31/05/2011

Crônicas, bicicletas e All Stars


De Jerk


Professora

Algo anda me impelindo às bicicletas. Não apenas porque meu filme de animação predileto seja as Bicicletas de Belleville, nem porque sempre tive dúvidas entre casar ou comprar uma bicicleta. Não. È que a palavra insiste em aparecer para mim. Anúncios. Notícias. Conversas. Placas. Faixas de trânsito reservadas exclusivamente para ciclistas.
Bicicleta. Ecoa. Bicicleta. Justo este objeto? Curioso é que tem evocado em mim sensações das mais diversas.
Bicicletas!
Outro dia até me lembrei da musica de Toquinho. Bicicletas parecem ser idílios em duas rodas. Um idílio do qual eu nunca pude desfrutar. Não aprendi a andar de bicicleta. Não creio que tenha sido por conta da ausência de uma em casa, pois minhas irmãs aprenderam mesmo assim.
Bicicletas foram o sonho de consumo de muita criança, mas para aquelas que tinham telefone em casa poderia até ser uma realidade não tão distante. Elas podiam arriscar a sorte de ganhar uma no programa do Bozo. Ganhar uma bicicleta no Batalha Naval era a glória.
Irmã e eu não ousávamos pedir uma de presente. Papai Noel até existia, mas demorava mais de ano para passar por nossas bandas. Depois não trocaríamos as roupas por brinquedo. Blasfêmia! Também não tínhamos esse poder de barganha. Foi aí que aprendemos a amar o que tínhamos. Peguei amor aos meus sapatos. (Irmã ainda cultiva essa obsessão, diz ela que é quase uma arte.)
Melissinha não gostei muito não, dava um chulé danado. Gostava por demais do meu Conga, do Bamba mais ainda. Agora, nunca me esquecerei do meu primeiro All Star azul de cano alto. Nando Reis parece que também amou um, deve ser pela sugestão libertária contida nele. Já eu amei de forma possessiva, não tinha nada a ver com a liberdade.
Depois de um ano o All Star não cabia mais. Pela regra eu tinha de passá-lo adiante. Ah, não. Meu All Star azul de cano alto de apenas um ano de uso!
Só parei de usá-lo quando os calos não permitiram mais, então, ao invés de entregá-lo para a doação, os escondi. Era o que eu tinha de mais valioso. Lindo. Azul. E o cano alto? Desaforo!
Não duraram muitos meses, minha mãe descobriu o esconderijo e passou o sapato adiante. Pior, para aqueles homens estranhos da combi. Se ao menos pudesse doá-lo pra irmã e, de alguma forma, tê-lo perto de mim, mas o pezão dela não deixava.
Não estou falando de vaidade, nem de necessidade. Mas de apego àquilo com que nos identificamos. Eu era aquele All Star azul de cano alto. Tá, Narciso de frente pro espelho? Tudo bem, mas olha, o Eclesiastes há muito tempo também já disse que tudo é vaidade. E ele disse TUDO, viu? Por favor, não me condenem!
A questão era: não cabia uma bicicleta nesse contexto, só o meu All Star, que agora não me cabia.
Bicicleta: dois ciclos que giram, que servem para mover a vida, mas agora, precisamente, emperrava a minha. O mundo insistia em se dividir entre os que sabem andar de bicicleta e os que, por uma entrega amorosa, não sabem. Como pude chegar até aqui sem saber andar de bicicleta? Anomalia! Hoje vejo que muito pouco me serviu o amor dedicado aos All Stars. Deveria ter desejado uma bicicleta.
Um amigo, se é que assim posso chamá-lo, disse que agora seria algo impraticável, levando em consideração a minha atual massa corpórea e a força que a gravidade exerce nela, além do deslocamento
_Δt_, uma queda seria fatal. Quebradura na certa. Fiquei indignada. Como assim? E o tal de “Nunca é
Δv  tarde para aprender?”. Bordado, ponto cruz, crochê, jardinagem, yoga, meditação era mais recomendável.
Quando fico triste com a rudeza do mundo leio Bandeira. Não é que até ele partilhava da minha dor. Pela primeira vez os versos “andarei de bicicleta/ montarei em burro bravo” fizeram mais que sentido. Mas, Bandeira, quero minha Pasárgada aqui e agora. Vou aprender a andar de bicicleta. Agora é uma questão existencial, sabe, se aprendo ganho o jogo, ou seria uma questão transcendental?
Por enquanto vou paquerando aquele All Star branco de cano alto e, melhor, de couro, com a grandiosa vantagem de não ter de doá-lo a mais ninguém.


A ida de Antônio e a espera de Karina


Regiane S. Cabral de Paiva

Professora

A José,

“Se avexe não, amanhã pode acontecer tudo inclusive nada...”


Se Antônio não tivesse ido e se Karina não tivesse esperado, certamente, ainda não teriam nascido.

Antônio seguiria perdido no seu fatigado cotidiano povoado de perturbações. Estaria ainda sonhando com infinitas possibilidades e ainda estaria bebendo das camas sombrias juntando os retalhos de si. Andaria pelas mesmas vielas e teria os mesmos passos inoperantes de sempre. Comeria a mesma comida insossa e desenovelaria, todas as noites, as utopias que havia entrelaçado ao longo do dia. Estaria vivendo na mesma cidadezinha sem teto nem janela e alimentaria a dor de não saber da sua parte no mundo. Possivelmente, se condenaria pelo fracasso das escolhas e se submeteria a qualquer indício de capricho insano. Experimentaria o fel da desdita e se renderia ao primeiro vento forte vindo do oeste. Entregaria as suas páginas à prisão que se permitira e seria engolido pelo destino que os outros lhe haviam traçado. Seria apenas mais um naquele finzinho de mundo perdido num tempo estático onde o nada representava o tudo.

Karina se tivesse sido medonha, teria se submetido aos sobejos que lhe ofereciam. Teria se rendido às mais falsas promessas e estaria mastigando o desenxabido arrependimento. Ou se não, teria sido sufocada pela poeira que se acumulara no cômodo da solidão de si. Teria seguido com sua rotinha friamente calculada e nunca saberia o significado da palavra emoção. Certamente, continuaria com suas ações previsíveis e não ousaria mudar o quarteirão por medo de caminhar pela nova via. Estaria, ainda, sob o jugo de um conceito quadrado e limitado de ser gente. Render-se-ia à tradição hipócrita e seria mais uma dissimulada no mundo. Se não fosse paciente, nunca teria sabido o que havia dentro de si. Até aquele momento, vivia sem saber da vida.

Mas Antônio e Karina cansaram. Largaram os preceitos, conceitos, medos. Antônio fez poeira. Karina à janela. Desde então, nasceram e conheceram o mundo.


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A ida de Antônio e a espera de Karina de Regiane S. Cabral de Paiva é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com.br.

30/05/2011

O tempo e as horas


Cena do filme A máquina o amor é o combustível


Cronista

Para Regiane

Onde estariam agora se ele não tivesse saído e ela não tivesse esperado pacientemente?

Antônio
O que Antônio era antes de tudo não representava a pequena parte da sensação da espera. Ânsia e fome de vida. Desespero pelo desapego fatídico. As mãos pequenas e brancas são a primeira lembrança. Uma seqüência musical e uma estrada – longa e indivisível. Mas ele já havia saído e só depois pensaria na consequência ou, talvez, a construísse como nunca tinha feito antes. Deveria seguir no rumo contrário de sua vida porque era o rumo que abandonou antes de tudo começar. Uma longa viagem feita de uma só vez, como quem vai para a morte, porque é a morte quem determina o fim e o recomeço. E o tempo se fez tempo porque as mãos passeavam sobre a mesa sem entendimento, embora no peito uma explosão denunciasse os subentendidos. Havia-se marcado naquele exato momento o começo concreto de uma solução, mas ambos sabiam que de nada adiantaria a pressa do toque ou a amalgama das palavras. Era tempo de prudência para Antônio e ele compreendeu mesmo sem que nada fosse dito. Não adiantava mais apenas aceitar a vida, era hora de sê-la, intervindo e fazendo-se aceitar os rumos. A vida era apenas uma parte do tudo, porque a vida não era Antônio, Antônio a possuía e agora se possuía também. E Antônio seguiu sem ouvir os gritos nem olhar para trás.

Karina
Esperou como nunca se espera. Karina não sabia de nada. Não determinava o que iria acontecer, mas ela também sabia. Esquivou-se do medo e deitou-se branca sobre a possibilidade de ser também controvérsia da palavra, porque Karina passou a ser tão palavra quanto. Do que adianta vislumbrar uma luz que não lhe pertence? Melhor usar a sua própria e incendiar a escuridão que lhe compõe para descobrir quem a fabrica. Fazer a luz é o primeiro ato, porque sem a luz só o escuro importa. Esperar é o maior sacrifício e não é uma ação estática. Esperar é também ir na hora certa de colher o centeio e colher os melhores grãos na quantidade certa. Do centeio obtêm-se o pão e a cerveja que alimenta e mata a sede, sua e do outro. Mas para resistir aos invernos, quando não se planta, é preciso limpar o celeiro para que o centeio seja melhor abrigado e resista até o próximo verão, quando os campos voltam a ser semeados. E Karina aprendeu a semear os campos e a manter o ouro de seu centeio.

Karina e Antônio
Onde estariam Antônio e Karina se não tivessem saído e esperado? Como haveria hoje apenas um tempo para ambos, sem a prudência da hora e sem o primeiro passo? Onde estariam Antônio e Karina se não estivessem aqui hoje?

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O tempo e as horas de José de Paiva Rebouças é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogdojottapaiva.blogspot.com.

29/05/2011

A última viagem


Alfredo Andersen


Minha última escapada física do mundo cotidiano dos compromissos vai completar onze meses. Digo última escapada física porque as mentais e oníricas são recorrentes e necessárias.
Conheci Guarumby, a montanha azul. Ou, pelo menos, foi assim que os índios que habitavam o Paraná, antes da invasão portuguesa, a batizaram. Na verdade não se trata de apenas uma montanha, mas um grande conjunto com oito montanhas principais, dominadas pelo Olimpo, com mais de 1.500 metros de altura.
Guarumby ou Marumbi, seu nome moderno, não é exatamente azul. A vegetação da Mata Atlântica estende-se como um tapete por boa parte da grande rocha. O que fica exposto para fora do tapete é cinza e preto, tem ranhuras e reentrâncias. O azul de seu nome, especulo, deve-se provavelmente à sua proximidade empírica ao céu. Explico. Subir as montanhas por suas diferentes trilhas é uma experiência física e mental. Física porque os músculos se contraem e ardem, o suor liberta-se, a pele das mãos raspa na pedra e na madeira. Física porque os pulmões enchem-se de ar, o coração acelera e as pupilas se dilatam para desvendar caminhos e passagens. É mental porque os sentidos tornam-se bússola e mapa de uma viagem pelo fértil solo da reflexão. Refletir é comungar. Comungar é pertencer. Pertencer é fazer parte. Fazer parte é misturar-se ao musgo úmido, ao orvalho preso na folha, ao cheiro da terra que penetra a alma pelas narinas. Misturar-se é sentir a casca rugosa das árvores, é ser oprimido por sua força ancestral e, então, somente então, ouvir as histórias que a rocha reverbera no vazio. Abrir os olhos ao testamento do mundo.
Tal experiência é empírica e te aproxima do céu, ou melhor, do majestoso Azul. Lá você pode escolher a insurreição dos sentidos. Lá você pode abrir os ouvidos ao estrondoso caminhar do Vento e sentir seus pés sapateando em sua face.

[AUTOR CONVIDADO] Antonio Augusto Marcatti é paulista da Zona Leste de Sao Paulo. Formado em História pela USP, leciona na rede pública municipal.

HOMEM DE PALHA [Ensaio sobre o palhaço]




“Cultivemos o riso contra as armas que destroem a vida. O Riso que resiste ao ódio, à fome e as injustiças do mundo. Cultivemos o riso. Mas não o riso que discrimine o outro pela sua cor, religião, etnia, gostos e costumes. CULTIVEMOS O RISO PARA CELEBRAR AS NOSSAS DIFERENÇAS.”
Luiz Carlos Vasconcellos

Às vezes há um amigo, ou não, fazendo momices, nem sabe ele que está sendo palhaço. Em certos momentos pessoas atribuem à careta que fazemos a atos de palhaço. Muitos, até, com certa reserva ou criticando lá consigo, pensando que ele mesmo já não foi palhaço um dia, nem que fosse por alguns minutos.
Qual o demérito em ser palhaço? Nenhum. Acho até que somente os iluminados, igualmente aos pensadores mais proeminentes, têm o dom, o biótipo, as características para empreender o magnânimo ofício de palhaço. Este não é um vadio.
Ser palhaço é ter grandeza de alma, é ser bizarro, liberal, nobre e generoso. Em certas ocasiões, por trás daquela pintura extravagante, com um nariz sobreposto também extravagante, se esconde alguém solitário, triste, desiludido da vida, algo que nós traduzimos como estar, aquele ser longânime, chorando, mas fazendo todos nós rirmos.
Palhaço vem do termo italiano omino di paglia que podemos traduzir para “homem de palha”. É, em suma, um artista que nos diverte em espetáculos de circo, ou noutro evento qualquer. Com suas vestes grotescas, gracejos, pilhérias e trejeitos, em certas ocasiões combinados com malabarismos, faz-nos esquecer os problemas por alguns instantes de puro lazer e, talvez, ele mesmo, não consiga desgrudar seus problemas e, assim, rir por fora e chorar por dentro.
Por isso a minha admiração por essa profissão que remonta 5.000 anos, nascida, quem sabe, na China antiga. Daí a minha homenagem mais do que sincera aos palhaços ainda resistindo no mundo inteiro.
E os seus nomes, ou apelidos? Carequinha, Torresmo, Pipoca, Garrafinha, Chuchu, Pimpão, Teco-teco, citar estes, pois a lista é imensa. Quantos desses não estiveram no centro das atenções, nos proporcionando momentos de alegria? Vêm em grandes circos, ou em pequenos. O palhaço geralmente é aquela pessoa humilde que não conseguiu emprego. Passa a viver na rua da amargura, bebendo para esquecer que bebe. Tropeça na própria perna cai e fica com o nariz vermelho. Ao redor da boca exibe a espuma da cerveja, é o branco da boca de palhaço. Sem dinheiro, sua roupa se esfarrapa e os circunstantes lhe dão quaisquer vestes, não lhe caem bem, serve de chacota. E, a partir daí, a sua função é a graça – como engraçado e como gracioso.
Faz mais piadas com a revelação do ridículo que cada um de nós carrega, pois todos têm a capacidade de errar e perder na vida. O palhaço é a essência da representação humana, seja num picadeiro de circo, na penumbra de um palco de teatro ou mesmo na rua, a divertir e ser achincalhado como recompensa por suas palhaçadas. Mas não se esqueça: o olhar do palhaço capta a sua dignidade ou o seu desprezo por sua figura esdrúxula. 
Pejorativamente, às vezes, chamam-nos de palhaços como se tal profissão fosse privilégio dos insociáveis e marginalizados. Deturpam o seu significado. É a ignorância fazendo injustiças, agredindo, nas brincadeiras de mau gosto, os deboches demasiados, e, em certos casos, traumáticos, ofendendo a moral: calúnia, difamação, injúria. Quando nos tacham de palhaços, pode ter certeza que é raiva e humilhação.
O Homem de Palha é digno, singelo, merece o respeito e o reconhecimento de cada um de nós. Se o destino o jogou num picadeiro de circo para divertir a todos nós, foi porque o escolheu para ser mensageiro da alegria, proporcionando às crianças, jovens e idosos momentos mágicos de intensa felicidade, mesmo sabendo, que por trás daquela máscara exótica, se esconde um ser humano igual a todos nós, que chora, rir e sofre.


O dia do palhaço é 10 de dezembro.


[AUTOR CONVIDADO] William Lopes Guerra é advogado, pesquisador e escritor em Apodi, herdeiro dos direitos da obra de seu pai, Walter de Brito Guerra.

28/05/2011

Não, para. Não, para. Não para!



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Todos os motivos do mundo pra odiar você:

10 – Odeio quando você chega em casa estressado do trabalho, mas mesmo assim tem tempo pra brincar com as crianças, levar o cachorro pra passear e lavar a louça do jantar;

9 – Odeio o fato de não existirem amantes, paqueras ou números esquisitos no seu celular. Odeio o fato de você ser só meu. E de mais ninguém;

8 – Odeio a sua simpatia e sua amizade com meus pais. Odeio quando você é solícito e os tenta ajudar, às vezes até mais do que os seus próprios;

7 – Odeio quando você faz minhas amigas rirem. Odeio de verdade quando elas me dizem que você é o melhor marido que alguém pode ter;

6 – Odeio suas surpresas. Odeio achar flores e chocolate sem data importante ou motivo aparente;

5 – Odeio minha aliança de casamento. Odeio 24 quilates;

4 – Odeio sua visão pouco crítica com minhas imperfeições. Odeio quando você me diz que ama minhas curvas. Odeio o quanto você adora meus cachos indomáveis;

3 – Odeio quando você lembra todas as datas: 1º beijo, aniversário de namoro, aniversário de casamento, MEU aniversário;

2 – Odeio o jeito compreensivo que você me olha quando estou gritando e soltando mil palavras porcas ao vento;

1 – Odeio TPM.

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Não, para. Não, para. Não para! de Davi Moura é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at ww.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogadorocomer.blogspot.com.

27/05/2011

Alma dilacerada


Sebastião Salgado


Professora

Um suspiro.

O corpo se dilata. A alma se comprime. Os ossos doem. O ar parece esmagar o coração. O braço levemente estendido busca apoio para aquele já debilitado físico, cujas pernas dolentes não mais suportam carregar. A mão, trêmula, levemente se abre pedindo ajuda. Os joelhos se dobram parecendo ensaiar uma oração. Os dedos se cingem, como se assim pudessem suturar a incisão deixada pela afiada lâmina das palavras ditas.  As unhas encravadas sob a pele buscam incessantemente anestesiar a dor daquele instante.

Outro suspiro.

O olhar fixo na parede projeta imagens de cenas envelhecidas de felicidade. A mente caminha perdida por entre as escuras vielas das lembranças de outrora. A boca salivante tenta dizer algo. Mas os dentes cerrados proíbem os lábios de confessarem os segredos, há muito, trancafiados no cofre blindado da alma.

Quer respirar. O ar, todavia, parece fugir.

A boca seca agora balbucia algo inaudível aos próprios ouvidos. Sentimentos confusos são vomitados sobre o chão frio da solidão. Vocativos ecoam estridentes. Rapidamente, o silêncio inunda todos os espaços, na esperança de obter uma resposta. Mas o cadenciado tiquetaquear do relógio pendurado na parede denuncia o náufrago emudecer do interlocutor.

O coração bate forte. E a cada batida, o corpo exausto sente o peso do vazio. Nada mais parece haver em seu âmago. Mas há. Tudo está lá dentro, mergulhado em rios de lágrimas que teimosamente deslizam sobre os sinuosos contornos das rugas que o tempo desenhou em seu rosto.

Finalmente um novo suspiro.

Lá fora, apenas o rugido mudo e branco da saudade. Dentro, ouve-se o barulho ensurdecedor das memórias que gritam, enquanto correm de um lado para o outro, buscando transpor o campo invisível que divide o ontem do hoje.

A alma despedaçada já nada mais anseia. A não ser um último e aliviado suspiro.

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Alma dilacerada de Rokatia Kleania é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com.Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogdaprofessorinha.blogspot.com.

26/05/2011

Devora-me

Eliana Klas

Secretária

Devora-me a tua boca.
Toda ela.
Se perca em meu corpo.
Em todo ele.
E assim inteiro perdido encontre-se no meu desejo,
desejo crescente, em mim.

Sem pressa, sem medo,
Deixa eu sentir tua textura, na ponta da língua,
desfalecer nos seus braços, devorada por seu desejo,
embriagada por seu contato,
pelo seu cheiro e sua força em mim.
Deixa que eu me perca no seu olhar, no seu sorriso,
sem ontem, hoje ou amanhã.
Só este agora desmedido e incontido, perdido.

Deixa eu te sentir
No dente, na pele, na unha, no gosto, no cheiro.
Sem tempo,
sem rótulos, sem marcas, sem restrições.
Deixa que o depois se perca, e que nunca o encontremos
Que o agora seja tudo e o depois uma mentira.

Que importa os nomes? Os endereços?
Que importa todo o resto se tua boca me devora?
Que importa os caminhos, os minutos, o relógio a distancia,
Que importa um ontem inexistente, um amanhã incompleto se o agora nos bastar?

Que importa todo o resto e todo o mundo se a tua boca me devora?
Devora-me.
Com tempo e sem paciência.
Com insistência e sem receio.
Com gosto, com força, com jeito.
Devora-me até que eu me perca completamente,
Sem destino, sem caminho, sem meios, só encontrada em ti.
No meio de ti.


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Devora-me de Eliana Klas é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
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24/05/2011

Olho clínico


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Professora

Um dia curiei a ficha médica e foi mais ou menos isto que vi:
Rinite e sinusite alérgicas, bruxismo, braquicardia, tireoidismo, hipoglicemia.
Faltam dois molares. Estrabismo e astigmatismo leves.
Prejuízo nos vasos perfurantes que não se comunicam com os comunicantes.
Assimetria acentuada nos pés e no seio.
Partos: fórceps e natural.
Quando em estado de tristeza profunda ocorre erupção cutânea na região do tronco e do pescoço, alega, portanto, que seu corpo é quem chora.
Cicatrizes no abdômen por conta de vaidade exacerbada. Cicatrizes mais espessas, além derme, imperceptíveis ao exame clínico de tão profundas que são. Causa provável: orgulho aflorado.
Diagnóstico final:
Nem tango argentino dá jeito.

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