um riso fácil.

Hoje, ao ver meu vizinho, seu filho do meio, pintando o portão, imaginei o ‘Sr’ Vicente ali ao lado do filho, sorrindo.
Anjo moreno, agora com asas.
Meu coração se encheu quando eu consegui ouvi-lo dizer:
“- Vamos menina, vamos, é só uma brincadeira!”
Sorri.
Meus lábios quase se abriram em resposta, mas achei  melhor não assustar as pessoas falando com quem já não se vê entre nós.
Em silêncio respondi:
_ Eu prometo que vou, ‘Seu Vicente’. Prometo que não vou esquecer que isto aqui não passa de uma grande brincadeira.

Sai de casa jurando brincar como uma criança todas as vezes que me permitirem.
 - E quando não permitirem, ‘Seu Vicente’, prometo fazer bagunça, muita bagunça.


Licença Creative Commons
O espirro do anjo de Eliana Klas é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.comPermissions beyond the scope of this license may be available at www.eutodososdias.blogspot.com

29/06/2011

Sobre a ciência e o saber


Yeondooo Jung


professora

Nunca fui boa em Química, o que eu gostava mesmo nesta disciplina era de ver as infinitas combinações entre os radicais gregos e latinos nos nomes dos compostos, orgânicos e inorgânicos, também gostava de ver toda bela, colorida, quadriculada e grandiosa tabela periódica, que cobria quase por completo o quadro verde-fosco.
A professora, que fique bem claro que isto nunca partiu da vontade do alunado, queria realizar uma feira de ciências. Separou os grupos. Sugeriu os temas e até algumas experiências. Não sei como, mas inventei de falar sobre a água oxigenada. Acho que pela acessibilidade. Tinha desse material em abundância em casa, minha mãe era cabeleireira. Quase uma alquimista, portanto. Além disso, achava mesmo muito curioso vê-la espumando em cima das minhas feridas. Ela também descoloria meus pelos e me deixava pintas brancas nas pontas dos meus dedos.
Fiz algumas experiências para testar sua espumosidade em diversas matérias. Descobri que ela fervilhava com muito mais alegria quando posta em contato com a matéria orgânica complexa. Tipo: carne fresca. Humana ou animal, ao menos nisto ela não fazia distinção. Fervia mesmo!
Levei a minha fabulosa descoberta para a feira de ciências, ninguém do meu grupo se preocupou, éramos, na verdade, um grupo de uma pessoa só. Mas elas ficaram comigo durante a exposição, dando apoio moral, afinal quem tinha inventado aquela massada era eu. Estava muito decepcionada. Os visitantes pareciam mais interessados no vulcão de argila e gelo seco da mesa vizinha. Lógico, visualmente mais atraente. Eu continuava firme em meu propósito e quando alguém esbarrava acidentalmente na mesa eu, muito solícita, tentava vender a minha ideia científica genial. Inútil! O outro grupo vizinho, que chegara atrasado, acabara de colocar compotas com cobras capturadas, embriagadas no álcool e mortas por eles próprios e o melhor: uma tarântula viva, que, coitada, se debatia em vão dentro de um vidro de maionese. Até eu larguei minha experiência para ver e ouvir mais de perto as façanhas da captura. Tarântulas são mesmo fascinantes. Não é a toa que aparecem em filmes de terror, sobretudo nos cines trash.
Tive de voltar correndo para a mesa, pois acabara de levar um cutucão das meninas. Havia adentrado na sala o rapaz a quem eu platonicamente dedicava uma paixão. Parecia sabê-lo, também meu desmilingue denunciava. O moço se dirigia diretamente a minha mesa. Petrifiquei. Afinal, ele não era da escola, morava ali por perto e conhecia todo mundo. Boa pinta. Boa praça.  Estudava numa escola padrão lá em Santo Amaro, fazia o 3º ano do colegial e já trabalhava. Enquanto eu nunca nem tinha ida além ponte sozinha. Provinciana. Inocente-pura-e-besta.
Fiz a demonstração. Tremia feito vara verde. Suei, gaguejei, derrubei água oxigenada para tudo quanto foi lado.  Depois de presenciar minha pequena catástrofe, ele só me fez duas perguntas: “Você sabe que água oxigenada é o nome popular, nome de venda, né?.“É? Legal!”... Silêncio...“E você sabe qual o nome científico desse composto?”... Sepulcro... F.D.P! Se queria me constranger havia conseguido. Minha vontade era de me enfiar dentro do vidro de maionese e fazer companhia para a amiga tarântula. Como eu fui esquecer de pesquisar isto? Mirou-me com ar de desdém e disse: “Perrróxido de oxigênio”. “ O que?”.“Perrróxido de oxigênio”. Ttinha problema de dicção, o que para mim era seu maior charme, o “r” gutural lhe dava um ar de galã de filme francês. Nossa, o cara me ferrando e eu ainda arrumava meios de achá-lo um encanto. Que raiva de mim! E ainda foi embora sem dizer tchau.
Graças à Boyle, à Lavoisier, à Scheele que aquele circo de horrores já estava se acabando. Sobrou apenas recolher meus restos. Joguei a carne, a madeira e o ferro fora. Limpei a mesa transbordante. Fui para casa com a narina entranhada com o odor da água oxigenada e as pontas dos dedos esbranquiçadas. Ficaram assim por dois dias.
Na semana seguinte, as meninas vieram logo ao meu encontro para fazer o que sabiam de melhor: me dar apoio moral. Disseram que ele estava se exibindo e que se ele queria me chamar atenção é porque também gostava de mim. Amigos são ótimos nisto. Também, nada mudara em meu coração. Gostava mesmo do filho da mãe.
Ah, não pensem vocês que não aprendi nada com esse episódio. Confesso, continuo não entendendo nada de Química e muito menos de amor, mas se um dia eu for participar de um programa de perguntas e respostas, sei que somente eu terei a resposta certa: peróxido de oxigênio!

28/06/2011

Não fale sobre a França!


Kamicaro - Egil Paulsen


Professora

Há alguns dias, fui pega de surpresa. Talvez, a exceção de meu marido, ninguém tinha sido tão franco comigo. É certo que, quando adultos, nos entregamos ao fingimento e mascaramos o real com uma suposta cortesia. Isso ocorre porque ser sincero demais pode resultar em constrangimento. Melhor rir amarelo e fingir que está tudo bem.

O caso foi que, o danado que me fez calar tem apenas 7 anos de idade. De início, confesso, fiquei meio sem graça, mas não chegou a despertar em mim um sentimento de indignação, nem a resposta dele me levou a pensar que estaria sendo mal educado. Pelo contrário. Fiquei recolhida no meu silêncio, envergonhada, mas, ao mesmo tempo, maravilhada pela inocência e transparência com que ele manifestou a sua vontade. De verdade.

Ele havia passado em torno de 5 meses na França com os seus pais devido aos estudos de pós-doutorado que ambos se submeteram. Quando retornaram, o assunto não poderia ser outro. Torre Eiffel, Museu do Louvre, Arco do Triunfo, Champs-Élysées, Catedral de Notre-Dame, Museu de Belas Artes em Nantes, Museu de Arte Contemporânea em Nice e por aí vai. Como ainda não tinha visto o garoto, quando fui encontrar sua mãe para discutirmos sobre minha dissertação (Salve mestre!), a primeira coisa que me ocorreu indagá-lo foi: E aí rapaz, como foi lá na França?

... Falou-me com cara de decepção diante da minha falta de originalidade:

__ AI NÃO, para de falar isso, eu não aguento mais esse assunto!

Decepcionado, foi assim que ele ficou. Por que não lhe perguntei sobre o curso de pintura que fizera lá? Por que não fui mais pontual ao tentar abrir um diálogo com o garoto?

Silêncio nos primeiros segundos. Meu marido assobiou e olhou para o lado como se não tivesse ouvido nada. A mãe dele riu meio sem jeito. Eu concordei- imediatamente – ratificando, inclusive, que ele deveria estar muito aborrecido com os extensos interrogatórios sobre o país desde que haviam chegado.

Durante o resto da noite, fiquei pensando nas tantas vezes que eu quis dizer: por favor, não gostaria de falar sobre o assunto. Ou, ‘ não tenho interesse a respeito disso ou daquilo’. Quem sabe: ‘olha, você já me falou disso antes. Aliás, todas as vezes que nos vemos’. ‘Não, não posso!’. Que nada! Os adultos perderam a noção da sinceridade. Inventamos uma situação agradável quando tudo que queríamos fazer era fugir dela. Pior, fiquei pensando nas vezes que me esforcei para não ser indelicada e me submeti à vontade alheia. Mas naquela noite, aquele menino, com cara de pequeno príncipe, me fez sentir vontade de ser livre e de ser inteira em tudo que penso e sinto. Não que eu tenha me rendido à falsidade, mas, algumas poucas vezes, agi com cordialidade em detrimento do meu desejo.

Júnior me tocou aquela noite. Sua pureza jamais saberá o quanto me havia dito com uma só frase sincera e lúcida. Felizmente, ainda é permitido à criança este tipo de liberdade, já que, se um adulto o fizesse, seria tachado de, no mínimo, ignorante! A criança, por sua vez, tem esse poder de ser o que se é sem máscaras ou disfarces. Aos adultos, não lhes é permitido tamanha atitude de honestidade. Para ser sincera, os receptores é que não estão preparados para receber a verdade.

“Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança, desde que me tornei homem, eliminei as coisas de crianças”. Isso significa que vamos nos afastando do que somos na essência... Melhor eu visitá-lo outras vezes para ele me ensinar fazer resgatar a criança que matei dentro de mim quando fui crescendo.



27/06/2011

Exótico e óbvio


Mulher Chorando - Pablo Picasso


Cronista 
                
        O que aconteceu com Bruna Lombardi, Xuxa, Paula Burlamaqui, Ana Maria Braga? Por que essas mulheres insistem numa beleza que não lhe pertence? Por que congelar a imagem tornou-se para elas uma regra?
Desde que inventaram a cirurgia estética e o botox que a mulher nunca mais foi a mesma. Surpreendo-me quando ouço algumas dizerem que “esperam a idade para entrar na faca”. As crianças de hoje lamentam não terem idade para as cirurgias e as adolescentes, antes de terem o corpo formado, se deformam com silicones e maquilagem. Há uma contradição nesse modo de viver: quer-se envelhecer quando não se deve e morrer jovem quando não se pode.
A pressa de viver tem levado a juventude para a degradação dos químicos. Quando não é o álcool ou outras drogas, são os produtos para o rosto, corpo ou cabelo. Mas nem isso é suficiente, porque nada faz da mulher uma fotografia. A corrida pela aparência não resolve a fatídica corrida contra o tempo, nem a verdadeira imagem no espelho. A última mudança do mundo é essa famigerada fome de viver tudo de uma só vez, sem respeitar as etapas, nem as marcas do amadurecimento.
        Que diferença faz para o Brasil e para a Bahia a aparência estética de Maria Bethânia? O branco de seu cabelo, escovado como “antigamente”, é como uma liberdade perdida. Quando vejo Bethânia, não vejo outra.
        No mundo uniforme dos cabelos não há mais lugar para as ondas do cacheado, nem o emaranhado impermeável do negro, porque neste mundo não há lugar para diferentes e, ser negro, ainda é ser diferente. Melhor esticar ou pintar de louro e parecer outra, ou outro, como fazem alguns jogadores de futebol. Enquanto isso, nos fogem as imagens africanas das ruas. Espaça-se a diversidade original da ruiva, da loura, da morena – do índio, do mameluco e da mulata.
        Nunca entendi o que ou quem estamos procurando. A beleza muda, dizem, mas parece que o que muda mesmo é o conceito. Há uma distorção entre beleza comercial e a verdadeira beleza: “a beleza do erro, do engano e da imperfeição”. Quando entenderão que “a beleza é em nós que ela existe”, que “a beleza é um conceito e a beleza é triste”?
        Haverá um dia em que nos surpreenderemos quando não nos encontrarmos mais. “E aquilo que neste momento se revelará aos povos surpreenderá a todos, não por ser exótico, mas pelo simples fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio”.

Licença Creative Commons
Exótico e óbvio de José de Paiva Rebouças é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogdojottapaiva.blogspot.com.

26/06/2011

Boinho


Mote:
Eu vi o seio da lua
amamentando uma estrela

A poesia de Boinho, poeta remanescentes da grande era de Assú – RN, a terra dos poetas. Gravado durante festa de São João, padroeiro do município.

José de Paiva Rebouças

O beijo


Beijo - Toulouse-Lautrec



”Quem não beija é como um morto”.
Johann Goethe

         Foi com um solene beijo que Judas, o discípulo intelectual dentre os 12, entregou seu Mestre à sanha dos inimigos. Na Idade Média selavam-se acordos com um beijo, nada mais emblemático do que um selo na boca. Os jogadores de futebol, os menos preconceituosos, beijam-se uns aos outros na comemoração do gol, o supremo momento, quase um orgasmo pela vitória iminente.
         Ele, o beijo, há 1.500 anos já era motivo de fofocas na Índia, pois lá estão os registros, ainda, nas paredes do templo Khajuraho, mencionando pessoas que se beijavam. O que não se pode provar é se os beijoqueiros praticavam a modalidade que todos nós apreciamos, dentro do templo ou noutro local. Em sendo mexericos, supõem-se que tais leves sucções terem acontecido dentro do lugar de respeito!
         Escreveu Julie Enfield, o gostoso livro A História Íntima do Beijo. Há relatos, meio científicos, não completamente provados, de que o beijo está relacionado com a antropologia. No começo, em plena era das cavernas, a mãe mastigava o alimento para dá-lo aos filhos, o mesmo que certos animais fazem até os dias de hoje. Tentam, pelo fascínio que o beijo exerce em cada ser humano, mostrar de alguma maneira, a origem do ósculo – que em certas ocasiões é sinal de cumprimento e boa vontade, noutros, porém, significa carinho, afeto, paixão, amor no contato com os lábios, e, noutros momentos menos prazerosos, até traição.
         Mas será que não estaria o beijo, ligado tão somente ao prazer tátil? Tem uns aficionados pelo prazer do beijo que sustentam, num esforço supremo de buscar na História a natureza e o sentido do dito cujo, que chegam a afirmar que, antes do beijo, já se fazia sexo. Depois foi um ingrediente a mais nessa sensação e experiência natural entre os animais, racionais ou não.
         O certo é que os esquimós não usam o beijo para tais finalidades acima mencionadas. Preferem o toque com o nariz, talvez tenham herdado dos antigos egípcios, ou vice-versa. É deveras curioso na hora da cópula trocar leves narigadas, também noutros momentos como adeus, até outro dia, ou na despedida e nos cumprimentos de praxe.
         Chegamos, então, ao beijo na boca. Modernidade ou costume que vem de eras remotas, evoluindo com o tempo. A invenção de se beijar na boca, atribui alguns estudiosos, a certos macacos que se mordiam em ritos pré-sexuais. Será? Não duvido nada, pois há casais apaixonados que se mordem na hora do beijo. Às vezes, até mingua sangue dos lábios...
         Portanto, pode ser que o significado do beija tenha mudado ao longo dos anos, mas o fato é que ele existe desde antes da própria humanidade, o que se pode deduzir pela observação de alguns antropólogos e de outros pesquisadores. Isso é correto? Não estou aqui para duvidar, mas que a cada dia o beijo faz cada vez mais parte do prazer entre as pessoas, isso ninguém pode negar. O beijo significa tudo: desde um “estou apaixonado”; “eu te amo” até a “traidor(a)”, seja ele aplicado na boca ou em qualquer outra parte do corpo.

[AUTOR CONVIDADO] Willian Lopes Guerra é de Apodi - RN. Advogado; escritor e ensaísta.

O sequestro do santo


Procissão - Sadi Naif



Quando li Tieta, romance de Jorge Amado, foi inevitável associar Sant’ana do Agreste, cidadezinha onde a história acontece, a Apodi, pois assim como lá, por aqui tudo também é novidade que passa de boca em boca e se tem uma pitada de malícia ou infortúnio nos acontecidos ai o disse me disse fica mais divertido ainda. Muitos até exultam numa alegria quase perversa de ser o primeiro a contar e por tanto regalar-se em sua maldade até deixa de perceber a suavidade do beija-flor pairando lindo na sua fragilidade para alimentar-se da flor porque aproveita o momento em que o homem predador distrai-se nas suas confabulações.
Eu, nascida e criada por estas bandas, certo dia deixei de atentar para tais minúcias e fui alimentar essa face esquisita que sei não é só minha e a novidade que percebi e até incrementei com astuta imaginação deu-se assim:As pessoas começaram a chegar na praça com suas melhores roupas. Perfumadas e sorridentes, aguardavam com paciência religiosa o início da procissão em louvor a São João Batista, o padroeiro mais festejado da cidade.
Crenças. Costumes. Religiosidade.
Uma festa onde o sagrado e o profano se fundem bem em frente ao cruzeiro da matriz; onde as pessoas rezam, cantam, pagam promessas em nome de Deus e de João, no entanto, nem descem o último degrau da igreja, já estão a dançar o bem  animado forró nordestino dopados pela caipirinha, quentão e cerveja. Pois que toda essa alegria culmina na peregrinação pelas ruas da cidade - todos devotos de João.
A rigor, o santo também vem à praça com seus melhores adornos, com as flores mais bonitas, com laçarotes de cetim em várias cores – verde, vermelho e outras mais – a rodear-lhe os tornozelos, tudo para enaltecer suas virtudes de santo, o excelso soberano. Quando ele surge majestoso no adro da matriz, os sinos repicam, os hinos, as orações, por um instante é o eco harmonizador de todas as ideologias e convicções.
É o grande momento da festa.
Mas, no dia 24 de junho de um ano de grande efervescência política, o santo tardou e a ansiedade cresceu por entre a multidão curiosa e sedenta de notícias:
_Por que tanta demora?
_E o santo que não chega?
Falou-se até em sequestro...
Mas que absurdo!
No entanto, uma razão mais sutil percebida nas entrelinhas das conversas pelos atentos de alma maliciosa parecia profanar o entardecer do João Batista.
Mas que razão seria esta a tumultuar assim a inabalável e herética fé dos corações joaninos?
E o vento festivo trazia os sussurros:
_Lideres...
_Irão aparta-se...
_Novos rumos e tendências...
Ora, me pergunto: por que a imaginação tem tantas asas? O que teria em comum a demora do santo com um racha entre os baluartes desta cidade? Certo que, politicamente, vive aqui um povo extremamente passional... mas, a esse ponto?
Apenas a estatueta que, tradicionalmente, trajava-se na maternidade à luz das novas vidas, no ano em curso, tomou outro rumo e foi ornamentar-se na BR 405. Agora, verdade seja dita: com muito glamour.
E eis que surge o santo abençoando com seu petulante dedo de gesso o mundo revesso que girava a seus pés.

[AUTOR CONVIDADO] Cléa Morais é professora em Apodi – Rio Grande do Norte

25/06/2011

Carência


Sofrônia - Lutero Proscholdt



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Quando ele entrou na sala eu já estava sentado à mesa há muito tempo. Quis reclamar o atraso, mas, como eu ainda me mantinha são, era melhor ficar calado. Alto, barbudo e com um nariz torto, oriundo de uma das brigas de rua de seu tempo de mercenário, depositou sua mala surrada em cima da mesa e começou a contar o dinheiro. Diverti-me com um pensamento de um episódio de Pica-Pau, no qual ele dividia a comida com outro personagem, de modo que ele ficava com tudo no final. Ele jogou uma nota de vinte amassada que tirou do bolo desigual da sua mão. Logo depois mais outras duas notas de vinte. Uma nota de cem. “Ai está pelo serviço!” no final de tudo. Recolhi meu dinheiro sobre a toalha que um dia foi vermelho-sangue e saí pela porta dos fundos do bar, tudo conforme manda o figurino.
Eu era feliz. Eu era estupidamente feliz. E não admito que alguém me diga hoje, clichês do tipo “você tem que superar o passado”. Sinceramente, é melhor deixar o passado como meu melhor amigo.
        Mônica não era exatamente linda. Baixinha, longe da altura ideal que as mulheres fúteis e entupidas pela mídia almejam. Adorava amarrar o cabelo de lado, de uma forma bem incomum, tenho que admitir. Nunca tirava um par de tênis coloridinhos dos pés. Seu segredo bem mais escondido eram duas tatuagens que tinha logo acima da coxa: um morango e uma pimenta. “É meu lado doce, inocente e meu lado agressivo e picante. É coisa de mulher, você não entenderia”.
        Sim, Mônica, eu entenderia sim. Eu entendi desde o dia que te conheci na fila do parque de diversões. Você, novinha, 16 anos, cabelos vermelhos tingidos de forma porca pelo crepom roubado das lojas do centro (fato que descobri bem depois). Você e mais um grupo de garotas histéricas. E só você me fez parar no tempo e sentir os pingos de chuva. Não sei por que, mas quando algo me chama muita atenção saio do ar por uns minutos e sinto gotas. Nem sei de onde elas vêm.
        Com todos os pensamentos pedófilos possíveis, segui seus passos durante o parque inteiro. Acho que você deve ter se perguntado qual seria a razão de eu estar, coincidentemente, nos mesmos brinquedos que você? Um quarentão careca e barrigudo e sozinho em um parque de diversões colorido e barulhento.
        Tenho minhas manias, tá bom? Frequentar lugares públicos sozinho é uma delas.
        Mentira. Eu ia a tais lugares sozinho porque, por alguma razão, o velhinho aqui não era considerado uma boa companhia.
        Lembro-me de você bem suja de algodão doce vindo em minha direção, sem parecer ter a noção de verdade do que estava fazendo. Tenho certeza de que ainda há pedaços de unhas de tão forte que agarrei o banquinho e fingi que não vi você se aproximando. Senti-me um virgem diante da garota mais popular do colégio.
        Praticamente era, né? Algo em mim afastava as pessoas. O relacionamento mais longo que já tive foram algumas horas nos braços de algumas prostitutas que, pacientemente, escutavam meus relatos de homem velho solitário enquanto arrancavam cada moedinha que podiam do meu bolso. Sabe o que é bullying sexual? Era mais ou menos o que acontecia quando eu conseguia levar alguma mulher pra cama: a exclamação “que pinto pequeno!” seguida de uma risada alta e um “valeu, fica pra próxima”. Depois de quase ter matado a terceira que fez isso, desisti. Era melhor pagar.
        Mônica, Mônica. O que você viu em mim? Ao meu lado, naquele banco velho e mal pintado, começou a conversa mais empolgada do mundo falando de como quase vomitava naquele brinquedo que nos virava de cabeça pra baixo. Eu sorria e concordava maravilhado com sua inocência. O cabelo vermelho crepom molhado pelo suor e pedaços cor-de-rosa por toda a sua boca tornavam a cena ainda mais perfeita. Suas amigas a chamavam demais, mas você insistia em permanecer com aquela conversa. Dispensou todas as meninas e voltou pro meu lado.
        Depois de um tempo, olhou pro relógio e disse: “Nossa, tenho que ir!”. E correu. Não me deu a chance de me despedir. Não me deu a chance nem de me apresentar como futuro e único homem da sua vida. Pra minha surpresa, você voltou correndo com um papelzinho com seu número anotado: “Liga pra mim. Adoro sorvete de morango!”. E correu rumo ao portão de saída.
        Dentro do bolso da camisa, perto do coração, guardei aquele papelzinho. Mas nem precisava. Decorei aquele número em dois minutos. Parecia que já sabia aquele número desde sempre. E foi o número para o qual liguei muitas vezes nos três anos seguintes. Foi a razão da minha vida durante três anos. Dos seus 16 aos seus 19, mais precisamente. Conspiração divina?
Aquele dia era seu aniversário e você estava comemorando com suas coleguinhas, que também encheram você de perguntas sobre “aquele homem feio e careca” que você sabiamente respondeu como sendo “cliente da minha mãe”.
Por falar no seu pai, que foi um filho da puta ausente, por deixar você e sua bela mãe sozinhas tão cedo. Tenho que admitir que Cláudia foi a mulher mais bonita que já vi na vida. Um ano depois do nosso namoro começar, você fez questão de me apresentar em casa. Pra minha surpresa, sua mãe foi um anjo e ainda fez piadinhas com minha idade: “Que bom que minha filha escolheu um homem experiente pra ela! 42 anos são ótimos! Pelo menos você não tem 21 e vai deixá-la grávida aqui, né?” e fechou com uma risada bem gostosa.
        Suas amigas se afastaram. Você prestou vestibular naquele mesmo ano e passou para o curso de Direito. “Quero f*der com caras que nem meu pai e jogar todos na cadeia!”. Com uma determinação de leoa que eu nunca tinha visto em ninguém. Sua vida era seu curso e eu. Minha vida era só você. E claro, muitas tardes divertidas ajudando sua mãe com os bolos que garantiam o sustento da casa.
        Lembro-me de uma tarde em especial, que sua mãe me disse o seguinte: “Sei que você é amargurado por alguma razão que prefiro não descobrir. Sei também que você não gosta da sua aparência. Mas saiba que é um homem de ouro. Só permiti entregar minha filha a você porque sei que a faz feliz. Não há mais influências ruins em sua vida, não há mais bebida, não há mais amizades desnecessárias. Você foi a luz! E eu dou graças a Deus todos os dias.” Foi o dia mais feliz da minha vida (fora os que eu passava com você, claro).
        A gente era feliz e pronto. No seu aniversário de 19 anos, por coincidência, o mesmo parque de três anos atrás estava na cidade. E foi o mesmo parque que te tirou de mim. Brincamos em todos os brinquedos possíveis, de mãos dadas, com troca de beijos e ignorando os olhares de reprovação. No final da noite, na porta do parque, uma bala perdida. Simples assim. Atinge em cheio seu lindo e doce coração. Gritos, correria e eu amaldiçoando pra sempre quem tinha tirado minha razão de existir. Minha felicidade durou exatamente três anos. Três anos de puro algodão doce.
        Só pra constar. Os R$ 160,00 que recebi do brutamontes foi o pagamento por uma das festinhas infantis que organizei junto com sua mãe. Ela está grávida e espera outra filha que batizaremos de Mônica, em sua homenagem. 

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Carência de Davi Moura é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogadorocomer.blogspot.com.
    
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