14/04/2011

A estranheza de um ser


Alguém já disse que nunca se conhece totalmente uma pessoa. Por isso não tente. Você não me conhece. Eu não me conheço. Sou estranha. A pessoa mais estranha que (des)conheço.
Não adianta. Entender-me é impossível. Sou, por natureza, esdrúxula. Pra começar, sou mulher. E mulher, tão bem cantou a Rita Lee, é bicho esquisito. Assim sendo, como mais um exemplar único dessa espécie de tão difícil compreensão, me rebusco de atitudes e sentimentos equívocos.
Sorrio quando todos esperam que eu chore. Choro quando tenho motivos de sobra pra sorrir.  Calo-me quando devo gritar. Grito quando o momento sugere silêncio. Contudo não se espante se, de repente, tudo ocorrer pelo avesso. Afinal também sou inconstante. Ou não.
Acredite. Sou capaz dos maiores gestos de carinho. Capaz de dar a vida por quem amo. Mas, em certas ocasiões, ajo com uma frieza que me assusta e de mim afasta àqueles de quem tanto gosto. Porém se há em mim tanta frieza, não seria por tantas vezes de amor ter eu morrido? E se viver vale à pena, como proclamou o poeta, morrer de amor valeria?
Todavia, muitas vezes mesmo desejando o oposto, não posso negar: amo e tanto e com tanta intensidade as pessoas, a vida, o amor. Amo amar, de forma a me confundir inteira. Talvez por ser o amor, assim como eu: intenso, instável, estranho, encontro-me nele e ele em mim.

Professora


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9 comentários:

  1. Parabéns para a professora Rokatia.
    Ao amigo Jotta Paiva um forte abraço!

    Sucesso a todos!!

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  2. Todos somos esquisitos, deliciosos, mal-acabados, extravagantes, singular, excêntricos, rabugentos, bisonhos e impertinentes, entretanto raros. Não precisamos ser entendidos e sim amados. ;)

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  3. Lendo e acompanhando sempre. Seu texto apresenta características típicas da mulher. Esse ser tão único e tão comum, tão singular e tão plural ao mesmo tempo. É um baú de características que ninguém jamais vai entender, visto que não existe manual para isso. Não se sinta só: as demais aspirinas são exatamente assim, por mais que tentem negar.

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  4. Não estou em condições de dialogar ou de criticar com um texto que eu gostaria de ter escrito.

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  5. Caro Davi,
    Impossível negarmos! Só não acredito q seja uma característica feminina, mas da própria condição humana. Talvez nós só tenhamos mais facilidade em aceitar essa nossa condição de "eterno inacabado".
    Rokátia, escrevi dois textos, inclusive já os enviei para o Urubu Rei, e é incrível como dialogam. Gosto muito desse estilo em que ocorre o transbordamento de um "eu", que teima em existir num mundo de existências fastasmas...

    um grande abraço

    Prima ASS

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  6. Concordo em gênero número e grau com o Jota no quesito "texto que eu gostaria de ter escrito" e com a amigas no quesito "ser humano é bicho estranho".
    O fato de "sangrarmos todos os meses" apenas agrava o estado de "estranheza" concedido a todo ser humano.
    Na verdade? Mulher é f...!
    Mulher que sabe se externar, que sabe se assumir, que "É" e a sí mesma basta "Ser" é duas vezes Fod...
    Parabéns linda professora!

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  7. Amei essa descrição de quão abusurdas somos nós em relação ao amor, pois me vejo e reconheço traços da minha personalidade que amo e odeio, mas que ao mesmo tempo me faz ser quem sou.

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  8. Sabe o que me ocorreu depois que li você? “Como esse texto consegue falar de mim assim?”. Um ser esdrúxulo e intenso. Resultado: alegria e dor! Assim sendo, esse eu- construído de um lirismo intimista - fez com que o mergulho em mim me arrancassem flocos de lágrimas ...
    Obrigada pelo seu texto!
    Aspirina reina

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  9. Estranho é não amar, pois somos todos, seres amáveis. O grande dom da vida é reconhecer naquelas pessoas que se acham estranhas a beleza do seu ser. Você não é assim tão estranha, você é MULHER, e como todas as mulheres, seres extremamente amáveis.

    Um Grande Beijo.

    Augusto Néo

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