09/05/2011

Ela...

Fragmento da pintura: Três idades de mulher - Gustav Klimt

A Maria das Graças...

Os cuidados que recebi dela foram um tanto excessivos. Para terem uma ideia, só toquei os meus pezinhos no chão com quase um ano de idade. Talvez, seja por isso que eu tenha demorado tanto a andar. Se chorasse, ela me fazia inúmeros afagos para que eu não derramasse uma lágrima sequer. Ela, simplesmente, não me deixava chorar! Possivelmente, essa seria a explicação para que, hoje, eu chore com tanta facilidade... são as muitas lágrimas recolhidas. A respeito disso, também penso que seja por falta de treino de choro, quando bebê, que não aqueci minhas cordas vocais como deveria. Minha avó, quando queria que eu a acompanhasse com as cantigas religiosas, sempre comentava a respeito: ‘Se tivesse deixado a bichinha chorar, ela teria tido mais prumo na voz’. Sem esse treino, não servi para acompanhar nem coral de igreja e ainda me submeti a duas operações nas benditas cordas. É evidente que, se ela soubesse dessas conseqüências, não teria evitado meus berreiros. Em compensação, hoje, se me vê chorando, entra no ritmo do pranto e chora muito mais do que eu.
Nada de gelado, nada de ficar exposta ao sol. Nem pense em tomar banho de chuva, você é alérgica. Lembro-me bem que, por conta disso, roubei-lhe diversas noites de sono. Minhas crises de cansaço constantes sempre nos faziam ir ao hospital infantil, eram terríveis, melhor não lembrar... Sempre me aplicavam berotec na veia para reanimar a minha respiração. Quando eu contava 3 anos, mais ou menos, ela quase perdeu o juízo quando soube que tive início de parada cardíaca. A enfermeira havia exagerado nas gotinhas...
Para ser sincera, nunca conheci outras mãos senão as delas me guiando naquele conhecido caminho à escola. Suas recomendações eram sagradas durante o trajeto. Na lancheira, meu suco de laranja e meu biscoito, Piraquê roladinho goiaba, não poderiam faltar. Quando se aproximava o final da aula e eu ouvia aquele toque estridente da sirene, arrumava mais que depressa meu material na mochila... Era ela que me esperava lá fora. À saída, seu grande sorriso acenava para mim e eu corria, euforicamente, ao encontro dela. Enquanto eu ia acelerada até o portão, gritava baixinho para mim mesma: ela é toda minha, só minha! Nossas mãos se abraçavam e seguíamos de volta para casa. Não havia criança mais feliz no mundo do que eu, nem mais segura.
Quando eu já estava maiorzinha, ela me deixava ir sozinha para a escola com um coleguinha, vizinho meu, que estudava na mesma sala que eu. Na calçada de casa, pedia-lhe a benção e beijava sua mão ainda com gosto de sabão pavão. Seu olhar me acompanhava até eu dobrar a esquina. Mas antes de sumir naquela esquina, eu ainda sacudia minhas mãozinhas várias vezes para ela...
Anos depois, sua voz começou com as primeiras orientações sobre a mocidade... Sobre isso, ela conseguia um feito notável: protegia-me sem impedir que eu caminhasse com minhas próprias pernas. Junto a estas instruções indiscutíveis, ela me encaminhava para a vida com seus princípios e seus conselhos cristãos. Outro fato essencial que me recordo, é que ela nunca me impediu de sonhar, muito embora, sempre me sugerisse manter os pés no chão...
Depois da ausência do meu pai, o laço que mantínhamos foi se fortalecendo. A partir de então, os papéis foram se invertendo... tornei-me, precocemente, mãe dela. Naquele período, a sua fragilidade se acentuava, à medida que eu arrancava forças da alma para soerguê-la e animá-la. Naquele momento, a minha mão se tornava maior que a dela... Era eu quem a buscava e a trazia para a dura realidade.
Essa figura extraordinária, que carrega ares de mulher e de menina, ainda hoje se alimenta de lembranças e sofre por ter desperdiçado seu poder de ação diante de determinados fatos conjugais. Mas ainda assim, busca na fé o mapa que lhe ajuda a encontrar outros rumos onde lançar suas esperanças.
Para ser franca, acredito que o cordão umbilical nunca foi cortado entre nós. Nossa sintonia é sólida e permanente, a ponto de eu não ousar imaginar como seria ter que olhar para vida sem seus discursos minuciosos sobre as miudezas da vida que nos cerca... As meninices dela, seu jeito meio abobado e divertido de ser misturam-se a sua sensibilidade e a sua formidável atitude de amar, incondicionalmente, as suas três crias...


Professora


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9 comentários:

  1. Tia Dadaça está aqui bem ao meu lado. Seu texto a presentificou, Re.
    Eu mesma, chorona q tb sou, lembro-me de ter chorado junto a tia por diversos motivos. Lembro-me q da ultima vez q estive ai, mais exatamente no dia de minha partida, adoeci, tia Dadaça veio para orar por mim. E, claro, orava e chorava. Choramos. Somos choronas. É algum traço familiar ou genético. A Tia dá pano pra manga p qualquer escritor, tamanha a grandeza de sua alma e de sua sensibilidade.
    Outra imagem q guardo como um presente é ela entoando os hinos da igreja enquanto fazia algo na cozinha. Pedia q nós
    cantassemos juntos, lembra Rê? "Senhor, põe teu anjos aqui"...."Espírito, espírito..." Pessoa única, q amo por demais.
    Texto maravilhoso, to chorando.

    Amo-te
    Prima ASS

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  2. Amiga as lágrimas se fazem dentro de mim... Lindo, parabéns mais uma vez!!

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  3. Acho que nossas mães
    foram clonadas!!!
    Beijos

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  4. Toda emoção, Regiane não poupa palavras para derramar-se sobre suas lembranças de infância. É um grande desafio, uma vez que falar do mundo particular e, principalmente, daqueles que mais amamos, nos leva a caminhar sobre uma linha transversal, entre o medo, a ilusão e a lágrima.

    Beijos. José de Paiva.

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  5. Confesso: a lágrima veio aqui no canto do olho. Mas eu consegui. Segurei firme. Rss...
    Pura emoção. Texto magnifíco, daqueles de tocar o coração de qualquer um. Lindo. Parabéns, Rê!

    Bjoks.

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  6. Como os demais também não consegui conter as lágrimas... belo texto

    Josirranny Silva

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  7. Amiga lindooooooooo
    Você conseguiu mais uma vez tocar nossa alma e espírito com suas LETRAS maravilhosas.

    Beijos;

    Sheila

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  8. Que lindo texto! Voçe soube usar maravilhosamente as palavras para emocionar não só, em especial, a sua matriarca, mas a todos que leram o texto. Parabéns!

    Kelvilane Queiroz
    beijos!

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