18/04/2011

A poesia dos salões

Mulher nova da beleza no céu - MIRABELLAR

Dona Fátima foi uma das maiores descobertas minhas recentemente. Aquela mulher não existe. Assim que ela tocou a minha cabeça, eu soube que seria eterno. Ela me faz lembrar as coisas práticas; as práticas coisas do amor substituído pelo platonismo do amor carnal. Há coisas que não deveríamos esquecer como as delícias da pureza do outro. E foi assim que conheci dona Fátima, minha cabeleireira. Nunca vi tanta doçura numa mulher desconhecida. De uma calma incomum às cabeleireiras, frenéticas, sempre frenéticas e tão bem informadas.
Talvez o meu deslumbre seja incomum, visto o amor que se adquire pelas cabeleireiras e seus divãs. Aliás, é mais preciso informar-se naquela cadeira do que nas redes sociais. Ir ao salão é como escutar rádio.
Da vez que fui, dei conta dos descasos da medicina. Ninguém entende mais de atenção básica do que mulher quando está em salão. Também pudera, a mulher está sempre tendo que ver um médico. Triste condição. Mais uma das injustiças celestiais. Homem só vai ao médico quando a mulher obriga e até o médico acha que ele não tem nada. Homem só tem alguma coisa quando morre.
O salão é como um livro de contos. Cada pessoa que entra traz uma história que se complementa. É talvez o ambiente mais literário de uma cidade, resguardando as exceções. Mas é preciso lembrar que a poesia não está nos catálogos nem nas compilações, embora digam que o “preço do feijão não cabe no poema”. Mas a poesia cabe no salão e é uma poesia disforme como o próprio Gullar ou o Drummond, os mais cotidianos.
Costumava, até então, ir ao barbeiro das barbearias antigas. Acho interessante o ambiente bucólico, as velhas cadeiras, mas nunca gostei das conversas. O serviço é rápido e agressivo. Cortam o cabelo como se rapa coco. Sai-se das barbearias com as orelhas vermelhas e um pouco de labirintite.
Ao contrário, dona Fátima carrega o toque das mães nos domingos de saudade. Ela não tem pressa. É como se em sua vida a vida não tivesse pressa. Possivelmente, isso faça parte do tratamento porque as mulheres que frequentam o salão precisam mais de seus ouvidos de que de seus cortes. Chego a pensar se dona Fátima não estaria apta para a função de terapeuta. Parafraseando a doutora Wirgínia Hofmann, “se não fosse o formalismo cartesiano imposto pelas universidades e seus atores doutores intocáveis [...]”, diria que ela é Philosophy Doctor: uma PhD sem tese.
 Desconfio que não é somente a beleza que importa às mulheres e é dessa certeza que se constitui a vida. Ora, o que seja a vida senão como a tal, uma torrente de incrustações epicuristas. A leveza do ser é o próprio ser e só as mulheres sabem onde se encontra essa irreflexão. É preciso paz para se submeter à dor pela estética.
A mulher é passional sempre, por isso vai ao salão para chorar enquanto faz a unha. Do mesmo jeito, ela se condensa em dor e endurece. Fecha-se para nunca mais voltar como na infância ou retorna à vida com a esperança dos desafogados. Só ela é capaz de suportar as fraquezas do outro e ainda achar tempo para morrer de amor.

Jornalista


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5 comentários:

  1. A beleza de um texto se faz e refaz não pela técnica ou pela quantidade de termos eruditos, mas pela capacidade que o autor tem de resgatar - com sensibilidade e poesia - os fragmentos do cotidiano. Reconhecer o divã de D. Fátima significa captar o micromundo que se vive num salão de beleza; descobrir os mais diversos sentimentos que povoam a alma de uma mulher; vislumbrar a projeção curta do que realmente são... Numa “visita” despretensiosa, você consegue, com sutileza, mostrar que a função de uma cabeleireira está além das tesouras... Excelente constatação!
    É justamente esse olhar desprendido de amarras de gênero que faz de você um cronista sensível... Bjs in... ... ...
    Reina.

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  2. Leitura deliciosa. Fui do riso a emoção.

    O trecho "O serviço é rápido e agressivo. Cortam o cabelo como se rapa coco. Sai-se das barbearias com as orelhas vermelhas e um pouco de labirintite" me fez rir alto.

    ...Ao ler seus textos as vezes fico zangada com sua solidariedade à condição feminina. Ela me deixa a impressão de que carecemos de algum tipo de piedade por nossa condição física/emocional/metabólica ser distinta da dos homens. Mais de uma vez me peguei brava com isto, mas sempre lhe dou o benefício da dúvida.
    Hoje você se redimiu completamente com o trecho:
    "Só ela é capaz de suportar as fraquezas do outro e ainda achar tempo para morrer de amor."

    Parabéns Jota.
    A qualidade dos seus textos são inquestionáveis.
    Já te escrevi mil vezes que estarei na sua noite de autógrafos!

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  3. Queria achar um pecado q te condenasse, juro. Mas tu é matreiro. Cada vez q chaga a beira do precipício se ergue soberbo.
    Urubu mor, está sempre por cima da carne seca...rs
    Excelente narrativa perpassa entre o crítico, o lírico, o humor, o filosófico e o jornalístico. Cronista caceteiro!
    Abraço grande
    Prima ASS

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  4. As Aspirinas e os Urubus continuam com tudo! Belo texto! Parabéns!

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  5. Esse moço da Lagoa do Feijão é mesmo arretado!!!

    Querido, é sempre muito bom ler você. Sabe por quê? Porque consigo sentir a sua sensibilidade poética até mesmo ao dizer: "Cortam o cabelo como se rapa coco. Sai-se das barbearias com as orelhas vermelhas e um pouco de labirintite".
    Demorei a vir lhe "ver". Mas valeu a pena. Adorei a crônica. Parabéns!

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