16/05/2011

Brasileiramente indiferente


Cronista

        Se Deus é brasileiro, ele não é mossoroense. Talvez, nem seja nordestino, ou então, onde estaria quando mais de 70 pessoas estavam sendo assassinadas desde o início deste ano? Quem sabe Deus não goste de periferia, nem de classe média, se é que podemos chamar esse povo com salário acima do mínimo e com carro próprio – ainda que financiado – de classe média. Quem sabe, “Deus é uma coisa brasileira, nordestinamente paciente”?
        O nordestino que passou a vida inteira sendo massacrado no sudeste, embora o tenha construído em parte e cultura, agora pode voltar para casa, mas já não sabe se deve. O vilão não é mais a seca, mas o próprio desenvolvimento. Mossoró, este país, é uma realidade criada. É um sonho e uma oportunidade e, ao mesmo tempo, é um teatro. Mossoró é o Nordeste e o “Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!”.
        Aquele jovem que tomou três tiros, não se sabe de quem, nem nunca se saberá, e teve a fotografia, manchada de vermelho, cunhada na história do mundo virtual, aos olhos dos mundos de fora, deixou de ser gente. Aquele jovem não tem mais família, nem amigos e nunca se encontrou no parque com a namorada para comemorar o seu aniversário e ganhou uma camiseta, verde lodo com inscrições em inglês, de presente. Aquele jovem é agora apenas um número e tudo não passa de estatística.
        Se Deus é brasileiro, ele não é mulher. Não só pelo absurdo que é pensar um Deus feminino de batom e esmalte vermelho e que usa aquela blusa com tendências do Dior, mas pelo fato de que ele nunca aparece para dizer à mulher que ela é livre e não pode mais viver pela moral. Que a vida é quem bate à porta e está vestindo verde.
Deus, com certeza, não é feminista e, se o é, é omisso. Deus não apóia as feministas e nem entende as prostitutas, aliás, ninguém entende as prostitutas nem os marginais e, aliás, outra vez, o que se entende por marginal? Há mesmo uma distinção dos que vivem à margem e os que são bandidos? Tudo parece tão uniforme no país das conclusões.
Maria Islaine de Morais não era nordestina, mas poderia ser. Era cabeleireira, mas hoje, estatisticamente, é apenas mais uma das dez que são assassinadas todos os dias no Brasil. Não mais aquela jovem sorridente que se apaixonou por Fábio Willian por achá-lo forte e capaz de protegê-la. Não é mais aquela guerreira que depois decidiu afugentar-se deste amor para não sofrer mais sua opressão e violência. Islaine é, apenas, mais um número dentro de um arquivo morto, onde estão guardados também os oito boletins de ocorrência registrados por ela contra o ex-marido.
Se Deus é brasileiro, ele não mora em Minas, ou na região serrana do Rio, nem na favela do Tranquilim. “É que lá em cima, lá na beira da piscina, olhando os simples mortais...” Deus é Deus.


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Brasileiramente indiferente de José de Paiva Rebouças é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogdojottapaiva.blogspot.com.

6 comentários:

  1. Ontem, do nada, enquanto assistiamos as besteiradas dominicais da TV minha sobrinha virou pra mim e disse: " Quem criou Deus?"...."O universo."..." mas não foi Deus q criou o universo? " Sim. Um criou o outro ao mesmo tempo."...Ela deu uma risadinha, pos a chupetona na boca e voltou a ver TV.
    Deus está no invisível.
    Admiro-te profundamente

    Prima ASS

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  2. Mais uma vez, seu texto revela a força literária com que trata os assuntos sociais. A indignação atrelada a intertextualidade só ressalta a competência que vc carrega no manejo com as palavras... Sempre fabuloso com a mais difícil das tarefas: escrever.
    A forma como remeteu ao ocorrido de Islaine, foi impactante para mim, emocionei-me... além disso, o caso dela só reforça o fracasso da nossa memória e o da justiça nesse país...

    Se Deus é brasileiro, possivelmente estará decepcionado com a sua nacionalidade...

    Cada dia que passa torno-me rendida aos seus escritos. Salve!
    Bj in......
    Reina.

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  3. Sua capacidade de manifestar uma indignação que camuflamos é espetacular.

    Também me pergunto todos os dias qual o fio que separa do julgamento do Estado os que vivem a margem dos que são de fatos bandidos.

    Dia destes escrevi um texto e nele comento que a sociedade não perdoa os excluidos, tua revolta é minha.

    Deus não tem nada a ver com isto meu amigo.
    Ele, que certamente não é brasileiro, nem Afegão, nem Americano,não tem nada a ver com isto.
    Ele é a desculpa que as pessoas usam para não se indignarem, e para que tudo continue como está.
    Deus é outro papo.

    Beijos, e me curvo diante de sua capacidade de usar as palavras de maneira tão cortante!
    Parabéns.

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  4. Concordo com vc Klas, primeiro pq me curvo tb diante dos textos dele; segundo, pq tb acredito que Deus não tem nada a ver com essa sujeira humana...
    reina

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  5. e mais uma vez morre um inocente! a culpar a quem não vemos, não ouvimos, não entendemos é bem mais facil! cada um escolhe o próprio caminho e decidi as veredas que quer passar. aquele menino que matou várias crianças em realengo, ja acharam um culpado: Deus!
    vigiai!
    a culpa esta dentro de cada um de nós, cada um tem sua parcela de culpa, uns que ve outros passando fome e não faz nada, outros que ve seus filhos com a cara colada na tela do pc vendo sei lá o que... (talves com a mente perturbante, perturbada por outros esteja buscando consolo em alguém/algo, ou até mesmo planejando um asassinato em massa), e a maoria deixa de lado suas crianças que hoje não são mais crianças, são pequenos enfeitados de adultos...
    vigiai!
    e a culpa de tudo, principalmente a da seca, da abundancia de uns com tanta miséria de outros é unicamente de deus!
    talves seja por isso que não encontramos as verdadeiras respostas,soluções!
    perdemos nosso precioso tempo em achar os culpados!!!
    cada um tem um pedaço de deus dentro de si, então cada um de nós tem uma parcela de culpa?
    entre as soluções e não os culpados!

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  6. Sua literatura própria para rebelar-se contra os problemas sociais é seu ponto forte, apesar de que, adoro seus textos cômicos. Deus é a palavra mais forte que eu conheço. Nunca me questionei sobre sua existência e sei que ele só dá o peso que cada um consegue carregar. Mas onde esse peso é medido? Quem sabe?

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