10/04/2011

Lixo noturno

Vik Muniz

O brilho da lâmina ofusca o meu olhar. É mais uma daquelas noites. O cheiro do cigarro me entorpece. Há vestígios de sangue e álcool por todos os recantos do quarto. O mofo nas paredes. O corpo de uma mulher largado ao chão. Abandonado. Jogado aos vermes. Que destino trágico. O que ela teria feito para ser alvo de tamanha crueldade?

Sempre encontramos nas rondas noturnas cenários como esses. Visões desoladoras que nos remetem ao que há de pior no ser humano: a barbárie de uma sociedade moderna que violenta, estraçalha e mata o que não lhe é conveniente.

Fazemos o nosso trabalho rotineiro. De procurar vestígios, restos ou quaisquer indícios que possam nos levar ao culpado. O tecnicismo incomoda. Afinal, estamos lidando com o assassinato de um ser humano. De uma meretriz, para ser mais preciso. Uma dessas mulheres de rua que vendem sua dignidade e encontram a morte diante de um pervertido sádico qualquer.

Diacho! Os ponteiros indicam quatro da madrugada. Bastaram uns poucos gritos ensandecidos no meio da noite para os vizinhos ligarem para a polícia. Poderia ser qualquer coisa! Urros de prazer, o que for! Esse mundo parece tão obcecado pela morte que as pessoas já pensam logo se tratar de um crime. Imaginação fértil, diziam meus colegas. Muito romance policial na cachola! Mas, como diria o velho clichê, são “ossos do ofício”. E plantonista noturno, sofre!

Lembro dos restos de um sanduíche velho deixado sob a mesa. Come depois! Bradou o chefe. Um senso de responsabilidade incômodo, diga-se! Quem, em consciência sã, vai atender um chamado noturno, inconsistente, quando a noite promete! Jogatina até altas horas. Papo furado, jogado pelo ralo e algumas piadas sujas antes da alvorada regadas a litros de cerveja para fazer o tempo passar.

Corpo removido. Provas colhidas. É tempo de voltar para casa. O dia amanhece e o sol já desponta. Um cafezinho para esquentar o corpo não faz mal. Um cigarro para poluir os pulmões também é uma boa pedida. Uma soneca até o meio-dia e um almoço camarada. A velha rotina de sempre. Os caras da manhã que tomem conta das primeiras investigações. Já recolhi o lixo noturno. 



AUTOR CONVIDADO Raildon Vieira de Lucena é Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo, pela UEPB de Campina Grande/PB. Trabalha com assessoria de imprensa e é colunista de cinema da Revista Papangu.

7 comentários:

  1. Muito bom, ótima fluência. Parabéns pelo trabalho.

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  2. Raildon,

    Uma grande sacada teu texto, me fez lembrar de Rubem Fonseca, o cara que é mestre nesse estilo de narrativa. Uma observação q faço é quanto a contrução da oralidade, ela não está verossímel ao personagem-narrador. Repense o processo de escolha lexical ( ofusca, entorpece, meretriz) seriam palavras que um investigador usaria?

    Prima Aspirina

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  3. Raildon é carnal, realista, sem tempo para floreios. O conto lembra o início de um romance, o que não impede de ser desenvolvido depois, mas também lembra um roteiro, de suspense ou filme policial. Crítico de cinema de grande respaldo e seguidor da estética de Tarantino, Lucena é ainda apaixonado pela obra-arte de Poe, influência presente, principalmente, em sua poesia, ainda desconhecida do público. Obviamente, após essas informações, possivelmente o texto publicado ganhe novos sentidos. O conto é cru e atende, de várias maneiras, a proposta das narrativas contemporâneas.
    Raildon Lucena escreve crítica de cinema no blog: http://www.observatoriodecinema.blogspot.com/

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  4. Raildon, primeiro dizer que é com grande alegria que recebemos sua presença e, confesso, que desconhecia seu lado literário.

    Acredito que Paiva foi muito feliz ao dizer que seu conto é cru. Isso mesmo, com toda a carga semântica que a palavra permite: "não está cozido", cruel, chocante, áspero,sem disfarce, que nada atenua. Exatamente isso! Você revela um universo que não dá para adoçar nem salgar.

    Ressalto também que gostei muito do título: retrato de um ser ninguém.

    Parabéns pela estreia!
    Regiane de Paiva

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  5. Pessoal do Aspiriras e Urubus, agradeço o espaço. Essa foi a primeira vez que enveredei pelo mundo dos contos. Há um certo rebuscamento no texto, como foi relatado por Lete Costa, coisa que, acredito, poderei aprimorar com o passar do tempo.

    Abraços e boa sorte no projeto!

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  6. Adoraria que meus comentários saíssem de primeira. Sempre posto, mas parece que acontece um erro.

    Enfim...

    Quero dizer que adorei o texto do grande Raildon. Lembrou-me toda a literatura que consumi durante a infância e adolescência e, cá entre nós, ainda meu tipo preferido.

    Continue publicando! Ainda quero ler mais obras!

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  7. Bom texto e comentários muito interessantes. Devo me alimentar diariamente desse conteúdo... mesmo!

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