30/05/2011

O tempo e as horas


Cena do filme A máquina o amor é o combustível


Cronista

Para Regiane

Onde estariam agora se ele não tivesse saído e ela não tivesse esperado pacientemente?

Antônio
O que Antônio era antes de tudo não representava a pequena parte da sensação da espera. Ânsia e fome de vida. Desespero pelo desapego fatídico. As mãos pequenas e brancas são a primeira lembrança. Uma seqüência musical e uma estrada – longa e indivisível. Mas ele já havia saído e só depois pensaria na consequência ou, talvez, a construísse como nunca tinha feito antes. Deveria seguir no rumo contrário de sua vida porque era o rumo que abandonou antes de tudo começar. Uma longa viagem feita de uma só vez, como quem vai para a morte, porque é a morte quem determina o fim e o recomeço. E o tempo se fez tempo porque as mãos passeavam sobre a mesa sem entendimento, embora no peito uma explosão denunciasse os subentendidos. Havia-se marcado naquele exato momento o começo concreto de uma solução, mas ambos sabiam que de nada adiantaria a pressa do toque ou a amalgama das palavras. Era tempo de prudência para Antônio e ele compreendeu mesmo sem que nada fosse dito. Não adiantava mais apenas aceitar a vida, era hora de sê-la, intervindo e fazendo-se aceitar os rumos. A vida era apenas uma parte do tudo, porque a vida não era Antônio, Antônio a possuía e agora se possuía também. E Antônio seguiu sem ouvir os gritos nem olhar para trás.

Karina
Esperou como nunca se espera. Karina não sabia de nada. Não determinava o que iria acontecer, mas ela também sabia. Esquivou-se do medo e deitou-se branca sobre a possibilidade de ser também controvérsia da palavra, porque Karina passou a ser tão palavra quanto. Do que adianta vislumbrar uma luz que não lhe pertence? Melhor usar a sua própria e incendiar a escuridão que lhe compõe para descobrir quem a fabrica. Fazer a luz é o primeiro ato, porque sem a luz só o escuro importa. Esperar é o maior sacrifício e não é uma ação estática. Esperar é também ir na hora certa de colher o centeio e colher os melhores grãos na quantidade certa. Do centeio obtêm-se o pão e a cerveja que alimenta e mata a sede, sua e do outro. Mas para resistir aos invernos, quando não se planta, é preciso limpar o celeiro para que o centeio seja melhor abrigado e resista até o próximo verão, quando os campos voltam a ser semeados. E Karina aprendeu a semear os campos e a manter o ouro de seu centeio.

Karina e Antônio
Onde estariam Antônio e Karina se não tivessem saído e esperado? Como haveria hoje apenas um tempo para ambos, sem a prudência da hora e sem o primeiro passo? Onde estariam Antônio e Karina se não estivessem aqui hoje?

Licença Creative Commons
O tempo e as horas de José de Paiva Rebouças é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogdojottapaiva.blogspot.com.

5 comentários:

  1. De todas, essa foi a mais perfeita. Tudo isso pq foi inserida dentro de um contexto maravilhoso no qual eu estava presente. Parabéns Antônio e Karina. Que dure e seja sempre abençoado este amor tão bonito!

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  2. Tive quer ler atentamente seu texto, mas acho q ainda me escapa mta coisa. Estou em catarse. Mto belo. Mto rico tanto no plano da expressão qto no do conteúdo. Não sei se fui influenciada pela ilustração. Mas me senti assitindo a cena de um bom filme. Os cortes de cena, de plano, os enfoques...Parabéns Diretor!

    Um grande abraço

    lete
    Prima ASS

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  3. (lágrimas....................)
    Antônio e Karina foram a nossa sorte! Estes dois personagens nos deram vida e coragem. Deles tomamos fôlego e tivemos a ousadia de ser o que sempre havíamos sonhado. Antônio mostrou o mundo a Karina, a fez sair de Nordestina e lhe deu a conhecer o que era viver de verdade. Ambos tinham: "Ânsia e fome de vida", mas a divergência foi essencial: um: o passo. O outro: a prudência.

    Sinto-me agraciada pela beleza do seu texto... delicadeza, sutileza, verdade, metáforas precisas... desde sempre palavras certas e firmes. Atitude!

    ... Ao ler Antônio novamente, saber dele e de tudo o que lhe sucedeu, "Uma longa viagem feita de uma só vez, como quem vai para a morte, porque é a morte quem determina o fim e o recomeço", passei a amá-lo ainda mais. É o cabra certo! Também pudera: "Antônio seguiu sem ouvir os gritos nem olhar para trás".

    Não me estenderei para não revelar muito os nossos segredos, mas é como sua belíssima metáfora diz: "Esperar é também ir na hora certa de colher o centeio e colher os melhores grãos na quantidade certa.".

    Gracias pelas rosas expressas em cada palavra...
    Amo-te, o sabes bem!
    Bjs in....

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  4. “Estou chorando compulsivamente.
    Também sinto, como a prima, que deverei ler este texto dezenas de centenas de vezes pelo tanto de rico que ele é em profundidade, beleza e ensinamento.
    Mas meu choro, Antonio e Karina, é por enxergá-los assim antes mesmo deste texto.
    Talvez por conhecer o "Antonio que seguiu em frente sem ouvir os gritos nem olhar para trás" e por saber que ele conhece uma Klas que fez o mesmo. Talvez por descobrir todos os dias na reina uma crença que é muito minha: "Mas para resistir aos invernos, quando não se planta, é preciso limpar o celeiro para que o centeio seja melhor abrigado e resista até o próximo verão, quando os campos voltam a ser semeados. E Karina aprendeu a semear os campos e a manter o ouro de seu centeio", por tudo isto choro copiosamente e agradeço a Deus por saber que as lutas que travo em meu interior não são só minhas.
    O “Aspirinas & Urubus” não é "mais um" blog.
    Vocês podem apostar nisto.

    Misto de Fé e Loucura, eu que também já fui feiticeira (risos, vou postar este texto aqui)asseguro:
    "Todos os meus caminhos me traziam vocÊS"(caminhos cavados a unha)
    e assim como todos os caminhos meus e do Tarcis (também cavados a unha) nos levavam um para os braços do outro, tenho certeza que "Todos os caminhos levavam Antonio e Karina, um para o braço do outro".
    Salve a Literatura, salve a metáfora, salve a coragem de "construir a sua história com as próprias mãos"
    Eliana Klas.

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  5. À Antonio e Karina,

    Enaltecida pelas palavras que acabo de ler e certa que a prudência de um e o primeiro passo do outro encontraram-se em caminhos que os levam juntos a grande verdade que é a vida

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