12/04/2011

Visita

Pablo Picasso, o Beijo, 1969


A Bento e Clemência

Neste fim de tarde visitei uma amiga de infância que não via há alguns meses. Depois de longos abraços e risos, sua mãe, ela e eu, fomos tratar do nosso cotidiano na cozinha, em meio ao bolo e ao café. Não tardou muito em dar seis e meia da noite. O pai dela, depois de um longo dia de trabalho, surge. Mal botou os pés na sala, foi se achegando onde estávamos e com um beijo doce,  repousou o seu cansaço no rosto da esposa. Depois me cumprimentou de maneira saudosista. O fato é que fiquei imóvel vendo e revendo a cena. Ao que parece, já contam mais de 40 anos juntos e eles ainda velam pelos pequenos detalhes: o resguardo do dia que amanhece e o chegar depois da lida regado de carícias.
O rosto abatido dele denunciava a exaustão, mas o caminhar até sua companheira representava o sossego do fim do dia. Mergulhei nesse detalhe dos dois e fui além da minha visão romântica. Não, não se tratava disso. O caso reside no cuidado, pois apesar de o fardo às vezes os endurecer, ainda mantinham a ternura. Salve Che! É essa a questão. Não se tratava de haverem se acostumado com a presença um do outro, se tratava de zelar pela suas existências.
Resulta que a cena martelou minha cabeça. Quem dá e quem recebe nesse ato? É intrigante porque, quando ele percorre a sala até chegar à cozinha, espreme tudo de si e lhe entrega a última gota que lhe resta com um beijo. Ali, ele está a salvo: ela o acolhe com um sorriso e um abraço. Ao mesmo tempo, ela aguarda seus passos e fica a postos a espera do carinho dele, como se aquele toque aliviasse todas as tensões do seu dia. Por fim, os dois se encontram exatamente aí. Ele, na busca de alívio, se dá. Ela o recebe e se alivia. Ela fadigada, se dá. Ele recebe. Ambos saciam a sede. Ambos renovam as forças. Imagino que isso não elimina as discordâncias do dia a dia, nem as batalhas que devam travar com a vida, mas a delicadeza dos pequenos gestos elimina todo indício de suicídio coletivo.
Ao passo que revia a cena dos pais de minha amiga, passei os olhos numa manchete de uma dessas revistas de fofoca: Atores X e Y, após 18 anos de casados, ainda caminham de mãos dadas. Anunciaram como se essa atitude fosse extremamente extraordinária. O “ainda” delatou a falência das relações atuais.
Para completar, lembrei-me de um comentário que me fizeram, dias antes da visita que fiz a minha amiga: “Com dez anos de casados, a relação já estará desgastada”. Visão realista?! Teria essa pessoa também escrito a manchete anterior? Fragmentos de passado, por certo.
Des-gas-ta-da. Quem decide por ela? O tempo, o cotidiano, os atores do convívio?  O certo foi que, ao rever aquele casal que tive o prazer de conhecê-los quando ainda brincava de boneca com a filha deles, me renovou as ideias e me fez querer ter dias melhores e saudáveis. Fez-me querer trocar a acomodação por atitude. Fez-me querer ainda mais uma vida numa quente cama de casal, ao invés de uma fria liberdade numa cama de solteiro...

Professora


Licença Creative Commons
Visita de Regiane Santos Cabral de Paiva é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com.

8 comentários:

  1. É legal perceber que já conseguimos detectar traços no estilo de escrever de cada um, até mesmo nas temáticas, que, por mais diferentes que sejam (no caso da Regiane), denunciam uma romântica sem solução!
    Sobre o tema, faço questão de corroborar com o que você disse. E não é medo de acabar sozinho. É pra ter a certeza de um futuro ao lado de alguém que possa ser o oásis nos momentos de sede.

    ResponderExcluir
  2. Aspirina Reina,

    Sua crônica consegui captar sutilezas dignas do gênero: o flagra do cotidiano e o olhar investigativo lançado através dele... Perfeito. Tocante!
    Vc consegue fazer com que a cena tb martele em nossas cabeças, surtindo um efeito de sentido que mistura o lirismo à reflexão.
    Enredo envolvente, escolha lexical precisa. Belíssima narrativa!

    Um bj enorme

    Prima ASS

    ResponderExcluir
  3. A Prima ASS expressou algo que também sentí:
    A cena também fica martelando em nossa cabeça.
    É como se todas nós estivessemos naquela casa e depois a cena fica em nossa mente.

    Já fui solteira,abandonada, casada, separada, divorciada, sozinha, enamorada, . E em meio a isto tudo entendi que bom mesmo é um amor assim: Construido ao longo da vida. Um amor pra cuidar e ser cuidada.
    Beijos minha Aspirina "Reina"!

    Quinta Aspirina.
    Eliana Klas.

    ResponderExcluir
  4. Minha cara Regi, vc não acredita que nesse exato momento eu estava escrevendo sobre isso. Num passado não muito distante tive a experiência de morar sozinha e logo descobri que não conseguiria...É muito triste não ter com quem conversar, com quem dividir as alegrias, tristezas, angustias, os prazeres e as contas...rs
    Ainda me emociono quando vejo um casal de velhinhos ainda com paciência e gestos de carinho, é isso que quero para mim e desejo para vc tb.
    um beijo!

    ResponderExcluir
  5. Minha amiga,
    Parabéns por mais esse texto. Sua sensibilidade e seu romantismo são encantadores. Concordo com todo o texto, sobretudo com o último período. Excelente texto.
    Abraço
    Marinézio Gomes

    ResponderExcluir
  6. Num encontro que tive com Benjamin Abdala Junior, curador do prêmio Portugal Telecom, ele disse que a pesquisa brasileira precisa ser feita a partir do olhar de nossa janela. Interpretei esse comentário não só para a pesquisa, mas para quase todas as coisas que se possa fazer, sobretudo a literatura. Não adianta escrever aquilo que não lhe pertence. Neste texto a Regiane cumpriu um papel primordial da escrita ficcional: aguçar os sentidos e as percepções. Ela olhou pela janela e o feedback recebido veio não com os elogios, mas com as emoções transbordantes dos leitores e seguidores. Um belo texto: simples, forte e verdadeiro.

    ResponderExcluir
  7. O que eu poderia deizer do seu texto? Lembra de O Carteiro e o Poeta? mais especificamente quando Neruda diz que entender um poema é senti-lo, e falar outro o que se interpreta dele é vão, por isso as críticas são uma forma mais ou menos feliz (ou infeliz) de falar da arte? Pois então, estamos falando de crônica, e o que o ponto de vista de Neruda tem a ver com seu texto? rs. É simplesmente pra lhe dizer que sua martelada foi sutil e tocante. Parabéns pelo texto! No mais, qualquer crítica que eu expresse será insufuciente, visto que o sentimento captado por suas palavras não se conteria em qualquer comentario que eu registrasse.
    Samira Luara

    ResponderExcluir
  8. Com tanta intensidade e sensibilidade...fiquei cheia de esperança e contentamento com a leitura. A visita foi ótima! E eu só desejo que o teu olhar seja sempre assim: uma janela aberta para essas leituras cheias de "detalhezinhos", de "encantinhos", de "amorecos". Uma paisagem pra re-pousar.

    Parabéns pelo texto!

    ps.: Leio tudo por aqui!

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...