31/07/2011

Desilusão



Se
Um
Dia
Fui
sonhador,
hoje
entretanto,
Aguardo
Somente
o
sono.

Poeta

30/07/2011

Moreno alto, forte e sensual???


Figura Danificada_Werner Buttner


Publicitário

Minhas linhas foram inspiradas pela minha prima que nem sabe que é prima, Carla Moura, e o seu texto “Namore um barrigudinho”, e por uma conversa que tive com uma nova amiga, a Gaby Bennet. A Gaby é dessas mulheres lindas, inteligentes e que se preocupam com o corpo e com a saúde. É o cérebro da Lúcia Santaella no corpo da Sarah Shahi.
- Mas me diz: qual o seu objetivo?
- Ah, eu quero ficar mais firme. Odeio bomba e não quero bração. Pra mim, homem sem barriga é igual a mulher sem peito. A barriguinha é o charme.
- Hahahaha. Ai que bobo!
Depois que falei isso para Gaby, fiquei pensando no assunto. Fiz um flashback de todos os homens que já admirei na vida, de todos que almejei “ser” ou “parecer” um dia. E NENHUM tinha o padrão de beleza tomcruisiano.
Sempre fui um adolescente gordinho. Não que eu almejasse ser um gordinho para toda a vida. Mas ao contrário de outros com as mesmas características que eu, sempre tive uma habilidade enorme pra lidar com gente, dos mais diferentes tipos. Pra completar o pacote, era considerado um dos nerds da turma.
Andava com uns garotos (que, por sinal, são meus amigos até hoje) e, em pleno ginásio, onde os hormônios começam a aflorar e a gente começa a se definir como um ser social, a divisão era da seguinte forma: o divertido, que fazia todos rirem; o pegador, que já namorava naquela idade tão precoce; e o gordo. Sim. Eu era o gordo. Mas tirava notas melhores e lidava melhor com todo mundo.
Ai fui crescendo. E o trauma crescendo comigo. O primeiro beijo veio aos 17 anos e praticamente foi uma prova de fogo. Na minha cabeça, ninguém nunca iria se interessar por mim: desajeitado, aparelho nos dentes e tímido pra essas coisas. Ainda me lembro da sensação de pânico. Meu eu - lírico falando calmamente ao meu pé do ouvido: “Você vai bater à porta desse quarto, vai entrar e vai ficar com essa garota, A-G-O-R-A”. Fui, fiz.
A aceitação veio com o tempo. Acabei me assumindo como um gordinho gostoso e desisti das neuras do corpo perfeito. Analisando cientificamente, o ser com sobrepeso tem outros dons para conquistar as pessoas. É que a gente exercita o cérebro – o órgão sexual mais potente já criado.
Quero deixar bem claro que não tenho preconceito com gente com corpo escultural. É super saudável e corajoso, da parte delas, disponibilizar tanto tempo assim para cuidar do envelope. Claro, não posso ser hipócrita: quero deixar meu envelope mais bonito. Mas o que eu prefiro mesmo é aumentar as linhas da minha carta. E se o envelope vier vistoso e com uma carta esplêndida, melhor ainda!
Parei para analisar, junto com uma amiga que curte outras amigas, a beleza feminina. Chegamos à conclusão que a MELHOR costela já retirada do homem foi a mulher. Outra conclusão que chegamos foi: mulheres bonitas, que sempre foram bonitas, sabem que são bonitas e se aproveitam desse fato. Não é errado. É apenas um dom que elas receberam e tem que aproveitar sim.
Só que existe outro tipo de beleza que chama muito mais atenção. A beleza do sorriso sincero, da simplicidade, da humildade. É algo como: “Sei que sou bonito, mas não me importo muito com isso”. O ato do desapego à beleza física é algo muito mais sexy do que qualquer outra coisa.
Ao mesmo em tempo que acontece esse desapego, outros tipos de beleza são valorizadas. Conheço uma senhorita que adora um empresário:
- Meu filho, eu quero ser madame! Quero que um rico empresário se apaixone por mim e quero passar horas na academia e nas compras.
Outros dois amigos que também gostam de amigos trocavam umas palavras bem engraçadas:
- No início eu achei que eu gostava mesmo era de homens mais velhos. Mas depois de um tempo vi que eu preferia um gordinho.
- Ai amiga – velha brincadeira com o gênero típica entre eles – agora entendi tudo! Por isso que te vi rodando a bolsinha lá perto do Emagrecentro!
Mais um companheiro do clube dos cafajestes diz, no tom mais canalha possível:
- Ontem tracei uma loira gostosa pra caramba! Tinha uns peitões assim, ó – e imita o tamanho do dote da parceira com um par de mãos desajeitadas, ainda meio trêmulas por causa da cana da noite anterior.
No meio de uma sessão de fotos em um dia atribulado de trabalho, todas as teorias sobre beleza e atração vão por água abaixo por causa de um simples comentário. Ainda mais vindo de uma mulher cuja principal característica é a independência e a personalidade forte (solteira, só pra constar). O cachorrinho da madame (casada e feliz, diga-se de passagem) ao ser fotografada, corria para lá e para cá procurando o seu “pai” humano (bonito, rico e bem-sucedido).
- Nossa – diz alguém na sala – ela é fissurada em você!
Do outro lado da sala, a mulher independente diz, de maneira irônica, mas com uma tristeza quase imperceptível aos ouvidos mortais:
- E eu só queria alguém que fosse fissurado em mim...
Daí a gente vê que tudo que alguém precisa, mesmo como todos os fenótipos e genótipos pré-definidos, é um afago e a certeza de um abraço confortável e carinhoso depois de um longo dia.    


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Moreno alto, forte e sensual??? de Davi Moura é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at  ww.aspirinasurubus.blogspot.com
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29/07/2011

A beleza do simples

Casal 2 _Constança Lucas


Professora

A cada dia que passa, mais se evidencia que a maioria de nós tem uma equivocada ideia de beleza. Influenciados por uma mídia que trabalha cada dia mais em prol do selvagem capitalismo moderno, atribuímos o adjetivo belo ao que é rebuscado, maquiado, exagerado. A mulher bonita é aquela que se reveste de uma armadura de base, pó, sombra e rímel. É a que se adorna de incontáveis acessórios tal qual uma árvore de natal. Entretanto só isso não se faz suficiente. Ela precisa se matar de fome e de malhação em busca do corpo perfeito. Mas como, em nossa sociedade, a perfeição é algo inalcançável, parte-se então para uma série ilimitada de cirurgias plásticas. São cortes, recortes, montagens que transformam muitas mulheres em verdadeiras bonecas plastificadas, sem idade, sem expressão, sem vida.

Embora muitos de nós tenhamos consciência dessa infeliz realidade, continuamos cada dia mais escravos dessa tirania da beleza que, com grande facilidade, esmaga nossos princípios e convicções, substituindo a essência humana que há em nós por conceitos siliconados de uma falsa eterna juventude.

Alegra-me, entretanto, ver que ainda há esperança. Há alguns meses, conheci um casal que me mostrou que nem todos os exemplares dessa “racional” espécie foram ainda contaminados pelo vírus da beleza artificial. Jonas e Cecília. Ele, um fotógrafo profissional. Ela, uma jovem dona de casa, que recentemente voltara a estudar, após ter largado prematuramente os estudos para cuidar do filho, também vindo de forma precoce, quando ambos sequer haviam alcançado a maioridade. Hoje, já se virando nos trinta, após quinze anos de casados, eles me apresentaram um relacionamento construído em sentimentos verdadeiros capazes de enxergar além do visível aos olhos.

Ele está sempre rodeado das mais lindas modelos, verdadeiros exemplares da beleza ideal exibida a exaustão pelos veículos midiáticos. Enquanto ela, estudante de Educação Física, convive diariamente, na academia onde é estagiária, com homens de corpos minuciosamente delineados. Porém fazem sempre questão de me asseverar que jamais traíram um ao outro. Confesso que, assim como você, duvidei de início. Afinal a fidelidade, hoje em dia, é algo tão difícil de se encontrar quanto uma beleza natural. Ele, entretanto, em particular, me confessou sem qualquer constrangimento das vezes que já fora tentado diante de corpos femininos tão bem esculpidos pelos cremes e bisturis. Todavia me assegurou que, nessas horas, lembra-se sempre de que toda aquela formosura artificial, mesmo convertida nos milhares e milhares de reais ali investidos jamais valeriam a mulher que dividia com ele tanta cumplicidade, alegria, sonhos e prazer. Jonas e Cecília não dividem só a cama, dividem a vida.

Que satisfação haverá de ter em estar com alguém que de verdadeiro não tem sequer o traseiro? – questionou-me o fotógrafo. E arrematou: Amo Cecília do jeito que ela é, com todas as suas ‘imperfeições’ físicas. Amo suas celulites. Amo as rugas que já se desenham em seu rosto. Amo os quilinhos a mais ganhos nos últimos anos.     Amo porque foi vivendo comigo, na saúde e na doença, nas tristezas e nas alegrias, nas dificuldades e nos momentos de prazer que ela adquiriu tudo isso. Amo porque ela também me ama, apesar de meus incontáveis defeitos.

E quer saber? – finalizou Jonas - Não é quando ela se arruma, se maquia, se enfeita que ela fica bonita. É quando se encontra de rosto lavado, despida de toda e qualquer moda que vejo o quanto é linda a minha mulher. É na simplicidade de ser o que é que mora a verdadeira beleza da minha Cecília.

28/07/2011

Maria e Rituska


Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938), Marcella, 1909-10



Secretária

Maria dizia sempre que “não acreditava mais em uma porção de coisas nas quais já acreditou um dia.” Ainda iria patentear esta frase.
Umas porções de suas crenças ruíram pela estrada da vida causando dor e decepção.
Mas Maria sabia que a decepção ensina muito. Sempre.
Ela sabia que no fim da história o que realmente vale é seguir acreditando em uma porção de outras coisas.

Maria era de uma geração cujos ídolos das adolescentes eram os “Menudos”.
Ela, entretanto, não via a menor graça neles. Na parede do quarto pobre, colocava fotos e mais fotos do Maluco Beleza, Raul Seixas.
As amiguinhas ficavam horrorizadas diante daquele homem barbudo, magrelo, descabelado e (aos olhos das amigas) feio.
Aos olhos de Maria Raul era lindo.
As idéias dele cutucavam seu cérebro e as músicas menos conhecidas eram as que ela mais gostava.
“Canto para minha morte”, bem conhecida e feita em parceria, levava Maria ao delírio, fascinando-a por contar das verdades que desconfiava desde os bem poucos anos.
A certeza de que pode ser uma metamorfose ambulante persegue Maria até hoje.
Não tem o menor problema em mudar de idéia.
Muda de cabelo.
Muda de estilo de roupa.
E muda de vida se for preciso. Todas, quantas vezes for necessário.
Maria nunca teve receio de “desdizer o que já disse ontem” e pagar o preço pela mudança.

Ela acredita piamente que “todo homem nasce livre.”
Nunca abriu mão deste ideal mesmo quando andou por outras caminhadas.
Alguns conceitos resistiram a todas as decepções e Maria ainda os carrega em sua alma, uma alma velha e cansada de guerra.
Os conceitos foram ficando sólidos dentro dela, enraizados em sua alma, grudados em seu peito. Passaram a escorrer junto com seu suor, dar cor aos seus cabelos e fazerem parte do que Maria se tornou.

Uma das mais importantes crenças que Maria nunca abandona é na importância de ter amigos.
Acredita que amigos devem vir e ir sem culpas ou cobranças e que bem poucos são para a vida toda.
Isto não significa que não tenham sido bons amigos.
Amigos, quando são eternos, não são como plantinhas frágeis que precisam ser regadas todo o tempo sob o perigo de morrer.
Amigos eternos são com árvores velhas de troncos bem grossos.
Depois que criam raízes no solo da vida, passam por invernos terríveis e verões medonhos sem se abalar.

Maria conheceu Maria Rita na esfera virtual.
Chama-a de irmã por puro abuso, pois na realidade Maria sabe bem pouco sobre Maria Rita.
Vivem rotinas diversas em cidades diversas de um mesmo Estado.
Foi aos 32 anos, em um encontro marcado com ela, que Maria viu pela primeira vez um show de um poeta de quem era fã desde a mais tenra meninice, tão logo Raul deixou-a órfã. O Show era do compositor, poeta e cantor Zé Geraldo.
Daí pra frente “viagens e versos” cuidaram de aproximá-las.
Partilhando músicas, versos e estradas elas solidificaram aos poucos a amizade.

Há algumas noites Maria surtou.
A vida pesada pesou em sua alma e ela jurou que não acreditava em mais nada.
Gemeu e chorou. O peito ardeu e, no meio do choro, ela percebeu que não queria mais seguir adiante.
Não havia mais nada para crer.
Sem crer não podia viver.
Maria se esqueceu dos amigos e de sua força invisível.
Era uma das poucas coisas na quais ela ainda acreditava.
Mas no meio da noite fria se esqueceu.
Foi o marido de Maria que ao tentar acalmá-la cuidou de lhe restaurar a fé.

Nos braços dele que em vão tentava consolar-lhe das decepções da vida ela falou baixinho:
- Eu preciso pensar em algo bom.
Ele respondeu docemente:
- Pensa na Ritinha.
No silêncio da casa, na noite de insônia, o riso de Maria, quase um soluço, foi ouvido:
- Na Rita? Na Rituska?
O marido de pronto respondeu:
- Sim, ela sempre faz bem a quem está perto dela.
Maria Rita tem em sua quietude e em seu aparente individualismo um autoconhecimento que transpira respeito por si e daí, e só ai, pelos outros.

Rituska.
Maria Rita.
Naquela noite insone, foi este o Nome Santo que fez Maria parar de chorar.
A força dos amigos é importante quanto o sol, já dizia o poeta.

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Maria e Rituska de Eliana Klas é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.eutodososdias.blogspot.com.

27/07/2011

A menina que tinha medo da ...



Professora

À Sueli Justino, a quem desejo a imortalidade...


Para cada criança parece existir um tipo de medo. Medo muda muito de maneira, pode assumir qualquer forma.
Luzia, como todas as crianças, tinha seu medo e, por ser como todas as meninas, só não tinha medo de ter medo. Assumia-o com toda coragem. O problema era que seu medo particular era um tanto quanto singular para uma criança. Tinha medo de morrer antes de virar gente grande. Por isso, nunca falava de morte...nunca! Nunca assistia a filmes de terror, nunca ouvia histórias de assombração, nunca abria os olhos no escuro. Ir a velórios ou a cemitérios, então, nem se fale. Nem passava perto de funerária ou IML. A menina evitava mesmo a morte. Aliás, ninguém falava sobre esse assunto. Pronto, não está mais aqui quem falou.
Para se garantir, sempre que podia conferia o pulso, conferia o coração. Sabia se o coração parasse de bater, era sinal de que a “indesejada das gentes” havia chegado. Cruzes!
Também, partir assim tão novinha era uma baita de uma injustiça. Não seria mocinha, nem teria uma juventude, muito menos uma velhice...Sem filhos, sem netos, sem bisnetos. Nada. Seria nada. Que triste não existir. Para quem nunca existiu isso é fácil, mas para quem pegou gosto em existir é muito duro. E ela era viva. Era muito viva. Tão viva, que fazia mesmo pena em não vê-la viver.
Quando pensava em não existir, chorava. Chorava. Chorava que se indignava. Afinal, que falta do que fazer, tanta gente por aí praticando a crueldade, porque que a visitante inconveniente não carregava esses que aparecem na TV: os procurados, os bandidos, os malvados... Ela era uma menina tão boa, obedecia aos pais, fazia as tarefas de casa, não respondia a professora, cuidava das irmãs, rezava antes de dormir, não dizia palavrões, ia à missa, recebia a comunhão. Não, não merecia, não!
Todos os dias ao se deitar agradecia a Deus, pois ainda estava viva. Todos os dias também pedia a Ele que aquele anjo ceifador nunca aparecesse na sua frente. Já que isto seria o fim. Credo!
Embora não gostasse de ouvir sobre ...hum...hum... Vez ou outra acontecia de um, sabe? Hora ou outra ela chega e se torna um assunto inevitável. As pessoas sentem certa necessidade de dizer alguma coisa a respeito, para amansar a braveza do silêncio que as invade... “Pobre coitado, era um bom moço!”... “Quem sofre é quem fica!” ... “Está em paz agora!”...
Acontece que uma tia da sua mãe de bem velhinha, dormindo, passou desta para melhor. Dizem que esta é a melhor maneira, dizem, mas para aquela menina não existia a melhor maneira. Ficou mesmo muito apavorada com a ideia, já pensou assim, dormindo? Como será? A pessoa pode ficar aprisionada num sonho, paralisada para sempre numa mesma cena, numa mesma imagem...um pesadelo! Desde, então, pegou a mania de dormir com as mãos cruzadas por sobre o peito. Bem do lado direito. Assim, cada vez que acordasse poderia conferir se o coração ainda batia. Sorte que sempre batia. Ufa! Graças a Deus... estava viva!
Certa noite a garota despertou muito lentamente, aos poucos foi dando conta de que estava se acordando, e, como de costume, foi conferir o coraçãozinho. O que? Não! Não achava...ele... não batia! Num único pulo saltou do alto do beliche onde dormia e voou até o quarto dos pais: “Eu fui, eu fui, tá me levando.... Pai! Não tá batendo... meu coração... Pai...
Na verdade quem quase teve um troço foi o pai, tamanho tinha sido o susto. Mas logo entendeu o apavoro da filha, se recompôs e tentando acalmá-la... “Pensa, filha, se você estivesse ido de vez teria se levantado lá do alto do beliche? Teria vindo até aqui no meu quarto? Teria me dito tudo isso?”.
Verdade, a menina riu e voltou ao seu quarto, mas a ideia a perseguia...Agora mais do que nunca tinha de arranjar uma saída e descobrir outra técnica para saber quando se fosse de verdade.
Luzia pensou... Pensou por muitos dias, muitos meses, até anos. Tanto que pensou que começou a achar tudo aquilo uma bobagem. Uma irrelevância, pois sendo isso um mistério, não haveria ela, uma menina tão medrosa, de solucioná-lo assim... mas de uma coisa  ela não abria mão. Sempre dormiria coberta dos pés a cabeça com o cobertor ... não importava se frio ou calor ...  Ali bem presinho, forrado junto ao corpo, pois assim se sentia segura.
Certa vez faltou luz e todos foram dormir mais cedo. No escuro. Tudo escuro. Luzia foi logo se enrolar todinha com o cobertor, mas não tinha sono. De tanto que cerrou os olhos, ficou com dor e resolveu abri-los e foi assim que ela viu. Luzia, pasmem, luzia! Dela saia uma pequena cintilante luminosidade. Parecia um anjo do céu. Sentia-se reconfortada. Fora acometida por uma coragem soberana, dali em diante não temeu a mais nada... Absolutamente nada!

 (Publicado originalmente na Revista Cruviana: www.revistacruviana.blogspot.com)


26/07/2011

“Queridaaaaa...”


Ben Newman


Professora

        Despertador. Sete horas. Banho. Pressa. Muita.
Querida, estou atrasado. Tenho um dia daqueles hoje. Já estou estressado, tenho muito que produzir. Dia difícil esse. Estou vendo: chegarei esbagaçado, destruído. Tenho certeza de que hoje à noite vou precisar de uma massagem daquelas antes de ir dormir. Faz-me aí um cafezinho bem forte, acho que vai me ajudar. Ah! Não vou almoçar em casa, não vai dar tempo. Veja aí na geladeira se ainda tem legumes. Vou entrar numa dieta, estou me achando meio gordo... Sinto-me cansado. Que óleo é esse que está usando na comida? Melhor o azeite extra-virgem. Precisamos evitar o óleo oxidável porque provoca o envelhecimento precoce e doenças degenerativas. Vamos rever a alimentação, mas não quero esta história de mato no meu prato. Olha, apesar da minha correria de hoje, acho que vai dar certo levá-la ao supermercado. Faça a lista das compras, rapidinho, que já deixo você lá antes de eu ir ao trabalho. Veja também os garrafões d’água, parece que o último está quase seco. Ei, não dá para ir pegar a roupa na D. Maria depois? Amanhã a gente leva as sujas e aproveitamos para trazer as limpas. Eu tinha até que ir ao banco mais tarde, mas não tenho paciência, você sabe como sou. Não há meios para eu me entender com os tais caixas eletrônicos. Veja isso para mim, tá bem. É a bendita transferência... Você já falou com o encanador para ele vê a questão da torneira? Esse pinga-pinga está ficando sério. Ainda tem leite? Não, não quero queijo, prefiro só pão com essa manteiga. Querida, traz aí o açúcar para mim. Sim, já ia me esquecendo. Você ligou para o pessoal da loja para saber do atraso do nosso pedido? Oh, pessoal incompetente! As duas primeiras remessas chegaram no prazo, mas essa... melhor ligar, não vá esquecer. Ah, tem que falar também com o suporte técnico, a internet saiu do ar desde ontem... Olha, não dá importância para essa dorzinha no seu joelho, isso passa já, você precisa ser mais forte... Acho que nem lhe comentei. Aquele nosso projeto vai dar certo. Preciso que entre em contato com o pessoal e veja com eles o melhor dia para nos reunirmos e fecharmos os detalhes finais. E quanto às leituras? Já terminou com os dois livros que lhe indicaram? Melhor não acumular as atividades. Acho até que você poderia deixar essa hidroginástica. Ela está atrapalhando seu tempo, isso sim. Vai trabalhar até as dez da noite hoje? Oh, trabalho bom esse seu, expediente de 4 horas noturnas... ai quem dera! Bom, mas quando estiver perto de sair, me liga que vou lhe buscar. Eita, já estou atrasado! Querida, traga ali a pasta para mim, depressa! Vamos? Ainda não está pronta?! Você não sabe ser ágil, Deus me livre! Tá vendo, eu já deveria estar no trabalho uma hora dessas! Meu estresse começou foi cedo... aff!

25/07/2011

Amanda amostrada



Cronistas

Ouvi muita gente dizendo que a professora Amanda Gurgel só estava se aproveitando para aparecer, pensando nas próximas eleições. Amanda é aquela baixinha atrevida que no início da já finda greve dos professores da rede estadual de ensino, chamou a atenção do Brasil e do mundo ao anunciar os três dígitos do seu salário de professora (9-5-0). Ela se impôs diante da secretária de educação e dos senhores deputados quando da ausência de cuidados com o que deveria ser o mais importante serviço público do país – como é para outros. Depois disso, ganhou as telas das televisões e dos computadores e, também, a antipatia dos acostumados com a mesmice primária deste país.
É que essa gente é imediatista. Na semana em que o vídeo de Amanda foi divulgado, todos se encheram de potiguarismo e brasilidade, mas com o tempo e com o Faustão, começaram a vê-la como sujeito político. Porque aqui, neste país, sujeito político é aquele que quer ser candidato para mamar nas tetas do estado e desviar-se da conduta dos santos. Ninguém percebeu que o ato de lutar pela educação é o mais profundo ato político para qualquer sujeito. A educação é o único rio onde, verdadeiramente, podem correr leite e mel.
Ainda que Amanda quisesse se tornar figura politiqueira – o termo correto – colocando a cara à tapa nas campanhas eleitorais, mesmo sendo legítimo – primeiro por ser eleitora filiada e depois por ter uma causa política –ela até poderia, mas não deveria, porque para nossos potiguarinos brasilianos essa é uma função cabível apenas aos hereditários da política tradicional.
Não é por ser mulher, porque somos um Estado comandado, em tese, por mulheres. Também não é por ter poucos recursos financeiros ou por ser filiada a um partido que ainda prega a revolução. É apenas por falta de merecimento, por não estar ligada aos comuns, do senso comum.
Definitivamente, Amanda não serve para a política. Para lutar pelos professores e colocar-se como mártir de uma causa, sim, ela serve. Mas se candidatar à política ou a cargos públicos não. Isso porque nosso pensamento cristão entende que ser bom é ser santo: injustiçado, sofredor e morto, a espera das bênçãos de uma santíssima trindade terrestre.
- Quer saber mais, Amanda é muito é amostrada!
É, pode ser...
Lendo o seu desabafo na mídia da última semana, onde ela acusa os próprios colegas de tramarem, por fins pessoais, o encerramento da greve sem que os avanços esperados fossem concretizados, encontrei o verdadeiro sentimento da opinião pública. Partícipes da mesma novela de sempre, afinal, aqui se vê novela sabendo e narrando as partes até o final por conta dos resumos que são publicados com semanas de antecedência. Mas gostamos mesmo assim, porque, como qualquer santo, sabemos que o sofrimento contínuo é a único requisito para se ganhar o reino dos céus.

Licença Creative Commons
Amanda amostrada de José de Paiva Rebouças é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogdojottapaiva.blogspot.com.
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