04/04/2011

Da amizade sincera de um urubu




Quem me conhece sabe que sou uma pessoa insensível para animais domésticos. Não suporto gatos e cachorros, para ser mais exato, ainda mais agora, que esses bichos são tratados como gente. Às vezes até melhor.  Mas, como diz a doutora Wirgínia Hoffmann Teixeira, em seu livro Os hiatos do silêncio, toda reação tem uma explicação científica. Neste caso, tudo tem a ver com os traumas psicológicos do desenvolvimento da personalidade.

Lendo o capítulo: “Neurose Infantil” me dei conta de que esse ódio ressentido não passa de frustração, recalque. Realmente eu nunca gostei de gatos, nem mesmo na infância, mas eles foram bloqueados de minhas preferências quando o primeiro comeu o meu papagaio. Foram semanas chorando, sem comer e sem ir para a escola. Nunca fiz nada contra o gato de minha avó para ele cometer tamanha barbaridade contra uma ave tão cálida e brilhante, mas ele o fez.
Tentaram me consolar com outros mimos e, como naquela época a Polícia Ambiental não andava pelo sítio de meus avós, possuí muitas outras aves: rolinhas, canários, galos de campina e periquitos, mas os que não voaram quando grandes, os gatos comeram por pura maldade. O pior é que a culpa era sempre minha. De tanto ser acusado de negligência, abandonei as aves por um tempo, até encontrar o Zeca. Foi um achado. Tudo aconteceu quando eu passarinhava pelo juremal e confundi o seu ninho com os de um anum. Lá estava o meu novo amigo doméstico. Parecia uma bolinha branca de pelos. Prometi cuidar e respeitar até os últimos dias de sua vida e foi com esse pensamento que o roubei da natureza.
O possuí algumas semanas escondido na casinha do viveiro até meu avô descobri-lo: joga fora essa porcaria agora! Que susto. Tive de correr para não vê-lo atirar o Zeca no terreiro. Nunca compreendi tamanha fúria de um senhor do mato. Minha avó também se desesperou e não só obrigou-me a retirar o viveiro de perto da casa, como também espalhou, com antecedência ao costume, as cinzas de junho ao redor da casa. Depois, ela me explicou que não se podia criar um urubu: além de não ser um bicho agradável, dá muito azar, disse ela.
Confesso que até eu fiquei surpreso quando descobri que Zeca, até então anum, era um urubu, mas o que fazer? Tinha me apegado! Levei o viveiro para detrás do curral e lá o mantive num recanto bem cuidado. Não demorou muito para o Zeca começar a escurecer e ficar mais exigente. Dos restos de comida com que o alimentava, ele só queria a carne. Vi-me obrigado a passarinhar para matar a fome do meu bicho de estimação e isso eu não gostei. Comecei a ficar chateado com ele a ponto de deixar a comida e abandoná-lo imediatamente só para que sentisse o meu desdém.
Um dia me cansei. Já não gostava do Zeca como no começo. Ele estava cada vez mais reclamão. Nem me via direito e cobrava mais comida. Resolvi soltá-lo. Abri a portinha do viveiro que parecia ter encolhido para o seu tamanho e me afastei para que arrancasse do chão e planasse como asa delta. Mas não, o Zeca não voou. Espantei-o. Ameacei matá-lo de pau e até o joguei para o ar, mas ele voltou para os meus pés. O Zeca não voou. Não porque não soubesse, ele não voou para ficar comigo. Fiquei emocionado. Senti remorso de ter pensado em me livrar daquele bicho, a primeira vista feio, mas agora tão bonito, robusto e imponente e o melhor: carinhoso a ponto de emprestar-me a cabeça para um afago. Estava arrependido e apaixonado pelo meu bicho de estimação.
Não tranquei mais o viveiro. Deixei aberto para que ele decidisse ir e voltar se quisesse. Ele não foi. Ficou me esperando e deu para ir-me procurar na hora das refeições. Era muito lindo vê-lo correr desengonçado ao meu encontro. O problema é que comecei a atrasar, às vezes perdido com as coisas da escola, às vezes com o passaredo. Zeca não gostou e começou a avançar mais do que era permitido. Gritava e chegava ainda mais próximo do terreiro da casa, até que foi visto pelo meu avô. Não sei o que deve ter dito, mas quando ouvi o estardalhaço, sabia que era tarde. Ele estumou Jolí sobre Zeca e Joli não teve pena. Esqueci-me de ensinar ao Zeca a defender-se dos ataques de cachorro!
De nada adiantou o meu grito na direção do cão desgraçado. Ele rasgava o meu amiguinho como faz com qualquer caça. Quase perdi meu braço, mas tomei o Zeca dos dentes caninos e sumi na capoeira. O avô ameaçou-me com uma corda crua e cumpriu, mas o Zeca estava seguro e assim ficou. Ficou e não voltou mais para mim.
Sei que ele queria voltar, mas eu mesmo não voltaria. Ficamos assim amigos das lembranças e cúmplices dos olhares na distância. Eu de cá e ele do meio do seu novo mundo. Encontrou uma turma e dedicou-se a ela e foi bom porque os outros o protegia. Melhorou logo, mas ficou trôpego. Voava torto, nem sei como. Parecia sempre estar caindo e nunca teve o prazer de pairar a sua liberdade de urubu.
Eu, que nunca perdoei os gatos pelo papagaio e outros pássaros, também não perdoei Jolí ou nenhum outro cão até hoje. Não pude vingar-me dele em vida, mas como diz, no mesmo livro, a doutora Wirgína Hoffamann: tudo que vai volta, e voltou. Jolí errou o cálculo na macambira e rasgou os vazios. Teve de ser sacrificado pela espingarda de meu avô que depois me obrigou a arrastá-lo aos urubus. Não relutei porque aquele último trajeto do cachorro arrastado sobre a terra seca foi o meu desforro. Levei-o aos poucos e entreguei-o aos famintos e lá vi o Zeca, torto, mas altivo e forte. Ele levantou o pescoço em minha direção e entortou a cabeça como um velho amigo. Ficamos assim parados algum tempo, até eu dar-lhe as costas e partir. Foi nesse dia que nos vimos pela última vez.



Jornalista e escritor


16 comentários:

  1. Muito bom o texto.. rsrsrs.
    Esse ome é o meu orgulhoo...
    Parabéns amigo, sucesso sempreee!!
    bjoss!

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  2. Gostei da história, q naum devemos confundir com estória, q naum existem mais. Se for somente uma cronica foi bem explicitada! Se foi real, tenho-na como mt emocionante! VLW Paiva

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  3. Vou me inspirar nessa pra escrever uma sobre minha fobia de mariposas =D Haha.
    Divertido demais. Com um tom de nostalgia. Será que isso remete à infância do nosso amigo Paiva? Haha.

    Abraço urubuzal

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  4. Um belo texto JP.
    Parabénss!!
    "Aspirinas & urubus" vai fica nos links do www.campograndern.com.br

    Abraço
    Heráclito Patricio

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  5. Amore, o seu texto tem um tom nostálgico, emocionei-me. Vc simplesmente deu sentimento a uma ave considerada desprezível. Sei que nunca mais olharei um urubu com o asco de antes... A sensibilidade que traz no texto revela a grandiosidade do relato... Adorei!

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  6. Interessante o espaço. Uma grata surpresa, conheço alguns dos autores e acho que o negócio vai ser bom.
    Parabéns, Paiva. Até mais.

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  7. Não seja tão duro com os Gatos e Cães; eles são verdadeiros amigos, assim como o Urubu do seu texto. kkkkkkkkkkk

    Ótimo texto amigo.

    Abraço,

    Sheila Maria

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  8. Jota, o meu comentário que ficou lá em cima é o do outro texto que li na sexta...sobre a utilidade dos gatos...Muito bom por sinal e que vc não devia ter tirado!

    Agora vamos a este:
    Li ele cedo e me apaixonei pelo Zeca.
    Amo cachorros, e sendo assim morri um pouco também.
    Emocionante, lindo, dolorído.

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  9. Jotta,

    Lirismo... Acho q a crônica não pode abrir mão do lirismo, aliás, sem ele a vida fica muito chata. Parabéns, me encantou.
    Um abraço
    lete.

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  10. Valeu, Paiva. Você demonstrou ser um artífice da crônica literária, diferente que é da crônica jornalística. E como o jornalista e o escritor duelam na sua escrita, fez valer o literato.
    Ah, e esse negócio de substituir gente por bicho nunca foi do meu agrado!
    Carlos Gildemar Pontes

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  11. Crônica é o meu jeito favorito de prosa. Por que é também um pouco (um tanto?) de poesia, uma mistura entre real e ideal que muito me apraz. E as daqui mal começaram e já estão ótimas. Parabéns pelo texto, gostei muito da teoria - talvez explique meu amor incondicional pelos gatos, já que meus traumas são todos de gente, rs. Parabéns a vocês todos pelo belo projeto, pelos urubus, que são pássaros lindos, se os resignificamos, e pelas aspirinas, que aliviam a dor de tanta gente. Abraço,

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  12. Amigo, posso ser sincera? Fiquei emocionada ao ler o texto. Nunca pensei que ficaria assim por um urubu. Mas também não é qualquer urubu, né? Adorei o Zeca!
    Quanto ao projeto, começamos bem. Abraço.

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  13. Agora entendi sua raiva de felinos e caninos. Pobre criança.... quantos traumas. Mas o blog está ótimo. Vão em frente...

    Joseney Queiroz

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  14. Quando menino, também tinha repulsa de urubus. Até que ouvi os versos do poeta, de 'A Natureza':
    "Urubu empregado da limpeza
    Como é triste a vida do abutre,
    Quando encontra um morto é que se nutre.
    Quanto é grande e suprema a natureza."
    Valeu Jota Paiva!
    Kydelmir Dantas
    Mossoró - RN

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