01/05/2011

ME TIRA(M) DO SÉRIO


Em casa: ser acordada. Cama desarrumada. Ir ao banheiro e não ter papel higiênico ou ter creme dental/vaso sanitário deixado aberto. Me tira do sério, toalha molhada esquecida em cima da cama. Rede armada no meio da casa. Papel atirado ao solo. Fósforo jogado no chão. Me tira do sério, garrafa seca na geladeira. Prato sujo deixado na mesa. Louça ainda com vestígios de comida colocada na pia. Me tira do sério, embalagem de produtos alimentícios vazia deixada no armário. Vasilha destampada. Pano de prato sujo de graxa. TV com volume alto. Roupa suja espalhada pelo meio da casa, gaveta com vestuário bagunçado. Quando o varal se rompe após demorada lavagem de roupa. Me tiram do sério, quando entram com o calçado cheio de areia no momento da arrumação da casa. Quando batem na porta insistentemente sem se identificar.
Também me tira(m) do sério, quando mexem nos meus pertences sem permissão e ainda mais, quando os colocam em outros lugares. Ligação errada justo quando estou mais ocupada é outra coisa que me tira do sério. Lixo da vizinhança deixado na entrada da minha casa. Correspondência pessoal aberta por terceiros. Quando me pedem emprestado algo e não me devolvem. Mensagem do aparelho telefônico programada para a caixa-postal quando se precisa falar, urgentemente, com alguém também tira qualquer um do sério. O mesmo acontece quando a pessoa com quem precisamos falar aparece off-line na rede virtual. Ser acusada de algo que não cometi. O desperdício de comida... tudo isso me tira do sério.
Se é na escola... me tira do sério o esquecimento do uso das boas-maneiras. Em dia de prova: “Ah, professora! Não trouxe lápis hoje não!” ou ainda: “É em grupo?” Isso também me tira do sério. E quando se aplica um teste valendo 2,0 pontos, o aluno tira 1,0 e diz: ”Tudo isso! Ainda tirei muito!” Tem quem não saia do sério, pelo amor de Deus?! E o pior é a falta de respeito para com o outro, isso sim deixa até o mais passivo dos educadores (como eu) tiririca da vida.
Certo dia, estava eu a explicar um assunto na sala de aula, quando um aluno conversava incessantemente com o colega bem na minha frente, foi então que resolvi chama-lo a atenção dando um leve toque em seu braço; e ele (em um tom de voz que levarei para o túmulo) olhou na minha cara e simplesmente proclamou: “NÃO TOQUE EM MIM NÃO, SE NÃO VOU PEGAR MICRÓBIOS”. Ah! Essa era uma situação de fato sim para me tirar do sério. Pasmei! Fiquei desconcertada! Quase desci do salto. Tive vontade de rebater apelando para o preconceito racial. Mas respirei fundo e em fração de segundos, pensei rápido e optei, sabiamente por deixar prevalecer a ética e o bom-senso; então lhe disse: “Você não é e nem nunca vai ser melhor do que eu. No final das contas, você irá pra onde eu vou: debaixo da terra; e da mesma maneira que eu, virará pó”. É... Tem momentos na vida que é melhor “não sair do sério”, mas entrar no “jogo do sério” onde não cabem meias verdades, e sim a realidade, nua e crua.
E nessa dinâmica da vida, muitas outras coisas também me tiram do sério: a inveja, a injustiça, a desigualdade social, o pessimismo, a falsidade, a arrogância, a ignorância, as atitudes desumanas e, sobretudo à zombaria perante a Sagrada Escritura. Peraí! Tenha dó! Com Deus não se brinca!
 Tudo isso são coisas que, em menor ou maior grau, me tiram do sério (talvez você até tenha se identificado com algumas). O fato é que, quando me tiram do sério... aí sai de baixo, não respondo por mim, é o mesmo que cutucar a onça com vara curta. E para retrucar, nenhuma arma é tão poderosa e afiada quanto à palavra; por isso estou me especializando nessa área. Prefiro lutar contra o inimigo com argumentos bem arquitetados. Que tal você fazer o mesmo quando lhe tirarem do sério (ainda que seja nas circunstancias mais banais do dia a dia)? Tenho certeza que, ao final, o crescimento virá... muitas vezes acompanhado pelo riso!

[AUTOR CONVIDADO] Francisca Francione Vieira de Brito (Vulgo Francione Brito) é Professora-Educadora no Ensino Fundamental II da rede municipal de Apodi-RN. Graduada em Letras com habilitação em Língua Espanhola e respectivas Literaturas pela UERN. Especialista em Leitura e Produção Textual também pela mesma instituição de ensino e em breve, especialista ainda em Docência da Língua Espanhola pela FVJ.

3 comentários:

  1. Francione,

    eu não sabia se ria ou se chorava com os motivos que nos tiram do sério.Gostei muito desse humor trágico que vc deu ao seu texto. Parabéns!
    Regiane.

    ResponderExcluir
  2. Sempre me sinto ridícula qdo me pego com raiva...Ri bastante ao ler seu texto, pois é assim q a raiva nos torna:ridículos...rs
    Mto atento seu olhar, parabéns!!!!

    Abraço

    Prima ASS

    ResponderExcluir
  3. Me identifiquei em inúmeras situações que me tiram do sério!
    Vixi, lixo de vizinho na minha porta já me levou as vias de fato, risos.(Por sorte os vizinhos são amados e nos entendemos no fim da história). Mas este acúmulo de situações limite deixam qualquer criatura que tenha sangue nas veias alterado.
    Quanto ao aluno e sua resposta, eu acho que ficaria em estado de choque.

    A palavra é a mais eficiente das armas. Sem tirar a vida é poderosa para transformar existencias. Eu creio nisto. Busco isto.

    Obrigada por sua participação e pena que só hoje pude ler.

    Beijos.

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...