16/04/2011

Olá meus velhos,



A melhor forma de expressar tudo que estou sentindo no momento é através de palavras escritas. É mais uma forma de desabafo. Vocês são meus mentores, meus amigos e faço questão de mostrar isso pro mundo. Mais do que em mim, penso em vocês em tudo na minha vida, mesmo diante de coisas difíceis.
Não é mentira que nos últimos tempos estamos passando por um conflito bastante forte. Mas isso tudo começou muito antes. Não sei se lembram, mas desde que pus as mãos no meu primeiro salário, já disse que ia começar a juntar pra sair de casa, ter meu lugar, do meu jeito, com minha independência.
Lembro-me no primeiro dia em que estava bastante nervoso e você, meu velho, veio com calma e me explicou que tudo ia dar certo. Assim como minha conta no banco, minha matrícula no colégio, academia. Foi por causa do senhor que me tornei o homem que sou hoje.
Minha velha, minha guerreira. Mãe protetora e cheia de amor pra dar. Sempre fiquei fascinado com suas histórias. Você sempre foi independente e confiante. Absorvi tudo isso. Sempre luto pelo que quero e vou atrás. Acho certo que um homem seja dono de suas decisões.
Desde sempre que eu vinha dizendo que queria sair de casa e nunca ninguém deu muito crédito, por razões óbvias. Terminei a faculdade, consegui um emprego bom e acho que o próximo passo para a minha realização pessoal e aprender a viver é indo para uma casa só minha.
Amo tudo o que tenho. Sou um homem abençoado. Sou grato por tudo que vocês fazem por mim. Tento retribuir da melhor forma possível e não envergonhar vocês. Mas é como o senhor me falou uma vez: “um pai é pra mil filhos, mas um filho nunca vai ser para um pai”.
Estou querendo me expandir. Preciso tomar conta de uma casa, sentir o que é ter contas para pagar, lavar uma louça, fazer minha própria comida, começar a viver de verdade. Vocês alegam sempre que eu devo esperar. Mas esperar pelo quê? Esperar por quem?
Sei que é difícil para vocês aceitarem que tem um filho diferente. Se pudesse escolher, eu mesmo não gostaria de ter nascido assim. O preconceito é grande. As pessoas falam, comentam. Mas no final, se você é gordo, se você é negro, se você é feio, todo mundo comenta do mesmo jeito, né?
Demorei muito pra aceitar isso. A pior aceitação é a aceitação própria. Desde cedo eu sabia que ia ser difícil. Sempre quis negar. Sempre achei que um dia isso ia passar. Sempre pensei “quando eu crescer isso passa. Vou casar, ter uma mulher e lindos filhos”. Mas nunca passou. E o que fazer então? Tentar me aceitar como eu era.
Ai vocês devem pensar: mas meu filho, e se der errado?
E eu respondo: se der errado, deu errado. Mas vou tentar, vou correr o risco.
Às vezes gostaria de silêncio, de chegar em casa sozinho e dormir no sofá, de sair de 11 da noite e só voltar de manhã, de não almoçar na hora do almoço, de fazer meu próprio café da manhã, de não ter ninguém batendo à minha porta chamando meu nome, de quebrar um copo, lavar a louça, limpar a casa. Sei que é muitíssimo cômodo ter várias pessoas fazendo tudo pra mim. É ótimo chegar em casa e ter a jantinha feita, roupa limpinha, cama arrumada. Mas às vezes eu só queria mesmo não ter nada disso.
Imagino também que vocês pensam que eu vou sumir da casa de vocês. É CLARO que eu não vou. Os outros filhos almoçam e jantam com vocês, comigo não seria diferente. A gente vai continuar se vendo (haha) e se amando. A diferença é que eu não durmo mais em casa.
Adoraria ter a ajuda de vocês. Se isso for possível, ótimo. Mas se não for, também vou entender. Só peço que respeitem minha decisão. É MUITO importante pra mim. Lembrem-se que vocês estão colaborando para minha felicidade. E estou lutando muito por ela.
Enfim, era só isso. Agora vou continuar correndo atrás do meu futuro, sempre tentando não trombar em nada nem em ninguém. Espero realmente que eu possa contar com vocês.
Com amor,

[carta traduzida da linguagem Braille, específica para leitura e escrita de deficientes visuais]

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5 comentários:

  1. Doce e cândido Davi,
    Seu texto me remeteu a alguns questinamentos, que mtas pessoas e mesma me faço. Pq optar em ser só, independente, qdo, na verdade, sabemos q a necessidade de estarmos juntos parece ser maior, melhor e mais comoda?
    A melhor resposta q consegui elaborar, se é q existe uma melhor resposta, foi que a solidão é uma necessidade para existirmos, já q buscar a si próprio qdo estamos misturados a muitos é uma tarefa um tanto qto difícil.
    Quem somos nós qdo ninguem nos vê? Alguns filósofos dizem q nada, já q o eu precisa de um outro para existir. Mas isto não me impede de querer saber...
    Termino,então, com uma frase de Rosa "Cego é aquele q vê". Neste momento quero estar de olhos bem fechados.
    Um grande abraço
    Prima ASS

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  2. Lendo este texto, lembrei-me das vezes em que quis gritar 'Adeus" aos meus progenitores e cuidar daquilo que era só meu! Construir meu mundo e conduzir as ações em prol de mim mesma, era minha vontade. É certo, aprender com eles é sólido, mas deter o destino nas mãos e experimentar o doce e o amargo nos faz mais inteiros para vida. Ótima refexão Davi!

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  3. Davi, me identifiquei bastante com seu texto, haja vista estar vivendo este tão delicado momento de preparação para o corte do cordão umbilical. Realmente esta fase do "começar a juntar pra sair de casa, ter meu lugar, do meu jeito, com minha independência" não é nada fácil, afinal nossos pais sempre acham q a gente não vai mesmo conseguir sobreviver sem eles. Amei seu texto. Parabéns, querido!

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  4. O texto fala de uma situação específica, mas a construção permite que a identificação por vários sujeitos que vivem circunstâncias distintas. O texto atende a expectativa do leitor quanto a literatura, tanto no que diz respeito a teia de significações, quanto na assimilação.

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  5. Me emocionei enquanto lia, diversas vezes.
    Esta coisa de cordar o cordão, a questão da aceitação das diferenças (quaisquer que sejam elas) sem dúvida falam forte ao leitor.
    Parabéns. Belissimo texto!
    Eliana Klas.

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