13/05/2011

Não é inveja


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Não é inveja.

É sim. Eu tenho muita inveja de você. Pronto, falei.

Ah, vai te lascar. Você e seu carrinho sempre cheiroso e limpinho. Sua casinha toda bem arrumada. Você e seu maridinho felizes e bem sucedidos. Filhos, pra quê, né? 5 anos de casados, Canadá, Cuba, Inglaterra, Alemanha e outros países que eu nem sei o nome. Você tem razão. Pra que filhos?

Caramba, você nem estudou que preste. Eu estudei. Tenho meu diploma. Deve estar em alguma gaveta antiga, provavelmente junto com meus recortes e fotos dos meus tempos dourados.

Ah! Que época maravilhosa. Morava só, longe de tudo e de todos. Tinha vontade de dançar?

Saia e pronto. Estava carente? Meu celular era cheio de números de transas casuais. Fome? Também me virava na cozinha. A faculdade era só uma distração. Era paga, ok. Mas não precisava me preocupar com isso. Papai sempre me apoiou.

E cadê papai quando se precisa dele? Velho gagá imprestável. Ainda bem que guardou bastante dinheiro pra aposentadoria. Assim pode continuar se banhando em sol em um resort bem longe daqui com uma namorada da minha idade.

Minha idade. 40 anos. E o que fiz da minha vida? Culpo você, mas sei que a culpa é minha.

Não é não! Eu era a bonita, eu era a que todos olhavam. E agora... meu Deus... olho o espelho e só vejo destroços. Exagero, ok. Ainda sou bonita. Mas você? Baixinha, cabelinho de menino, fazia a feira e arrumava a casa. Borralheira. E hoje é rainha. Inveja.

Lembro de um dia que cheguei do colégio suja e com um lacinho a menos na cabeça. Mamãe: “Se você voltar assim mais uma vez, a surra vai ser em você”. Porque você tinha que me ajudar? O menino até hoje manca de uma perna. E ninguém nunca soube de nada.

Hoje estou aqui. Preferia não estar. Sem carro, sem marido, sem dignidade. 3 filhos, saudáveis, lindos, graças a Deus. Tenho certeza que o mais velho está com uma namorada. Nem quer me dizer, mas eu sei que está. O mais novo deve ser autista. Sei lá. Calado, distante. O do meio eu nem sei.

Não sei se quero me conformar com minha realidade. Vivo dizendo que vou mudar, mas é difícil. Eu tinha tudo. Hoje eu tenho rugas, olheiras, varizes e um diploma que nem sei onde está.



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Não é inveja de Davi Moura é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogadorocomer.blogspot.com.

5 comentários:

  1. Sempre achei q a inveja é um problema de visão a ser resolvido pelo treino do olhar...Magnifico, meu anjo! Parabéns, sou sua fã...

    Bj enorme
    Prima ASS

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  2. Davi, meu urubuzinho querido, até falando de algo tão comum como a inveja você consegue ser único. Parabéns por esse jeito singular de escrever. Admiro vc demais, cara!

    Bjo aspirínico.

    Pequena Aspirina

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  3. Sua dinâmica é própria, sua, toda sua. Até pra falar da maldita da inveja, vc foge dos padrões tradicionais das narrativas. Oh, menino estiloso! Parabéns por mais um texto.
    Cheiro!
    Reina.

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  4. Você "manda bem" como diria minha filha.
    Alias, você "manda bem demais da conta".

    Contigo eu aprendo novo jeito de escrever, que me instiga a escrever também.

    Davi, você é ótimo.
    Alias, este grupo é ótimo!

    Beijos.

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  5. "Ah, vai te lascar" ... quero que a nossa (digo a brasileira) literatura seja sempre assim, ousada, despudorada. A literatura é a reinvenção da língua, dos costumes e quebra de paradigmas. Gosto dessa sua coragem menino. Parabéns.

    José de Paiva

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