01/05/2011

Lêndeas e cafunés

Cafuné e colinho - Jandi

Uma das boas lembranças que tenho de minha infância tem a ver com a hora que chegava da escola e minha mãe, com suas unhas grandes e, quase sempre vermelhas, me fazia deitar a cabeça em seu colo e, com um pano branco, catava meus piolhos.
Seu sangue é doce, menina. Nunca vi igual! Por mais que eu cuide, por mais que vá com os cabelos presos e limpos, você sempre chega em casa infestada deles. Uma praga!
Inclino a cabeça só de me lembrar.
Mas ela gostava que eu os pegasse e, dizendo honestamente, eu também. Revendo a cena do filme O Fabuloso destino de Amélie Poullain, de Jean Pierre-Jeunet, na qual o coração da protagonista, quando criança, sempre se acelerava de emoção quando seu pai, que era médico e com quem quase nunca tinha contatos físicos, checava seus batimentos cardíacos. A personagem, ávida por um lance, ainda que estetoscópico, de contato paterno, não podia se conter. Seu corpo se alterava.
Minha mãe, nessa mesma época, nos pagava dez centavos por cada fio de cabelo branco seu que arrancávamos. Minha irmã e eu, obviamente, só pensávamos no dinheiro e o que podíamos fazer com ele. Ela, nas delícias do cafuné comprado.
No filme de Nelson Pereira, Vidas Secas, em meio a tanta miséria, pobreza e fome, não pude deixar de relembrar a sensação das mãos de minha mãe tateando minha cabeça em busca de lêndeas. A cena da esposa de Fabiano catando piolhos em um de seus filhos, para além do asco que essa ação poderia pressupor no espectador, transmite uma dimensão absurdamente poética do encontro. Do toque. Do carinho que preenche tudo, que acalma e suspende a dor.
Solto meus cabelos ao recordar.
Hoje, aos 68 anos, seu pretexto mudou: cravinhos no rosto. Eu, aos 34, vou variando entre pedir que ela arranque os fios brancos que começam a aparecer nos meus cabelos, que faça banho de creme pra hidratar os fios ou, ainda, sendo mais direta, lhe pedindo:
_ Mãe, faz cafuné?
Mas o que eu queria mesmo, pra ser sincera, era a voltar à época das lêndeas! Carinho diário, sem direito à reclamação.
Tempos bons!

[ASPIRINA CONVIDADA] Juliana Leal é Professora de Língua Espanhola e Literatura Hispânica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) Campus de Diamantina/MG. Doutoranda em Literatura Comparada pela Faculdade de Letras da UFMG, Mestre em Estudos Literários (2007), Licenciada em Língua Espanhola (2004) e em Língua Portuguesa (2001) pela mesma instituição.

7 comentários:

  1. todo dia... todo dia rola uma cafuné, mesmo que nanico... e nem uma menção nessa crônica! injustiça! rsrsr

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  2. Juliana,

    você não imagina o suspense que meu esposo (Paiva) fez para falar da convidada que teríamos no nosso blog hoje. Agora já entendi tudo... temos algo em comum: somos professores de língua espanhola e amigas da querida Rokátia.

    Sabe, seu texto condensou em mim um estado de sinestesia e, confesso que o olfato foi o mais aguçado. Pois é, sua literatura me fez sentir o cheirinho da minha infância, da toalha branca que minha mãe estendia nas pernas quando passava o pente fino no cabelo da gente... senti saudade do cheiro gostoso que vinha do corpo dela cada vez que nos colocava entre suas pernas para fazer aquele velho processo de catar os intrusos.

    Obrigada, por ter despertado em mim hoje esse cheiro que a tanto tempo estava adormecido em mim...

    Gran abrazo!
    Regiane de Paiva

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  3. Muito bom o seu diálogo com o cinema. Sem dúvida, essas cenas são marcantes e revelam o q nos realemente importa: a presença, o toque, o amor manifestado em suas infinitas formas...
    Parabéns...Comovente!

    Abraço
    Prima ASS

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  4. Muito sutil o texto, remete a infância comum a todos. Lembrar Amelie Poulain também ajuda na compreensão dos sentidos. O filme é muito bom, bucólico e romântico, como toda infância. Juliana é testemunha de mais um dos Estranhos Prazes que nos cercam.

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  5. Texto lindissimo, emocionante.
    Nâo fui criada por minha mãe.
    Fui criada aquí e ali, por todos e por ninguém.
    Piolhos? Uma peste mesmo.
    E era só.

    Mas lendo seu texto sentí uma forte emoção e percebí a grande diferença que fará para minha filha todos os piolhos que procurei em sua cabecinha durante toda sua infãncia.

    Escrever é uma arte. Um don.
    Quando um texto, como o seu, tranforma uma percepção que tenho, só me resta a emoção e agradecer aos "Deuses da Literatura" que nos concederam este don.

    Um beijo.
    Saudações Aspirínicas.

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  6. Agradecida pelos comentários. Bora ver se me encontro inspiração pra outro texto. Abraço! Juliana Leal

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  7. Ju,
    Que belo seu texto! Suave, nostálgico e romântico, nos faz sentir de novo todas as sensações adormecidas pelo tempo...

    Quanto à literalidade de seu texto, novidade nenhuma pra mim que há anos experimento a poesia em suas palavras, até mesmo em nossas longas conversas madrugada a dentro. Parabéns, querida!
    Seja bem vinda ao A&U.

    Beijo Aspirínico.

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