08/04/2011

Pecado?

DDiART (imagem modificada)

Quando eu era pequeno, minha vó me disse que era pecado. Eu nunca entendi bem os limites do pecado. “Tem isso escrito em algum canto?” – uma vez perguntei. A resposta veio na forma de uma tapa bem grande no meu ouvido. Nunca mais arrisquei nem tocar no assunto. Era pecado e ponto final. E ela sabia muito bem. Na época era tudo diferente, ninguém entendia muito bem. Mas ela passava exatamente a mesma coisa que eu.

Já vi muita gente fazendo. Ver, mesmo, literalmente, não vi. Mas sei que tem gente que faz. E faz muito. Mas eu não posso não. Seria crucificado por isso. Ainda mais se alguém descobrisse minha fonte de prazer secreto.

Eu não posso. Mas confesso que faço também.

Uma vez estava sozinho em casa. Liguei. Pode vir quente que estou fervendo. Chegou em menos de meia hora. Cheiroso como sempre, doce... gostoso. Acho que isso é pecado. Ataquei. A carne é fraca e eu não sou de ferro. É simplesmente mais forte que eu.

Eu acho que minha esposa desconfia. Uma vez ela quase me pegou fazendo. Eu o escondi debaixo da cama. O problema é que o cheiro, o gosto, fica. Inventei uma mentira bem grande. Mulher tem sexto sentido, claro que não colou. Difícil mesmo foi tirá-lo de lá depois.

Outra vez foi na mesa da cozinha. Meu filho viu. “Pai... ?” . Nem tive o que responder. Ele viu. Fui conversar com calma depois. “Olha, isso é mais forte do que eu. Não quero que você aceite não. Mas fica de boca calada, tá bom? Depois te compro aquele videogame que você queria...” Claro que ele aceitou. Meu filho é um bom garoto. Ingênuo para os seus 9 anos. Mas sabe guardar segredo.

Com o tempo a vontade fica mais forte. Só sabe quem passa. No meu aniversário de 50 anos ele estava lá. Na hora pensei “Quem diabos o trouxe pra cá?”. Não podia deixar ninguém reparar a saliva escorrendo da minha boca. Era mais que obsessão.

Pecado é uma palavra forte. A gente vai pro inferno por causa disso? Acho que já estou no check in das portas das labaredas eternas. Mas não posso fazer nada.

Resolvi procurar um psicólogo. Ele me disse que era normal em pessoas da minha idade. Era genético e eu não devia me preocupar. Mas tinha que resistir o máximo possível.

Sai de lá tonto. Precisava pegar um ar. Resolvi dar umas voltas em um parquinho perto da minha casa. Advinha quem estava lá?

Junto com a mão de uma criança. Esplêndido. Nunca o tinha visto tão bonito.

Olhei para um lado, olhei para o outro.

Cheguei perto, chamei o guri: “Quanto você quer em troca desse sorvete que você tá segurando ai?”

O guri: “Nada não moço, pode ficar. Odeio esse sabor”.

Arrebatei da mão do guri, disse um obrigado ofegante e sai correndo pra trás de uma árvore.

Maldita diabetes.


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7 comentários:

  1. Urubuzinho... gostei muito da expectativa que vc gerou no início do texto. Fiquei pensando nos inúmeros pecadinhos que nos rodeia. Mas confesso, que nunca imaginei que fosse o tal do sorvete. Tenho uma prima que sofre com isso também e sei bem dos pecados que ela carrega nas costas e no sangue...
    Não tenho dúvida de que suas contribuições serão inovadoras e surpreendentes.
    Abraços aspirínicos!
    Regiane.

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  2. Fiquei surpreso ao ler não só este, mas outros textos do Davi Moura que serão postados aqui. Impressiona a facilidade que ele tem de construir estórias cheias de mistério, sem perder o humor. É certo que prima pelo “fecho de ouro”, que alguns não gostam e até criticam. Ainda assim, é preciso reconhecer que prender a atenção de um leitor e no fim fazê-lo sorrir de surpresa, não é uma tarefa fácil. Davi é um grande leitor e mesmo sendo estes seus primeiros textos literários, mostra que estava desperdiçando um potencial precioso.

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  3. Urubu Davi, adorei sua crônica. Envolvente, me fez viajar anos luz, durante a leitura, na busca por esse doce pecado só revelado no final. Nessa viagem passei por vários momentos da minha infância em que mamãe também enumerava alguns pecados tão tentadores e deliciosos quanto o seu sorvete. Sua narrativa me seduziu do início ao fim, o que sabemos não é prática literária muito fácil. Mas o inesperado desfecho foi sem dúvida o melhor. E um surpreendente final desse nos leva a imaginar quantas aprazíveis leituras nos serão aqui apresentadas por você.Parabéns pela crônica de hoje. Eu já ansiosa pela próxima.

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  4. ... o belo é sempre motivo de satisfação e prazer para todos nós...
    Muito bom o texto: do início ao fim!
    Como cada leitor é co-autor (Leonardo Boff), as "mentes poluídas" sempre imaginam um desfecho diferente...
    Mas... esse é o belo da arte literária!
    Abços
    Prof Marcos Roberto - Marquinhos

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  5. Davi,

    Faço meu o comentário dos colegas. E, claro, já havia comentado com a rainha aspirina sobre a sua tão pouca idade e grande competência. Agora, uma dica, se fosse vc retiraria a última frase. Acho q ela é a única coisa qu pega no seu texto, pois substima o leitor. Já entendemos lá bem atrás que se trata da gula, e a conversa com o médico, tb já dá entender do problema de saúde, mas a cena final, ela fala por si só. Releia e analise. De qualquer forma te acho grande, pois tá derrubando muitos Golias por ai, viu?!

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  6. Olá urubuzinho! Mal podia esperar para chegar hoje e eu ler seu texto!
    Muito bom! Textos assim são deliciosos,e eu adoro os "fechos de ouro", mistério e riso juntos sempre me agradam.

    Pois bem, eu adorei a frase no final, risos!

    Cada leitor tem uma análise, por isto muitas vezes o escritor tem de se prender a sua própria visão.
    Vinicius de Moraes adorava debater suas poesias, adorava trocar opiniões, mas por fim defendia a sua ótica, pois não teria mesmo como fazer prevalecer a ótica de todos os leitores.
    Enfim, viva nosso laboratório!
    Beijos!

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  7. Jota, obrigada pelo convite para conhecer este espaço. Adorei todas as leituras que fiz aqui. Volto outra hora para mais leituras e encantamento. Parabéns pelo bom gosto na escolha dos textos. Beijos no adorável casal. Ângela R Gurgel

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