06/04/2011

Alfredooooooooooo.........


Indescritível. É assim que se explica a situação dentro de um vagão de trem mega lotado, as 6h20min. da manhã. Nada que se diga para explicar, explicar de fato aquilo. Nunca se sabe ao certo onde acaba seu corpo e onde começa o corpo do outro. Eu nunca tenho certeza de que minha perna é mesmo minha, ou se já estou cutucando a perna errada.

Manter o cabelo no lugar é impraticável. Camisa passada é perda de tempo. E bolsas, um verdadeiro estorvo. Mas ainda assim é possível render umas boas gargalhadas. Pensa na cena: vagão hiper, mega, super lotado, povão apinhado, sem espaço pra por os dois pés no chão, (é sério, você tira o seu pé e logo descobre que não dá pra por de novo... levanta o braço e nunca mais poder descer...)

Enfim... Estamos lá nesta situação limite e o jeito é fazer amizade logo com o cabra que está colado em você, tratar de puxar uns assuntos bem broxantes, antes que, no silêncio, a mente dele comece a maquinar e você se veja na péssima situação de ter que dar uns safanões em alguém, logo cedo... Entre um solavanco e outro, apaga a luz, e, cadê o ar-condicionado??? Já era.

Os baixinhos se ferram, o ar some primeiro pros nanicos. O calorão sufoca e a sensação térmica é a da boca de um dragão. Muitas vezes, a sensação olfativa também. O sujeito do lado, aquele que até um minuto atrás eu odiava, pois me cutucava as costelas sem dó, liga pro 0800 da CPTM e mostra que celular no trem não serve só pra tocar música feia e acabar com o humor da mais alegre das criaturas.

- “Cara, o trem que tá passando na estação Patriarca tá sem 'oxigênio'. Dá um jeito nisto, avisa alguém ai... tem gente demais aqui, cara. ‘Tamo’ sem ar... Como é seu nome? Alfredo? Tá Alfredo, obrigado.”

Alfredo??? Logo alguém lembra: “Mano, o cara vai vir trazer o papel pra gente?” O cara vai aparecer correndo do lado do trem, com o papel higiênico na bandeja! Risada geral. Alguém passa mal, e lá vai o pobre coitado que se matou pra sentar, levantar pra sujeita se recuperar do mal estar. Lembro de contar de quando um sujeito de quase dois metros passou mal atrás de mim. Depois de sentarmos o cabra, a moçoila do meu lado resolveu especular o motivo do mal estar do rapaz:

- Você comeu?
- Não.
- Tem que comer meu senhor, se não passa mal mesmo..blá, blá, blá, blá, blá, blá....
- Minha filha, deixa o cara. Ele tá passando mal. Você tem uma rosquinha ai pra ele comer? Se não tem fica quieta.
- Rosquinha? Só se for a sua!
- Minha filha, rosquinha lá em casa é bolacha, se na sua casa é outra coisa, problema seu!


Pela risada geral do povo, na hora que contei da rosquinha, percebo que realmente rosquinha é outra coisa; pra todo mundo. Foi o tempo de pararmos de rir e o ar voltar a funcionar.


Viva o Alfredo!


Logo se ouve:
- Respira, respira... vai que desligam de novo.


O povo ‘dana’ a rir... e assim chegamos ao Brás. Amassados, como se uma vaca nos tivesse mastigado e nos cuspido na plataforma, mas com cara de bobos, rindo. Dizem que brasileiro é assim. Povo feliz. Não sei se é coisa de brasileiro, pois nunca conheci outros povos, mas lembro que “Rir de tudo é desespero”. Acho que é mais por aí.

Secretária



9 comentários:

  1. Gostei do blog. Prosa boa.
    Abraços,

    www.ofalcaomaltes.blogspot.com

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  2. Lembrou-me um pouco os textos naturalistas da literatura brasileira, claro, com uma nova roupagem. Adorei a abordagem da classe D, que, apesar de tudo, não perde o bom humor! =)

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  3. Klas... vc não imagina a saudade que senti dos ônibus que eu pegava quando morava em Fortaleza, rsrsrs! Consegui sentir na pele toda a emoção apavorante que a superlotação causa... Diferente é que, nem sempre aparece um Alfredo para nos socorrer...
    A sua capacidade de detalhar os fatos corriqueiros de um cotidiano, que para muitos é desconhecido, engrandece a nossa bagagem de mundo e nos faz percorrer por esse universo com com humor. As falas que aparecem no seu texto são o registro de um determinado macromundo e isso evidencia a sua capacidade de percepção diante da raça humana. Bjs querida!

    Regiane.(aspirina rainha)

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  4. Realmente, como sugere do Davi, essa crônica caracteriza-se dentro dos estudos da escola naturalista. Na verdade, é um atributo desta autora que sabe bem como desenhar situações consideradas banais, dando a elas uma importância político-literária valorosa. A lembrança da propaganda do papel higiênico é um momento nostálgico e um artifício muito bem empregado para provocar humor, onde não é comum encontrá-lo. Se não soubesse que o texto denuncia uma situação real, sugeriria que. O trecho “...chegamos ao Brás. Amassados, como se uma vaca nos tivesse mastigado...” é de uma sensibilidade tão aguçada que me força a encerrar as observações sobre esta obra.

    Deixo, por fim, um trecho da música Maria Bonita, de Zé Geraldo, que foi quem nos aproximou (a autora e eu), para fazer uma ponte de seu trabalho com a nossa história de amizade.

    No asfalto também cinco horas
    Chegou a hora de ir trabalhar
    Marmita quente debaixo do braço
    O apito toca e não pode esperar
    O trem lotado desce do subúrbio
    trazendo distúrbio, dono do lugar
    E lá vou eu.

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  5. Amigos, "Alfredo...." é muito especial para mim.
    E vendo-o por seus olhos, gostei ainda mais.

    Davi, obrigada por sua dica: Eu jamais havia me visto como uma escritora naturalista!

    Jota, sempre serei grata ao ZG por ele ter me dado você de presente. Sempre.
    Confesso que chorei com seu comentário.

    Regiane, Davi, Lete, professorinha, vocês são como presentes em minha vida. O "convivio inteligente" que vocês começam a me proporcionar é algo de um valor acima do incalculável...

    ...e parafraseando mais uma canção do Zé Geraldo:

    "...Um menino abrindo um presente, agora eu sei o que sente."

    Beijos Sudestinos.
    A Quinta Aspirina!

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  6. Eliana,

    que texto gostoso de ler. Muito engraçado, além de ágil e simples. Pra mim, crônica é por aí mesmo.

    Congratulações pelo texto, e a todos pelo blog!

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  7. Klas,

    Um primor o seu texto! Veríssimo e Ponte Preta é que sabem o qto gosto desse estilo de crônica. Rs... O efeito de humor foi mto bem construído. A oralidade, mto verossímel. E olha q não é tarefa fácil reconstruir o oral no escrito com a intenção literária, então, nem se fale!
    Estou mto feliz tb de estar compartilhando tudo isso com vcs. Olhe, já os tenho em altas contas!

    um bj grande
    A prima ASS

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  8. Minha querida, adorei o texto e os demais também. Como sabe, já era sua leitora antes e agora vou passar sempre por aqui para saborear também um pouco dos textos dos seus amigos ai que escrevem tão bem.
    Que bom que agora pode compartilhar ainda mais essa sua alegria e beleza no que escreve.
    Adorei o blog, parabéns e sucesso à todos.
    bjs.
    Ana

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  9. Nunca vou me esquecer de quando ela chegou em casa e me mostrou essa "pequena HISTORINHA" que ela avia postado em seu Blog ... kk' No começo eu li e ela não me disse nada.. Depois quando terminei minha Maravilhosa mãe disse .. Alfredo existe .. Não aguentei dei muita risada !!!! Quando se pega conduçao as 6:30 da manhã TUDOO PODE ACONTECER ;D

    Ass: Alice Klas

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