29/08/11

[COMUNICADO]


       

Há seis meses você acessa esse endereço virtual para ler a produção de um dos seis A&U. Mas hoje o que encontrou foi esse comunicado. Explico: quando criei esse projeto e convidei Regiane, Arlete, Klas, Rokatia e Davi, acordei com eles que nos descobriríamos a nossa literatura num projeto em pelo menos três fases. A primeira acabou. Foram seis meses de ideias construídas pelas letras que resultou num número de acesso muito além do que esperávamos. Por isso, agradecemos a você que nos leu durante todo esse tempo e que agora lamenta nossa ausência.

Poderia dizer que estamos de férias, mas não posso, porque não estamos. Nosso momento é de reflexão sobre o que produzimos e se queremos continuar escrevendo o que estamos vendo pela nossa janela. Daqui a um ou uns meses decidiremos se voltamos, como voltamos ou quem voltamos. Enquanto isso, não pare de ler. No blog tem mais de 200 textos diferentes para relembrarmos ou lermos como outro olhar. Com elas, o mesmo número de artes plásticas de vários artistas do Brasil e do mundo.

Nós, autores, faremos isso também para decidir qual desses textos comporá um possível projeto de livro. Continue com a gente nessa, quem sabe seu comentário também não será publicado?

Obrigado novamente a todos e todas e não abandonem nunca a literatura, mesmo que seja experimental.



        Até breve.

        Organizador.

28/08/11

Memórias gramaticais


Salvador Dali


O dia nasceu em substantivo próprio.
Antes do meio-dia, fez-se comum.
Substantivamente e sintaticamente comum.
Retirei-me, então, para o adjetivo do meu quintal;
e flagrei-me a plantar rimas na cova
dos advérbios: de tempo, modo, causa e lugar.
Quando o sol quebrou no verbo da serra,
mexi nos meus predicados e, suprema conjunção,
propalei, aos quatro ventos, as tralhas poéticas,
aposto e sintagmas, das memórias gramaticais.

[CONVIDADO] Clauder Arcanjo é poeta e escritor, autor de Licânia, Lápis nas Veias e Novenário de Espinhos.

Como é chato ser gostosa!




“Maria Lucia era uma menina linda e o coração dele pra ela o Santo Cristo prometeu...” Até mesmo o personagem durão da música da Legião Urbana se rendeu aos encantos de uma bela mulher. E se repararmos bem na letra dessa música, parece que a beleza era tudo que a tal Maria Lucia tinha. E precisa de mais alguma coisa?
Para muita gente a beleza excessiva ou a busca por ela torna-se um objetivo ou uma missão de vida! Particularmente, já vi muita gente bonita, assim como já vi muita gente feia; Já vi algumas pessoas lindas, vi algumas muitas pessoas horríveis... Faz parte do nosso dia a dia.
Mas há alguns dias conheci uma garota que é unanimidade entre os mortais. Eu mesma admito ter ficado bestificada com sua beleza. Não fui a única. A menina é realmente um encanto.
Desde que a conheci percebi que todos os homens ficam loucos quando a vêm, até os gays, até os gays mais passivos já vieram me dizer que por ela “trairiam a causa” uma vez ou outra. E até algumas mulheres mais “fora de suspeita” declararam que “jogariam no outro time” se ela quisesse. Quanto às lésbicas que conheço, não vou nem falar.
Enfim, com todo esse alvoroço, eu, só por conhecer essa garota, que chamarei aqui de Maria Lucia, virei alvo desse povo enlouquecido: quem é ela? Ela tem namorado? Ela mora aonde? Ela tem namorada?
Fico besta como essa criatura pode fazer tanto sucesso. Minha primeira impressão foi que ela, por ser assim, tão... tão... “Gostosa”, como dizem, fosse uma pessoa esnobe e convencida.
Nem é! A garota se preocupa em ter algo mais além de uma bela embalagem. E mesmo com todo esse sucesso, descobri que, na verdade, Maria Lucia sofria muito.
Imagine você não poder sair de casa sem ouvir uma cantada (vale salientar que as cantadas nem sempre vêm de um loirinho escultural de olhos verdes), sem ouvir uma piadinha, sem ter um “fã” pra te seguir... E como fazer pra se livrar de certos tipos? Até psicopata apareceu na vida dela. Na escola era odiada pelas colegas que faziam planos maquiavélicos para desfigurar seu rosto por inveja de seus atributos. Não tinha paz a pobrezinha! E o pior, não importava o que fizesse, não conseguia ficar feia.
Certo dia, cansada dessa vida e de todo esse assédio, ela parou, olhou-me fixamente, e disse: “Poxa, como é chato ser gostosa!”.
Foi a primeira vez que vi verdade nessa frase...

[CONVIDADO] Ellen Dias é jornalista e poeta, integrante do projeto Novos Poetas: www.movimentonovospoetas.blogspot.com

Cheiro, você




Seu sangue tinto é vinho, ferroso cheiro da lâmina
Engoli cem sílabas do seu hálito sem mastigar o perfume de uma vogal
Cheirei sua respiração enquanto dormia, deliro a cada resfolegar
Oleosos olhos castanhos, cabelos de cachos inebriantes
O vento que beija seus caracóis entorpece e engana meus sentidos
Seus pelos mais novos ainda têm o cheiro da sua derme
Você é a última virgem, a essência, eu, um assassino
Vou mais longe e tento cheirar suas entranhas para descobrir a fórmula do amor.

[CONVIDADO] Aníbal Mascarenhas-Filho

27/08/11

Vá com Deus! [sujeira]



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Quando estou no banho é que tenho as idéias mais geniais. Ou, no mínimo, boas conversas com meu eu lírico. Depois de uma sessão tranqüila de número dois vendo o Jack Torrance correr feito um louco atrás do Danny com um taco de croqué, fui ao meu banho merecido de início do dia, pra espantar a preguiça, mas sem a banheira, sem os sais, sem a toalha felpuda e sem a água quente. Uma chuveirada normal de uma pessoa normal.
Enquanto enchia a mão de Head and Shoulders, pensei se o Cristiano Ronaldo realmente usava o Clear 365 dias ao ano. Pensei na Sandy também, a Devassa do ano. Bebe hoje? Acho que a Malu Mader realmente usa shampoo anti-caspa. Ela tem um cabelão e tudo... será que em suas preliminares das noites de amor, ela e o Tony Belloto fazem sessões românticas na banheira na qual ele lava carinhosamente as longas madeixas da esposa? Hm...
Sabonete esfoliante. Essa foi novidade, de fato. Peguei na prateleira o meu amigo de sempre e nem vi que o mesmo estava em uma nova embalagem. Um novo “sabor”, como costumo dizer. Esfoliante. Com cristais. Dizem que é isso que faz as células mortas caírem da pele. Será que elas sentem dor? Nah. Viajando. Água caindo. Mãos no corpo. Mente voando.
Ao mesmo tempo em que me despedi das minhas queridas células defuntas, pensei em despedidas de verdade. A minha primeira mais dolorosa foi com a minha irmã. Era a mais perfeita de todas: linda, inteligente e com cabelos de poodle platinado. Anos 80, eu sei. Nossa relação sempre foi muito próxima, já que ela cuidou de mim na infância. Até que ela anunciou que ia embora estudar em João Pessoa.
Na minha cabeça, o bairro Alto da Conceição já era longe, imagina João Pessoa! Era tão inimaginável quanto lembrar que já haviam 2 semanas que eu me enxugava com a mesma toalha. Tive nojo. Hora de trocar.
Abrindo o guarda-roupa para pegar a nova toalha vermelha, lembrei que foi dessa mesmíssima cor que fiquei de tanto chorar na sua primeira despedida. Aquele cheiro de ar-condicionado de ônibus (que depois descobri que é um dos melhores aromas do mundo – pelo menos na minha coleção mental à la Patrick Süskind) até hoje me é nostálgico. Eu a deixava na porta do ônibus e acenava até o veículo dobrar a curva do infinito. Voltava pra casa encolhido no banco de trás do carro, guardando um choro silencioso.
Quase choro mesmo quando descobri que meu perfume favorito está menos que a metade do frasco. Tenho perfumes para ocasiões. O mais caro (ou de valor sentimental maior) é para eventos mais chiques e elegantes. O médio é para o dia a dia. E a lavanda é para ficar em casa ou ir dormir. Como já dizia o pensamento filosofante de uma sábia ex-bbb, vai que eu morro durante o sono. Pelo menos morro cheirosinho.
Uma grande despedida, também, foi de uma flor mais que cheirosa da Paraíba. Morei em Campina Grande durante um tempo, em um pensionato. Tomar banho em banheiro coletivo castrava a criatividade, já que não podia pensar enquanto me banhava. Fiz uma grande amizade com uma paraibana arretada. Perfeita em seus detalhes. Aprendiz de jornalista e hoje é uma grande profissional.
Apaixonei-me. De primeira. Só que tive que voltar à minha terrinha natal. Mossoró quente dos infernos me puxou de volta. Fiquei muito feliz, não posso negar, mas a despedida foi complicada. Fiz a bela flor me acompanhar até a última ladeira perto da faculdade. “Tchau, vê se dá notícias”. Meu grande arrependimento foi não ter dito: “Não vou mais. Se você quiser, fico aqui por você!”. Mas não disse. Voltei.
Arrependimento este comparado somente à vontade que eu tenho de renovar minhas meias todos os meses. Abro as gavetas e fico pensando: “P*rra! Não tenho nenhuma meia intacta”. Ter 45 pares de sapatos me faz andar sempre calçado. Uma meia para cada um. Nenhuma uma meia sem danos. Argh!
Acho que o problema sou eu. Não cuido das meias. Enquanto o lado de fora estiver bonito, já vale. E foi por causa desse pensamento egoísta que a minha outra grande despedida morreu. Foi embora de verdade.
Era o cachorro mais bonito do mundo. Cor de caramelo depois de um dia inteiro no porta-luvas do carro. Eu era o seu deus. Típico de cachorrinhos. Criei-o desde pequeno. Na verdade, eu era tão pequeno quanto ele, então minha função com ele era nada mais nada menos que colocar a comida e a água. O problema é que nem só disso vivem os bichos. Feridas, carrapatos e doenças foram aparecendo. O sacrifício foi a última opção. Doeu. Acho que mais pela culpa do que pela falta.
Também dói toda vez que olho àquela calça e ainda não estou cabendo na mesma. Sim, homens também têm vaidades. Aquela calça tão bonita, tão Cavalera, tão na moda, que comprei justamente na melhor época da minha faculdade. Meu grupo era tão descolado quanto a calça. Éramos taxados de maconheiros, prostituídos e homossexuais. Era só a forma que o resto da turma achava de nos enquadrar. 90% de nós nem bebia. 95% de nós era virgem. 100% com alergia a fumaça.
Foi com um dos grandes amigos da minha vida que aprendi muito. Aprendi, principalmente, a não negar meu passado e nem fingir ser algo que não sou. “Seja autêntico, seja criativo, seja rico, SEJA!”. Grandes lições jamais esquecidas. Despedida cinematográfica, quase um final de seriado adolescente americano. Foi-se. Foi ganhar a vida na Austrália, fotografando cangurus, nadando junto à Grande Barreira de Corais e realizando seus sonhos.
Por falar em sonhos, já vi que preciso arranjar um lugar maior para a minha coleção de DVDs. “Na minha casa terei maravilhosas prateleiras” – nota mental, só pra constar. Nesse meio tempo, já estou com outra calça mais folgada vestida e a camiseta escolhida.
Check out final no espelho: estou bem. Outras despedidas virão. Mas, por enquanto, tchau espelho. Tchau cama. Tchau quarto. Tchau casa. Estejam aqui quando eu voltar cansado do trabalho. 

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Vá com Deus! [sujeira] de Davi Moura é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogadorocomer.blogspot.com.

26/08/11

O amor do fundo do poço



Professora

Estavam no fundo do poço. Como lá chegaram não sabiam ao certo. Ou, talvez, conhecessem tão bem o motivo que preferissem torná-lo um sujeito oculto, como forma de não reviverem todas aquelas velhas dores que aspirina nenhuma é capaz de curar. Porém as cicatrizes deixadas pelas desinências do verbo amar logo denunciariam os sinuosos caminhos que os levaram até aquela funda, escura e assustadora cratera emocional.

Em meio àquela total escuridão, compreendiam que só havia uma coisa a fazer: abrir os olhos e encarar a sombria realidade que os rodeavam.

Ao se desvencilharem das pálpebras inchadas de tantas noites choradas, suas retinas provaram da negra miopia da solidão. Só algum tempo depois, quando a vista já se acostumara com toda aquela negritude, eles puderam enfim se perceber frente a frente.

De início, eram apenas acinzentados vultos humanos. Mas, aos poucos, puderam contemplar o brilho que, mesmo afogado em tanto pranto, ainda morava no olhar do outro. E era tão intensa a luz que irradiavam que suas noites viraram dias agradavelmente intermináveis.

Doravante aquelas duas almas já não eram mais solitárias. Tinham uma a outra. Viraram amigas, parceiras, confidentes, cúmplices. Dividiam entre si as dores, angústias e decepções. Compartilhavam planos e desejos. Juntas mergulharam em novos projetos. O principal deles: serem felizes.

Novos ventos vieram e para longe levaram aquelas plúmbeas nuvens que por ali pairaram durante algum tempo, que aos olhos alheios podia parecer breve, mas aos seus demorara um século.

Neste instante, puderam enfim apreciar a luz da vida.

Juntos eram fortes. E assim, apoiados um ao outro, levantaram-se e, de mãos dadas, finalmente saíram daquele fosso de amargura em que se encontravam.

E sorrisos adormecidos acordaram. Viraram sóis. Aqueceram aqueles corações que de tão sofridos se haviam cristalizado feito gelo. Mas o gelo agora derretido virara um belo lago capaz de contornar as pedras do caminho e desaguar no rio do amor ou no mar da amizade.

Desprovidos finalmente de qualquer expiação, souberam-se livres.

Livres para partir ou para ficar.

As mãos ainda entrelaçadas se despediram entre chuva de lágrimas e tempestade de sorrisos.

Sabiam que não era o fim. Era apenas o começo de um amor puro, sem promessas, sem mentiras, sem cobranças, sem renúncias, sem algemas.  Como deveria ser todo grande amor.


25/08/11

A Negra Paz, dele




Secretaria

Ele só quer a paz, que perdeu lá atrás...

Lembra-se bem dela, do gosto, do jeito, do seu leve andar.

Sabe que a paz tinha jeito de menina, olhar de mulher.

A paz era tão feliz, saltitante!

A paz era esvoaçante!

Ah, quantas saudades, ele tem dela!

A paz, de quem sente falta, se foi, deixou só um bilhetinho, contando os motivos.

Motivos que prefere esquecer.

Merece mais, lembrar-se dela, do que dos motivos, que a fez partir.

Ah, amigos, ele sente dores, pela falta que ela lhe faz!!!

Portanto, não lhe perguntem, do que ela partiu!

Mas, ouçam atentos, tudo que falo sobre ela.


A paz era quieta.

Sobretudo, e antes de tudo, quieta.

Entendam-me: o silêncio da paz, não era um silêncio qualquer!

Não! O silêncio da paz era cheio de sons.

O silêncio da paz tinha acordes variados.

Lembro-me, do som dela, que era o som dos violões, os sons do vento, o som do mar.

A paz tinha, em seu silêncio, as vozes dos amigos e das crianças.

O silêncio da paz tinha riso e tinha muitos gritos, às vezes, da meninada pelo quintal!

A paz era barulhenta, por sinal.

É do silêncio, que só a paz sabia ter, que ele mais sente falta.

Um silêncio que não se mede, mas que notávamos de longe.


Também sente falta de sua cor.

A paz dele, lembro-me bem, era negra.

Escura, como as noites sem lua.

Era linda e mansa, como só o céu escuro pode ser.

De uma escuridão para se perder dentro.

Ah, que saudade ele sente de sua negra paz!


Esta paz branca que vejo por aí, não o comove.

Nada contra o branco, mas a paz dele, era pretinha, pretinha!

Sua cor! Sim, é com sua cor negra, que sonha ainda.

Ela era escura de verdade, igual quarto fechado, para dormir.

Olhar para ela era mergulhar em um lago escuro e limpo.

Sente tantas saudades da pele negra da paz que teve!


Naquele negrume todo, ele podia perder-se, e lá conseguia ver estrelas no céu.

Ah, com sol se vê isto? Não!

Com sol não se vê direito, percebam.

Era, na negra noite daquela paz, que ele via as estrelas.

Com esta paz branca, ele não pode mais...


Ela era adocicada.

Também sei bem disto.

Não tinha este gosto amargo, de boca seca, que se esqueceu da água.

Não!

A paz tem um gosto de saliva úmida, rala, doce.

Não este gosto grosso, rancoroso, que ele tem agora, sem ela.

A paz tinha gosto de fruta, tenho certeza disto!

Não era de fruta madura, nem de fruta verde.

Era de fruta colhida na árvore, na hora.

Tinha um caldinho, que ficava na boca, que ainda sente, às vezes.

Poucas vezes.

Infelizmente.

A única coisa, que ficou de sua paz, foi este caldo.

Este gosto na boca que só lhe aumenta as saudades.

Às vezes, quando fica sozinho, no escuro, ainda escuta o silêncio dela, e consegue lembrar sua cor.

Nestas horas é capaz de sentir o gostinho dela na boca.


Ah, que saudades ele sente dela!

O gosto dela, em sua boca, faz ter certeza que ela existiu, se não, confesso, pensaria ser mentira.

Mas, agora mesmo, enquanto escrevo, vejo o ‘tal’ caldinho formando se na boca dele.

Doce.

Leve.

Suave, quase calmo.

Sim o ‘gosto’ da paz, é calmo, é possível?

Sim.

Enquanto escrevo, vejo a calma dele, vejo a paz que teve e um dia perdeu.

Os motivos?

Não importam.

Não vale a pena contar, meus amigos.

Vale mais lembrar-me dela...

Até que, (quem sabe?) ventura de minha alma, ela também sinta saudades dele, e volte, correndo, para seus braços, sua negra paz.


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