07/05/2011

Ingrato(s)


[raiva on]

Eu que tenho que me esforçar, fazer com que sempre esteja tudo bem. Onde estão os votos eternos uma vez prometidos? Eu é que preciso aprender a não confiar em qualquer juramento.

Um telefonema não atendido ou um recado não retornado não são suficientes? Já passou pela sua cabeça que eu NÃO quero mais contato com você? Agora você começa a lista de tudo que já fez por mim. Se eu soubesse que era retroativo, não precisava ter feito. O problema (seu, não meu) é que agora estou imune.

Outro dia vi a outra. Com certeza ela me viu também. Mas eu fui superior o suficiente pra nem tocar no assunto. Ou melhor, pra não tocar em assunto algum. Estou cansado. De todos vocês.

Sexo, drogas e rock ‘n’ roll. Foi lindo durante um tempo. Na verdade, foi MUITO BOM. Descobri que quando se fuma maconha sem comer nada, o efeito slowmotion é instantâneo. O ecstasy funciona melhor com vodka. E um pouco de remédio pra cavalos. Até aprendi a falar bonito - “Dietilamida do ácido lisérgico” - só pra ver o elefante rosa durante minhas 9 horas de felicidade.

[raiva off]

Sou uma pessoa melhor. Consigo respirar aliviado e não pensar o dia todo em você e em dez maneiras diferentes de ver estrelinhas. Uma hora eu tinha que parar.

Consegui. Custou minha mãe, um carro virado e minha liberdade.

E agora estou aqui. Vendo o sol nascer quadrado. Meio cor de rosa. Turvo. Mas com a certeza de que isso não me atinge mais.

Fiz amigos. Ana vem aplicar as injeções todos os dias. Tem 3 filhos. Um deles é gerente de uma loja. É o orgulho da vida dela.

Roberto é o mulato que me ajuda a usar o banheiro. Fortão, mas incapaz de olhar torto pra quem quer que seja. Perdeu a visão do olho esquerdo quando era criança. Nunca conheceu o pai. Mas é tão feliz. Anda com uma foto da mãe na carteira. Diz que quer juntar dinheiro pra voltar pra sua terra.

Jordana é estranha. Parece que não nasceu aqui. Não fala muito. E quando abre a boca é pra reclamar que a sopa está fria demais. Nem tem sopa aqui. Pelo menos não pra mim.

[...]

Hoje é sexta. Dia de conversar com o senhor de óculos estranhos e deitar na cama. É fofinha, confortável. Jordana que sempre diz que a sopa está fria. Pra mim já está bom. Ana foi demitida. E Roberto me disse que teria que ir embora. Não sei por qual razão. Acho que eles têm medo do homem de óculos estranhos.

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Ingrato(s) de Davi Moura é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.comPermissions beyond the scope of this license may be available at www.blogadorocomer.blogspot.com.

4 comentários:

  1. O nosso escritor pop nos brinda com o seu melhor texto. Tão contemporâneo e tão clássico traz uma construção simbólica catastrófica e pungente. Sou seu fã também menino prodígio.

    José de Paiva

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  2. Texto rápido, moderno cuja narrativa foge ao tradicional. Não é óbvio, mas instigante. Tudo isso só comprova seu estilo inovador e intenso de escrever.
    Abraços amigo!
    Reina.

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  3. Caraca, Davi, caraca! me ensina a escrever assim? Sou tão presa aos meus referentes. As formas, a tradição...ai, como to veia. Puxa, mas senti nesse texto uma excelente trilha p um romance. Ja pensou nisto?

    Grande bj, meu anjo

    Prima Ass

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  4. Admiro a facilidade como vc inova na sua forma de escrever. Incrível! Acho o máximo. Parabéns, Urubuzinho!

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