27/05/2011

Alma dilacerada


Sebastião Salgado


Professora

Um suspiro.

O corpo se dilata. A alma se comprime. Os ossos doem. O ar parece esmagar o coração. O braço levemente estendido busca apoio para aquele já debilitado físico, cujas pernas dolentes não mais suportam carregar. A mão, trêmula, levemente se abre pedindo ajuda. Os joelhos se dobram parecendo ensaiar uma oração. Os dedos se cingem, como se assim pudessem suturar a incisão deixada pela afiada lâmina das palavras ditas.  As unhas encravadas sob a pele buscam incessantemente anestesiar a dor daquele instante.

Outro suspiro.

O olhar fixo na parede projeta imagens de cenas envelhecidas de felicidade. A mente caminha perdida por entre as escuras vielas das lembranças de outrora. A boca salivante tenta dizer algo. Mas os dentes cerrados proíbem os lábios de confessarem os segredos, há muito, trancafiados no cofre blindado da alma.

Quer respirar. O ar, todavia, parece fugir.

A boca seca agora balbucia algo inaudível aos próprios ouvidos. Sentimentos confusos são vomitados sobre o chão frio da solidão. Vocativos ecoam estridentes. Rapidamente, o silêncio inunda todos os espaços, na esperança de obter uma resposta. Mas o cadenciado tiquetaquear do relógio pendurado na parede denuncia o náufrago emudecer do interlocutor.

O coração bate forte. E a cada batida, o corpo exausto sente o peso do vazio. Nada mais parece haver em seu âmago. Mas há. Tudo está lá dentro, mergulhado em rios de lágrimas que teimosamente deslizam sobre os sinuosos contornos das rugas que o tempo desenhou em seu rosto.

Finalmente um novo suspiro.

Lá fora, apenas o rugido mudo e branco da saudade. Dentro, ouve-se o barulho ensurdecedor das memórias que gritam, enquanto correm de um lado para o outro, buscando transpor o campo invisível que divide o ontem do hoje.

A alma despedaçada já nada mais anseia. A não ser um último e aliviado suspiro.

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Alma dilacerada de Rokatia Kleania é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com.Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogdaprofessorinha.blogspot.com.

5 comentários:

  1. Que a Rokátia escrevia bem, isso eu sempre soube devido ao conteúdo do blog dela. Mas, este texto para mim representa a mais pura literatura. A rapidez das ações e as descrições enriquecem o universo textual e nos joga para uma interpretação pessoal. Suspiro de um velho já contando as últimas horas? Um doente terminal que suspira pq não lhe resta nada além disso? O suspiro da perda de um querido? Como dizem os de fala hispânica: qué sé yo?. O que sei, é esse texto é maravilhoso!
    Abraços querida amiga!
    reina.

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  2. "Professora Rokátia, ou professora Aspirina, para os intimos:

    Estou cercada de três belas professoras, mas por causa de seu blog sempre associo sua função aspirinica ao professorinha...

    Vamos lá:
    O que falar deste texto:
    A mim que não conhecia seus escritos didáticos e sei que desenvolve agora seu lado "cronista" só me resta dizer:
    Um talento inexplorado, que aflora como um diamante já lapidado pelo conhecimento.
    Não há nada de aprendiz. És uma cronista da melhor estirpe!
    Esta dor, este ensaio da ultima dança do ser humano, deslumbrante, envolvente!
    Perfeito.

    Momento que aponta e revela todas as respostas, momento doloroso, momento descrito de maneira catedratica e inspirada!

    De verdade: O Jota é um descobridor de talentos e não se fala mais nisto!

    Beijos aspirinicos."
    Klas.

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  3. Quantas vezes morremos? Não sei, mas já me senti assim de alma dilascerada. Morta. Muitas vezes. Como apontou a Reina, as possibilidades de referente são muitas, daí a beleza do teu texto q foi tecido de forma precisa e impactante, cada palavra carrega o pulsar da vida q teima em guerrilhar contra a morte... As possíveis mortes que podem nos arrebatar... nos libertar...
    Filosófico! Fantastico!
    Prazer imenso em ler teus escritos.

    Abraço
    lete
    Prima ASS

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  4. Uma pura experiência literária é o que a querida Professorinha nos passa aqui. Está no seu sangue, não tem como negar.

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  5. Um recorte interessantíssimo do envelhecimento do corpo do homem. Um retrato triste do que vemos frequentemente, visto que há um sinal de abandono nas entrelhinhas - na palavra muda, nos gestos tolhidos antes do ato. Um conto expressivo.

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