10/04/2011

VIDA DESCABIDA


Sebastião Salgado


Vejo as desgraças do mundo
Minha comoção é muito grande.
Aberrações e gente doente
Ferida com fome e mal vestida.

Vejo a injusta justiça
Revolto-me com toda razão.
Pois é muito dura a subida
Muitos tentam, mas lá não chegam.

Vejo as crianças que este mundo cria
São sofridas e mal queridas.
São trapos que se farão farrapos
São vidas que se perderão ao longo da estrada.

Vejo os burgueses e suas farturas
Tudo os sobram, mas nada os conforta.
Oprimem os trabalhadores de todas as formas
E assim se faz a sua satisfação.

Vejo as guerras descabidas
Onde milhares morrem sem saber.
E não entendem o porquê se morrem
Enquanto os homens de gabinete determinam.

Vejo o mundo por inteiro
Não entendo a democracia.
Muito se fala nada se vê
Melhor seria a anarco democracia.

Vejo muitos com vontade de chorar
Mas não conseguem nem soluçar.
No entanto, eles se entregam resolutos
E não podem nem mesmo desabrochar.

Vejo tantos com fome atroz
Porém nem um pão lhes vem à mão.
Mas ainda lhes resta a grande ilusão
De uma vida com muito pão.

Vejo o desatino que este mundo é
Onde as intenções valem mais.
A vida é só um mero passageiro
Dentro de uma existência injusta.

RIMLA – 03/06/1982

AUTOR CONVIDADO: Almir Messias do Nascimento é professor de História e Geografia e trabalho na Rede Pública de Ensino de São Paulo.


3 comentários:

  1. Caro Almir,


    Que bom nos encontrarmos nesse espaço, pois apesar de morarmos relativamente perto nossa rotina atormentada nos separa. Seu texto, mto comovente, aqui está evidente sua formação esquerdista, que se indigna, que deseja a luta, que deseja a tão sonhada equidade! Parabéns.
    Apenas uma observação eu retiraria a formatação de versos, pq está mais para prosa do que p poesia. Sei lá, fica a dica...rs
    bjão

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  2. Sempre digo que a poesia não tem nenhuma obrigação social, mas quando ela se propõe não há maneira melhor de expressão. A despreocupação com a forma não é uma novidade na poesia. Lorca, Bandeira, Gullar, Drummond e tantos outros modernistas foram mestres em compor o poema prosaico, discursivo e direto. Almir deixa-se guiar pelos sentimentos e opta por uma diagramação calcada pelas rimas Incompletas e Imperfeitas, que sempre são usadas para transgredir o modelo clássico. Ainda assim, mantém a musicalidade e, principalmente, a mensagem insistente e incômoda, sobretudo para aqueles que acham melhor deixar como está.

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  3. Posso garantir que nunca fui muito fã de poesia. Mas quando encontro uma obra com um caráter social desta dimensão, não posso deixar de ler! Parabéns! Prendeu-me do início ao fim!

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