30/04/2011

1 por 2. 2 por 3. 3 por 5




Foi logo quando comecei a trabalhar. A loja era perto de casa. Perto do tipo que dá pra vir almoçar, tirar um cochilo e voltar nas míseras duas horas de intervalo. Ia sempre pelo mesmo caminho. É sempre assim. Quando aprendo uma rota, só sei ir por ali. Centro. Calor. Gente suada, gritando. Olhos azuis. Parei. Quem suou fui eu. E frio.
Prossegui meu caminho. Senti o peso dos olhos azuis durante o dia inteiro. Excitei-me só de pensar.
De volta. 18 horas. Mesmo caminho. Sem olhos azuis. Uma pena.
Novo dia, nova manhã. Vai ver foi um acaso. Um raio não cai duas vezes no mesmo canto.
Cai. Cai com força. 40 anos mais ou menos. Queimado do sol. Careca. Olhos azuis. Azuis profundos. Profundos do tipo que a pessoa nem tem noção do poder que eles têm. Uma amiga minha uma vez me disse: “Mulher, não entendo você. Só tem atração por homem pobre. Vai morrer pobre também”. Não tenho culpa. Olhos azuis destroem. Corrompem. Aniquilam.
Falo. Não falo. Não sou do tipo que ninguém repara. Tímida, meio gordinha. Não. Meio não. Gorda inteira. Óculos, aparelho nos dentes. Desisti de fazer alisamentos nos meus cabelos. Não funcionam. E se funcionam me deixam com cara de bruxa. Nada que eu já não esteja acostumada. Não falo.
Falo. Arrisco um bom dia. Gorda. Não falo.
E assim prossegui por muito tempo. Mesma rota, todo dia. Mesmo horário. Mesmos olhos azuis. Foi quem me levou às loucuras sem nem saber. Várias vezes.
Mudei de emprego. Mudei de endereço. Mudei até de cabelo. Mas permaneci a mesma. Tímida. Gorda.
Não. Nunca falei.
Até que um dia, o raio caiu de novo no mesmo canto. Ou melhor, cerca de 10 quarteirões depois, na mesma rua. Mesmos olhos azuis.
2 por tudo.
Gordo. Gordo! Não, obrigado. Tenho amor próprio.

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1 por 2. 2 por 3. 3 por 5 de Davi Moura é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 UnportedBased on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.comPermissions beyond the scope of this license may be available at  ww.blogadorocomer.blogspot.com.

28/04/2011

Para sempre...


Ternura - Antónia Guerreiro

Eles eram um lindo casal. Viviam uma história de amor digna de um conto de fadas. Um amor capaz de deixar Romeu e Julieta se roendo de inveja.
Desde sempre tiveram uma relação perfeita. No começo, apenas uma amizade, daquelas para todas as horas. Aos poucos, sem que percebessem, aquela amizade saiu do casulo e se transformou na majestosa borboleta do amor. E, ao se flagrarem voando nas asas desse sentimento, tiveram medo, pensaram em voltar atrás, mas já era tarde. Estavam presos um ao outro e, por mais que negasse para os amigos e, principalmente, para si mesmo, ele sabia: ela era para sempre.
No fundo, isso não lhe incomodava, como imaginou um dia, antes de conhecê-la. Nunca havia pensando em se casar, ter filhos, construir uma família. Mas, agora, com ela era diferente. Afinal de contas era ela a pessoa que sempre sonhara ter. Sonhara? Sim, descobriu com ela que tinha sonhos. Com ela, revelou-se ainda um homem romântico, sentimental e impulsivo, capaz de pedi-la em casamento, algumas semanas depois do primeiro beijo. Isso não surpreendeu só a ela. Ele também se assustou ao se perceber fazendo tal pedido. Surpresa maior foi descobrir que era aquilo mesmo que queria. Queria casar. Queria viver com ela muitos e muitos anos, até ficarem velhinhos. E essa imagem: velhinhos, cabelos brancos, caminhando juntinhos, de mãos dadas pela praia, era para ele bem mais bonita do que “Os Amantes” de Picasso.
Não tinha mais dúvidas. Ela era para sempre. Possuía os predicados que sempre buscou em uma mulher, mas nunca havia encontrado. Pelo menos não em uma só. Certamente por isso tivera tantas. Mas agora tinha ela. E ela tinha todos.
Com o passar do tempo e o convívio amoroso, as primeiras impressões se confirmaram: ela era mesmo amável, carinhosa e companheira, uma verdadeira Amélia. Tudo bem que não era tão prendada e sem vaidade como a de Mário e Ataulfo. Mas ele tinha total certeza de que, ao seu lado, ela passaria fome sem reclamar. Muito romântica, porém fogosa. Era a amante perfeita: linda e sedutora, deixava a Julia Roberts no chinelo.
Oficialmente o casamento nunca se fez, mas eram o casal mais bem casado que já conheci. Faziam tudo juntos. Saíam juntos. Viajavam juntos Estudavam juntos. Trabalhavam juntos. Embora tivessem profissões e atuassem em áreas completamente diferentes. Ele era humano, ela exata. Ele gostava de poesia. Ela amava os números. Mas juntos compunham a poética equação do amor. Uma equação inexata e infinita. Eles eram mesmo para sempre.
Por ser sabedor disso, incontáveis vezes, altas horas da noite, ao acordar, ficava, ali, bobo, a observar a amada, sonhando acordado, até deixar escorregar no canto esquerdo da boca um apaixonado sorriso de “como sou feliz”.   E não adiantava lhe dizerem que na vida real o “felizes para sempre” não existe, pois eles já eram felizes para sempre.
Distraído com a eterna lua-de-mel, ele foi perdendo a noção da realidade. Numa fria noite de inverno, um estrondoso trovão o acordou. De repente, ele percebeu que algo havia mudado. Sua amada já não lhe dedicava mais todo o seu tempo, os seus cuidados, os seus carinhos. Começou a senti-la cada vez mais ocupada, mais distante, mais indiferente ao seu amor. Amor? Quanto tempo não faziam amor? Ah! Já nem se lembrava mais.
Seu sorriso não era mais só seu. Seus olhos já não brilhavam como antes ao vê-lo chegar. Seu beijo parecia cada vez mais gélido. Seu abraço já não tinha o mesmo calor, o mesmo carinho, o mesmo desejo. Ela já não se importava com os seus atrasos. Nem reclamava sua ausência quando ele precisava viajar. O trabalho, a faculdade, os amigos, a TV, o barzinho, as baladas, tudo parecia ser mais fascinante do que estar ao seu lado.
Essa descoberta o deixou apavorado. O que acontecera? Onde ele errou? O que ele fizera para ter hoje a mulher amada tão longe, mesmo estando, ali, deitada ao seu lado? Teria ela se apaixonado por outro? Não. Isso não poderia estar acontecendo. Deveria ser apenas impressão, receio, ciúme. Afinal eles eram para sempre.
Negava-se a aceitar os que seus olhos lhe mostravam. Ele que sempre defendia suas idéias com unhas e dentes até o último argumento. Agora torcia para estar errado. Queria ver sua tese inteiramente destruída. Ele não queria ter razão. Queria ser feliz!
Mas a dúvida apunhalava seu peito com lâminas afiadas e aquelas doloridas idéias passeavam por sua já tão confusa mente. E se fosse verdade? E se ela estivesse mesmo deixando de amá-lo? E se ela já nem o amasse mais? O que fazer? Não. Algo ainda poderia ser feito. Ou não?
Não desistiu. Não se entregou. Era para sempre. E lá se vão mensagens de amor, ligações inesperadas durante o expediente, volta mais cedo pra casa, flores, jantarzinho romântico. Tudo na esperança de ver de novo o brilho do amor nos olhos daquela mulher. Tudo só pra ver de novo sorrindo para ele aquele sorriso lindo que o encantara tanto e o que o fizera tantas vezes pela mesma mulher se apaixonar. Contudo nada parecia fazer despertar aquele coração que um dia prometera ao seu que tudo seria pra sempre.
A ele nada mais restou. Precisava ter uma conversa séria com ela. Embora não fosse adepto dela, não dava mais para adiar a DR. Mas quem disse que sabia como chegar, como falar, como expressar a dor que dilacerava o seu peito só de imaginar em perdê-la? Porém não havia alternativa. Falar era preciso, chorar não. Contudo, em apenas alguns segundos, aquele homem centrado e de postura inoxidável afogava a máxima de que homem não chora. E as lágrimas caíram como uma forte chuva de inverno no sertão. Talvez fosse essa a chuva anunciada pelo trovão que o acordara outro dia.
Nenhuma palavra foi pronunciada. As lágrimas, porém, falaram tudo. Disseram o quanto ele ainda a amava, apesar do tempo, da rotina, dos problemas. Gritaram o quanto ele ainda a desejava, apesar do tédio do dia-a-dia e do cansaço do trabalho. Mostraram o quanto ele ainda sonhava com a pintura do casal de velhinhos passeando na praia, por que ela era para sempre...

Professora

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27/04/2011

Estou cansada

Metamorfose de Narciso - Salvador Dali



Cansada do ar sempre pesado, cansada dos pés sujos de barro.

Cansada de cambalear nesta rua suja, com roupas igualmente sujas e tentar manter intacta uma mente limpa.

Estou cansada de esticar estes panos rotos, sobre este colchão velho, jogado neste chão esburacado.

Estou cansada da água cor de barro, cansada da lata para o banho e do esgoto fedorento.
Estou cansada dos restos de marmitas e dos lanches dados com desprezo.

Estou cansada dos cadernos velhos, do lápis sem ponta, da caneta ressecada.

Cansa-me a alma nova, esta vida velha de dias duros e noites famintas. Cansa-me o esmolar, cansa-me o olhar de pena.

Cansei dos tapas, dos chutes, do escárnio.

Cansei de sentir saudades de minha mãe e de ouvi-la sendo chamada de puta.
Desisti de todos os dias tentar me convencer que não há do que ter canseira em uma vida sem ocupação.

Cansei de tentar motivação nos livros velhos que ganhei nem lembro mais de quem.
Cansei de acreditar que minha letra bonita irá um dia me fazer alguém. Cansei da vida, se é que já tive uma.

Desculpem.
Desculpem desistir assim, sem tentar.

(Este bilhete foi encontrado ao lado do corpo de uma menor, vítima hipotermia, nas ruas de São Paulo) - (Ficção, mas podia ser verdade.)

Secretária



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O pato

Banho de Patos: Dario Barbosa - óleo sobre tela 1940



- Comprei um presente para você, filho!

Às vezes temos vontades tão peculiares. Eu queria dar um presente que simbolizasse o imenso e incondicional amor que tenho pelo meu filho. Comprei um exemplar do Pequeno Príncipe em francês. Considerei um presente perfeito, ali encerrava o desafio de ler um clássico infantil no original.
Meu filho gostou muito. Quando me ouviu lendo em outra língua, ficou empolgadíssimo. Por algumas noites eu li e traduzi os trechos e logo ele dormia, me retirava do quarto dando-lhe o beijinho de todas as noites. Aliás, trata-se de uma obrigação, cobrada todas às vezes que, por muito cansaço, me deito dizendo apenas “boa noite, filho”. E imediatamente escuto: “E meu beijo?”. Então meu espírito tenta arrancar meu corpo moribundo da cama e sigo para pagar meu tributo.  E este é o único que tem retorno direto ao cidadão além de manter vivo o que há de melhor entre os seres humanos: os laços.
O fato é que ele procurou outros livros e o Pequeno Príncipe foi deixado de lado.
 Outro dia falávamos dos bichos que já tivemos em casa, a lista era extensa: periquito, papagaio, gato (muitos gatos), peixe, cachorro (muitos cachorros), tartaruga, porquinho-da-índia, rato do deserto australiano... mas nenhum deles durou muito tempo. Meu filho lembrou que certa vez minha mãe, a quem ele também chama de mãe, havia lhe dado um pato. Sim. Um pato. Mesmo morando numa casa sem nenhum trechozinho de terra, esse fato foi ignorado pela minha mãe. O neto feliz era o que bastava. Meu filho tinha um pato. Talvez fosse o único menino da redondeza a possuir um. O problema era que o pato gostava muito de fugir pelos vãos do portão e acabou fugindo mesmo, não deu outra.

- Mãe, quero um pato!

Não havia como. Morávamos num apartamento agora. Então me lembrei do livro francês e a noite retomei a leitura. Só que desta vez não traduzi as passagens. Apenas lia e ele ouvia. E ali ficamos lado a lado, eu lendo e ele me olhando, cheio de candura, numa total entrega. Não podia entender, mas compreendia. Até que adormeceu. Paguei meu tributo, mais demorado do que o de costume. Apaguei a luz e me deitei. Plena.

Professora



26/04/2011

Pernas e cutucões

Quem nunca viu um homem se contorcer todo para mirar uma mulher que passa na rua? Assobio, piadinhas sem graça, boca aberta, cutucões. Será que nunca lhes ocorreu o quanto são, excepcionalmente, ridículos? Parece-me um comportamento extremamente ca-ver-no-so. Tudo bem que desde a pré-história o macho sempre está à caça de uma presa. De duas, três, talvez. Mas depois de tê-la, a busca continua sendo incansável. Pode até ser que não seja busca, mas que soa como carência, ah isso soa!

Um, anda à toa, quase se esbarra num poste olhando a morena faceira; outro, numa moto, quase desloca o pescoço de tanto que girou para o lado esquerdo para ver a loirinha de ‘tomara que caia’; aquele lá, diminui a velocidade do carro como que já oferecendo carona às saias, aos shorts, aos vestidos, quem sabe! Fico me perguntando: o que eles tanto reparam? Seios, bunda, contorno das pernas, trejeito no andar; cor ou corte do cabelo; tipo de roupa ou os acessórios? Será que olham, só por olhar? Solteiros, namorados, noivos, casados e viúvos, TODOS são escravos de um par de pernas femininas que deslizam pelas ruas...

Agora, aos cutocões... Esses são dados entre os machos para mostrar um ao outro o desfile da fêmea, para depois, entre risos e deboches, fazerem seus comentários a-bo-mi-ná-veis. “Ei cara, aquela é bem gostosa, não é?”; “Acho que é bem parideirazinha”; “Isso na cama deve ser uma loucura”; “ Essa tem cara de que topa há três”. E por aí vai... Os outros cutocões? Ah, esses carregam um ar de desapontamento e reprovação. As companheiras ofendidas, porque se sentem minimizadas, logo dão uma espetadela na cintura do infeliz para vê se o danado lhe dá o devido respeito. Espreitar as paredes do ar só para ver um rabo de saia que passa estando ao lado de sua parceira, confere-lhe o atestado final de tosco e selvagem. E por que não dizer, uma representação literal da falta de ca-va-lhei-ris-mo. Brutos, é exatamente assim que parecem. Brutos! Cravar os olhos no animal de sexo feminino estando em companhia da sua respectiva, representa reduzi-la a proporções mínimas, principalmente se ela já ultrapassou os 30 anos. Também não quero dizer que devam ser cegos, baixar a cabeça e fingir que nada vêem. A questão é o bendito como... Podem olhar. Olhem. O que é bonito deve ser admirado realmente. Se passou diante da vista, que passe. Agora, olhar para trás, parar os movimentos, desenhar a criatura de cima a baixo... Ah, isso para mim é muita falta de pro-ce-di-men-to.

Fico imaginando como eles se sentiriam ao perceberem que suas mulheres paralisam o olhar diante de calças saradas que cruzam o andar delas. Ai,ai,ai, aí a coisa ia ficar bem feia... “Não me respeita não, mulher?”. A questão é que isso raramente acontece. O mais engraçado é que os camaradas não imaginam que também suas mulheres estão na mira dos olhares alheios... Oh, homens sem noção! Eles também ignoram que elas, as comprometidas, sabem apreciar os belos homens. O olhar discreto delas descansa e segue adiante. O deles, simplesmente, e-s-t-a-c-i-o-n-a-m. “Uma mulher bonita não é aquela de quem se elogiam as pernas ou os braços, mas aquela cuja inteira aparência é de tal beleza que não deixa possibilidades para admirar as partes isoladas”. Só mesmo Séneca com toda sua sensibilidade literária para ir além do par de pernas de uma mulher que passa.


Regiane Santos Cabral de Paiva

Professora


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Pernas e cutucões de Regiane S. Cabral de Paiva é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
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24/04/2011

Deus me proteja de mim e da bondade da fofoca alheia


... Eu não sou fofoqueiro.
Não é que eu queira aqui dá uma de santo ou debulhar conceitos austeros, nada disso. Eu não sou fofoqueiro por pura irresponsabilidade e medo. Sim, medo. Na verdade, nem sei por que sou jornalista, já que prefiro não me meter em assuntos alheios.
Meu trauma, lógico, é culpa das mulheres. Não dá para competir. A mulher, sim, sabe fofocar. Antes que as mais exaltadas se exaltem, explico que não falo no geral. Há mulheres que, assim como eu, não gostam de fabricar fofocas e há homens que não vivem suas vidas de tanto olhar a vida do outros.
Pois bem, como ia dizendo: é trauma. Algumas vezes, me meti a falador, mas toda vez entro em enrascada. Talvez, seja o meu ciclo de amizades que não sabe se comportar diante de uma cabeluda, ou pura incompetência de minha parte. O problema é que sempre sou descoberto: você disse ou não disse? Reou-se!
Mas não há nada pior do que fofocar com uma mulher. Elas são terríveis quando especialistas neste gênero. Terríveis e corajosas! Elas não sabem esperar até chegar a um terreno seguro. Simplesmente, começam a falar e, muitas vezes, nem baixam a voz. Mesmo quando a pessoa defenestrada se aproxima, elas não param de falar. Baixam a cabeça até o nosso ouvido e não se incomodam em saber que a outra percebeu tudo. Isso me dá uma agonia...
Dia desses, fiz um comentário, à toa, com uma amiga sobre outra amiga. Achei a segunda um pouco acima de seu peso e arrisquei uma curiosidade:
Fulaninha parece diferente, está mais gorda?
Mais gorda, ela está é grávida! Você não soube?
Esse “você não soube?” é o preâmbulo para um dossiê que vai durar horas. Não basta dizer que a outra está grávida é preciso falar de toda a situação e não apenas do noivo ou do casamento às pressas, nem mesmo que morarão na casa da mãe dele. Precisam falar também da mãe dele, do pai dele e dos irmãos dele e não podem esquecer como fez a família dela para esconder o que todo mundo já sabia. Ufa! O pior é ouvir tudo isso bem próximo da acusada. Não dá para não suar. Sim, porque cúmplice também vai para a cadeia.
É por essas que quando quero comentar alguma coisa com uma mulher, seja ela quem for, nunca faço perto da pessoa falada. Eu anoto na memória e peço a Deus para esquecer.
Ainda bem que não tenho espaço aqui para contar mais experiências, caso contrário, iria desdizer tudo o que disse a meu respeito. Até porque, todo bom brasileiro não só gosta, como acaba precisando de um bom mexerico. Mas é preciso tomar cuidado. Fofocar é como assistir ao Big Brother ou experimentar o twitter: vicia.

Cronista

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Deus me proteja de mim e da bondade da fofoca alheia de José de Paiva Rebouças é licenciado sob umaLicença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 UnportedBased on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogdojottapaiva.blogspot.com.




Quando viajar sem sair do lugar é possível




Para ler essa crônica, peço que desligue sua mente e ouça as cores dos seus sonhos. Não é preciso estar consciente para desfrutar dos benefícios dessa aventura. Se você assim o fez. Entre, aperte seus cintos e tenha uma boa viagem ao fantástico mundo onde viajar sem sair do lugar é possível e viver é mais fácil com os olhos fechados.


Lembro-me das minhas primeiras investidas para entender um mundo, que imaginava eu, existir naquelas páginas brancas e sem graça e que continham símbolos até então indecifráveis para mim.  Curioso, eu passava horas tentando entender a razão de grudar os olhos naqueles livros sem perceber que o tempo passava cruelmente e sem avisar que já haviam passado séculos.
Esse mundo que falo é a leitura. Tão fascinante e curioso quanto o universo dos números, ler sempre me chamou a atenção pelo seu caráter sublime e (in) imaginável. Sempre tentei entender a lógica existente por traz de todas aquelas frases que via nos livros, jornais e revistas. Assim como Alice (personagem de Lewis Carroll), me questionava em relação à falta de gravuras ou desenhos. Ora, como pode alguém fixar seus olhos em um livro sem gravuras? Que graça tem?
Muitos anos se passaram e quando dei por mim, já era um leitor compulsivo. Não aconteceu da noite para o dia, mas nem percebi quanto tempo já havia passado. Antes era um curioso que queria saber de que se tratava aquele conjunto de símbolos, palavras e frases espalhadas nas páginas dos livros que via sobre as prateleiras das escolas e bibliotecas que sempre frequentei. Hoje sou um curioso que procura entender a mesma coisa. Puxa, será que nada mudou daquele mundo? Às vezes ainda me pergunto a mesma coisa.
Tudo tem começo na curiosidade. Todas as pessoas sentem a necessidade de encontrar explicação para suas perguntas e eu não sou diferente. Comecei querendo descobrir o sentido da leitura e acredito ter encontrado muito mais, muito mais mesmo, pois foi através dela que descobri encontrei outro mundo. Foi por meio dela que o real passou a fazer sentindo – paradoxalmente, a partir da ficção.
Foi por meio da leitura, por meio da literatura, que descobri que poderia viajar sem sair do lugar, conhecer pessoas de todas as épocas, idades, lugares, caráteres e lugares sem ser machucado ou precisar falar suas línguas; pude conhecer a história da humanidade mais profundamente. Também foi por meio desta que depurei minha sensibilidade para bem usufruir das boas coisas existentes no mundo exterior. Conheci os picos da Patagônia, os mares da polinésia, os museus da Europa e dos Estados Unidos; amigos que nunca nem vi. Descobri com a experiência dos antigos como viver nos dias atuais.
Por meio das minhas viagens proporcionadas por essa fantástica ferramenta, fui até ao centro da Terra e mergulhei vinte mil léguas submarinas. Perdi-me em uma ilha onde conheci Robinson Crusoé e Sexta feira. Cacei ferozmente uma baleia gingante chamada Moby Dick, depois de percorrer os sertões, subi ao Morro dos Ventos Uivantes, conheci o Conde Drácula de perto, passei de forma rápida pelo céu, purgatório e inferno de Dante; dancei com a dama das camélias quando estive na França, mergulhei no Maëlstrom depois de escalar as montanhas escabrosas com Edgar Allan Poe e vi o gato preto que estava a brincar com o corvo. Enfrentei gigantes com Homero. Percorri mundos inimagináveis com Gulliver durante suas viagens; contemplei o retrato de Dorian Grey na presença de Oscar Wilde, enfrentei o cardeal Richelieu juntamente com os três mosqueteiros. Eu vivi inúmeras vidas que não só a minha, e amadureci rapidamente sem nem ao menos um único fio de cabelo meu ficar branco.
Agrada-me o desafio intelectual, e esse é um dos mais ricos. Enquanto muitos tentam obter fama, poder e riqueza. Prefiro me deleitar na imensa vastidão desse mundo fantástico. Impressiona-me a capacidade não verbal de expressão e o poder de persuasão de pessoas únicas. Fico admirado com os poetas, contistas, romancistas, ensaístas e agora cronistas que ousam mostrar aos deuses outras formas de criação. As grandes obras literárias serão sempre inesgotáveis fontes de conhecimento, de prazer e vida. Trarão sempre mais sentido as coisas já existentes e continuarão a criar outras novas.

[AUTOR CONVIDADO] Bruno Coriolano de Almeida Costa é Graduado em Letras/Inglês e Literaturas Inglesa e Americana (UERN), especialista em Língua Inglesa (FVJ) e Professor de Língua InglesaSENAC - Mossoró
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