31/05/2011

A ida de Antônio e a espera de Karina


Regiane S. Cabral de Paiva

Professora

A José,

“Se avexe não, amanhã pode acontecer tudo inclusive nada...”


Se Antônio não tivesse ido e se Karina não tivesse esperado, certamente, ainda não teriam nascido.

Antônio seguiria perdido no seu fatigado cotidiano povoado de perturbações. Estaria ainda sonhando com infinitas possibilidades e ainda estaria bebendo das camas sombrias juntando os retalhos de si. Andaria pelas mesmas vielas e teria os mesmos passos inoperantes de sempre. Comeria a mesma comida insossa e desenovelaria, todas as noites, as utopias que havia entrelaçado ao longo do dia. Estaria vivendo na mesma cidadezinha sem teto nem janela e alimentaria a dor de não saber da sua parte no mundo. Possivelmente, se condenaria pelo fracasso das escolhas e se submeteria a qualquer indício de capricho insano. Experimentaria o fel da desdita e se renderia ao primeiro vento forte vindo do oeste. Entregaria as suas páginas à prisão que se permitira e seria engolido pelo destino que os outros lhe haviam traçado. Seria apenas mais um naquele finzinho de mundo perdido num tempo estático onde o nada representava o tudo.

Karina se tivesse sido medonha, teria se submetido aos sobejos que lhe ofereciam. Teria se rendido às mais falsas promessas e estaria mastigando o desenxabido arrependimento. Ou se não, teria sido sufocada pela poeira que se acumulara no cômodo da solidão de si. Teria seguido com sua rotinha friamente calculada e nunca saberia o significado da palavra emoção. Certamente, continuaria com suas ações previsíveis e não ousaria mudar o quarteirão por medo de caminhar pela nova via. Estaria, ainda, sob o jugo de um conceito quadrado e limitado de ser gente. Render-se-ia à tradição hipócrita e seria mais uma dissimulada no mundo. Se não fosse paciente, nunca teria sabido o que havia dentro de si. Até aquele momento, vivia sem saber da vida.

Mas Antônio e Karina cansaram. Largaram os preceitos, conceitos, medos. Antônio fez poeira. Karina à janela. Desde então, nasceram e conheceram o mundo.


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A ida de Antônio e a espera de Karina de Regiane S. Cabral de Paiva é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com.br.

4 comentários:

  1. Nossa, to louca para assitir a esse filme só ver se eu conseguirira escrever alguma coisa a partir dele. Claro q não chegaria nem um um milímetro da intensidade e da propriedade com q vc escreve, mas, juro, me deixaste tentada.
    Surpreendida com a capacidade de diálogo literário entre esses dois fabulosos escritores!
    Amo-vos!


    Um bj enorme
    Prima ASS

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  2. Reina amada,

    Estou em estado de choque.
    Paralisada.
    Querendo imprimir o texto de ontem e o de hoje e levar ao mundo com se fossem bandeiras da velha lenda da “busca pela metade da laranja”.
    Permitam-me mas farei do texto de vocês exemplo para um texto que estou escrevendo.
    A Busca de vocês é a mesma busca minha e do Tarcis.
    E é a busca de milhares de pessoas todos os dias em todos os cantos da Terra.
    E é também o mesmo encontro meu e do Tarcis.

    Encontro de gente ousada, que não tem medo de quebrar conceitos e pré-conceitos, que não tem medo de cair, pois sabe que se cair sete vezes, “sete vezes se levantará’.

    Mas o que me deixou em estado de sublime contemplação é capacidade literária de cada um de vocês como individuo e que juntos se tornaram completos.

    Bebi do seu texto Reina como quem bebe algo santo.
    Bebi do seu texto como quem lê Cantares de Salomão.
    Bebi de ambos os textos, do Jotta e da Regiane como quem lia a bíblia.

    Os fies me perdoem a comparação e não a tomem como blasfêmia.
    Mas estes dois textos, juntos, tem o peso de amor, sabedoria e ensinamento que só quem busca é capaz de enxergar.
    É portanto um texto digno do chamado ‘livro dos livros’”
    Eliana Klas.

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  3. Amiga,

    Lágramas aos olhos não permitem que eu pense num comentario...Parabéns!!!! mais uma vez

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  4. A resposta merece ficar emoldurada em um quadro junto ao querido Romero na sala. É amor demais entre duas criaturas!

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