13/05/2011

Ela é. Sempre

Eliseu Visconti, moça no trigal.


Ele pensou que naquela manhã quando abrisse os olhos descobriria que não respirava mais... mas assim que os primeiros raios de luz entraram pela janela e o encontrou ainda sentado na poltrona do quarto ele pode perceber que ela estava no ar.

Sim: ele enchia os pulmões para o ar entrar e quem entrava era ela...

Levantou-se surpreso e trôpego foi até a janela.

A luz que pela janela entrava era ela.

Amou-a de novo como a amara sempre.

Os amigos costumavam dizer que ela preenchia todos os espaços, que sua presença era resplandecente.

Naquele momento ele pôde sentir esta imensa presença...

Eles eram daqueles casais que olhando de longe parecem perfeitos. Mas eles vão além disto:quando se aproxima e olha de perto você passa então a ter certeza: nasceram um para o outro.

Juntos professaram sua fé e pela fé mudaram seus nomes, traçaram sua vidas um amarrado no outro...

Mas eram amarrados não com nós e grilhões, suas vidas eram atadas com laços de fita, com laços coloridos, com caules de flores, eles flutuavam juntos em bolinhas de sabão e a música de fundo era uma gargalhada cantante.

Naquela manhã o universo dele desabou e a única palavra que ecoava em seu cérebro era: infarto.

Ela se fora, simplesmente se fora.

Assim como o verão dá lugar ao outono, ela se fora dando lugar a um algo que ele ainda não sabia que nome por.

Não era vazio.

Ela ainda estava ali. Ele podia sentir sua presença perfumada no ar.

Olhar o futuro agora era olhar para ela.

Ele sabia, sabia que ainda eram um só.

Naquela manhã ele respirou um ar que era ela, bebeu uma água que era ela, andou por uma calçada que era dela ...

E sorriu.

Sabia... que era para ela.

(Texto produzido em Julho de 2010 em Memória da eterna Bhumi)

Eliana Klas

Secretária

Licença Creative Commons

5 comentários:

  1. Há uma linha tenue entre a presença e a ausencia, traçadas no texto da Klas, q é fascinante.
    Sinto-me como se estivesse dentro de uma das bolinhas de sabão, tamanha a candura, tamanha a levaza...
    Obrigada, Klas

    Bj grande

    Prima ASS

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  2. Gostei muito deste como de muitos outros que li seus klas.E LEMBRE-SE:"Quem tem o dom deve a arte"

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  3. Eli, ontem comentava com a Rokátia o quanto nos emocionávamos com vc. Diziamos que vc escreve com imensa sensibilidade... Eu completei dizendo que vc nos traz para cada palavra do texto e diz o que não alcançamos... Ela é. Sempre, é mais um recorte da realidade que lhe cerca traduzida em prosa poética... Excelente texto!
    Grande abraço querida!
    Reina.

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  4. Eu havia postado um comentário, q não está aqui...???...Não entendi, mas vamos lá. Sensibilizar-se com a dor alheia e transformar esse sentimento em literatura não é tarefa facil. Eu particularmente sinto mta dificuldade, mas a Klas, nossa, cara, faz isto com os pes nas costas. Magnífico!

    Bj
    Prima ASS

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  5. Você já tem um jeito próprio de ser você. Tem uma diagramação própria e um estilo. Esse texto conta uma história mas seria diferente, talvez menos sublime, se fosse contada por outra pessoa sem sua sensibilidade. Admirável.

    José de Paiva

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