16/04/2011

Socorro!!! O que o mundo fez com Isabel???????????

Tarsila do Amaral


Durante esses quase 25 anos como servidora pública do RN, jamais precisei do serviço público sem que a humilhação, a prepotência e a falta de informação não fossem anexadas ao pacote das minhas solicitações e direitos. Nessas horas, sinto uma gigantesca saudade do meu interior. Lá o mundo não embrutece as pessoas. Por mais razões que o sertanejo tenha para tornar-se indiferente ao outro, isso não acontece. Há sempre uma relação de igualdade e respeito entre aquele que serve e aquele que é servido. Parece uma intimidade nascida apenas naquele chão, como forma de compensar sua aridez constante.

As magnólias floridas que enfeitam o Centro Administrativo da capital ferem mais que os espinhos dos meus mandacarus vingados a revelia, teimosos do meu sertão, sem água, sem mãos para plantá-los nem regá-los. As magnólias destroem a minha vontade de continuar acreditando que para que tudo seja belo, correto, justo e valioso tem de ser planejado, organizado, estigmatizado, estudado, analisado, enfileirado... Destroem a minha crença de que existe qualquer coisa de gente dentro de cada um que se vê por ali.

Subo a rampa que dá acesso à Secretaria Estadual de Educação como uma estrangeira que não compreende a língua nativa daquele território inóspito, demarcado por esquisitas plaquetas dependuradas pelos blocos e portas... E mais portas fechadas. Descobri que é preciso “pagar um guia” para circular pelos seus corredores.

Sem “guia”, para onde mesmo que devo ir??? Ninguém me responde. Entro e saio de cada compartimento existente, sem um olhar, um cumprimento. Vou caminhando, subindo e descendo escadas, tentando decifrar os códigos secretos: SE, COAPH, CODE, CADAF, DIRED...Nossa!!!!!!!! Aquilo tudo é mesmo um PROTOCOLO, única palavra compreensível no meu parco dicionário de velha professora, que só aprendeu, ao longo do tempo, que é fundamental cultivar valores e atitudes em sala de aula e não somente latitudes e longitudes.

Entro numa sala repleta de papéis. Aprecio as cinco servidoras sentadas às mesas, do lado de lá. Fico esperando uma palavra que me estimule a aproximar-me. Nada! Aguardei em pé no canto da sala... Nada! Fiquei me perguntando: que histórias elas teriam pra contar? Tento enxergar no rosto de cada uma, um pequeno gesto ou alguma semelhança com a vida que tenho levado. Nada encontro. Ouso avisá-las de que estou ali: bom dia! Ninguém responde. Tento novamente em voz alta: Sra. Isabel?????? Neste momento, uma delas levanta a cabeça e olhando-me sem olhar, rebate: “Espere a sua vez, não vê que estou atendendo outra pessoa?” Pedi desculpas e vi minha alma acuada, feito criança travessa posta de castigo. Permaneci calada e aproveitei a espera para ter pena de mim.

Criatura sem nome, sem “padrinho”, sem referência; professora de periferia que vive mais descendo e subindo de ônibus que agarrada aos livros; que todos os meses vai ao caixa eletrônico fazer empréstimos para sobreviver; que de tanto apertar aquelas teclas, a tela já tem o que dizer: ”limite indisponível”. No dia seguinte faz a mesma coisa, dessa vez veste uma roupa melhor, põe batom e dá um sorriso amarelo pra aquela máquina, porque sabe que está sendo filmada. Faz amizade com ela, entretanto, ela só responde a mesma coisa: sujeito à confirmação de margem”.

Lá vão te indicar uma sala de aula E eu saio assim, envergonhada, à margem desse mundo, sem confirmação, até que Isabel me entrega um memorando: ”Apresente-se à DIRED, disponível.”

Decido enfrentar o sol de meio dia e ir a pé até a DIRED, economizando um vale transporte. Ao chegar, encontro uns oitenta “seletivos” à minha frente, buscando a mesma vaga que eu. Eu, há mais de duas décadas lecionando, misturei-me àqueles jovens e me pus novamente a esperar.

Já era tarde quando Socorro me atendeu. Quando puxei o meu memorando para apresentá-la, um senhor interviu educadamente pedindo-lhe uma informação, no que Socorro respondeu-lhe rudemente: ”Queria apenas uma informação ou já vai resolver sua situação? Vai tomar o lugar dos outros? Espere a sua vez!” O então professor desculpou-se e cabisbaixo procurou desesperadamente em que se equilibrar para distanciar-se da mesa. Ele tinha as pernas trôpegas, os pés voltados para trás. Passos largos de indignação rasgaram caminhos dentro de mim. Socorro alegava que tinha que fazer todo atendimento sozinha, pois faltava pessoal para auxiliá-la. Recebeu o meu memorando e falou: ”Senhora, temos sete aulas nesta escola, oito aulas nesta outra, duas aulas nesta outra aqui...” Retruquei que não tinha a mínima condição de preencher minha carga horária em várias escolas. Nenhuma condição de pegar tantos ônibus ganhando quase nada. O meu salário de professora daria apenas para o transporte. Ela replicou: “Senhora, as escolas estão fechando, não tem como ser diferente!”

Recolhi o meu memorando e voltei para casa chorando. As vagas que seriam minhas foram preenchidas pelos servidores temporários do “processo seletivo”.

Que ironia!Enquanto na DIRED faltava servidor para auxiliar Socorro, sobrava servidores na educação. Enquanto Isabel estava assoberbada de processos para analisar na Secretaria de Educação, sobrava servidores do quadro efetivo da educação. E nos noticiários da TV, estudantes abandonam a escola por falta de professor!

O que está realmente acontecendo nesse país? Alguém sabe me responder? Uma mulher de esquerda é eleita presidente, prorroga concursos públicos, ignora a lista dos já aprovados em nome da inflação, da contenção de gastos, enquanto os estados promovem processos seletivos para “melhoria” do quadro deficitário da máquina pública, “temporariamente”... O “tempo todo”????? Juro que não entendo mais nada. Desaprendi a aprender. Não sei mais nada. Recebi um conselho dos jovens seletivos na despedida: ”dê entrada na aposentadoria, é o melhor que a senhora faz!”

Eles têm razão: no mundo de hoje, se faz estritamente necessário ter um QI (Quem Indica), como os “seletivos”, “Isabel” e “Socorro”, para ser respeitado e para finalmente entender a diferença abissal entre magnólias e mandacarus.

Fátima Abrantes.

AUTOR CONVIDADO: Natural de Alexandria/RN. Atualmente reside em Natal/RN. Professora da rede estadual de Ensino. Técnica da Secretaria Estadual de Assistência Social (Projovem Adolescente no Estado).

7 comentários:

  1. Redondíssima crônica. Apesar de tratar de um problema bem específico dá margem para refletirmos outras situações de descaso. Ou o próprio descaso humano, seja dentro ou fora das instituições.
    Parabéns!
    Abraço
    Prima ASS

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  2. Fátima,
    seu texto é um pequeno recorte da falta de compromisso do nosso Estado com um dos setores mais importantes: Educação. O realismo das linhas configura a falência das repartições públicas. Parabéns pela ousadia e pelo belo texto!

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  3. Hoje tentei postar uma mensagem e o computador travou.Foi bom.
    Meu comentário era tão cheio de dor que talvez não conseguisse demonstrar o quanto gostei do texto.
    Sentí a dor deste personagem tão real, tão encontrado aquí e alí...
    Senti o peso de perceber o quanto a igualdade de oportunidades pode virar apenas discurso bonito, sentí a dor de saber que as oportunidades de nossos filhos talvez dependam sempre de uma "bolsa-alguma-coisa".

    Quinta Aspirina.

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  4. Receber e poder publicar este seu texto me dá a garantia de que valeu a pena ter pensado neste espaço. Esta crônica é um retrato corriqueiro da falta de profissionalismo e de amor à profissão no serviço público nacional. Parabéns.

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  5. Socorro no nome, porém diferente nas atitudes...Deixo aqui meu sincero elogio a esse texto que sem duvida, é o retrato do atendimento publico do nosso país. Um descaso, um desrespeito, uma VERGONHA!
    Parabéns!

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  6. Sinto-me tão gratificada pela disponibilidade desse espaço que, feito cabocla "Véia" do Sertão,abro esse embrulho constantemente, leio todos os comentários, assim, muitas vezes.E cada vez é a primeira.Depois enfeito-os com laço de fita, pra ficarem bem guardados, pra eu não correr o risco de esquecê-los amanhã.Obrigado, meninas e meninos.

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  7. Texo Belíssimo. Queria parabenizar a professora Fátima e ao blog por ter publicado. Esse texto precisa ser lido por todos os funcionarios publicos desse pais e pelos nossos governantes.

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