16/05/2011

Quando amanhece


Morning Sun - Edward Hopper


Professora

Há poucos dias, depois de ler um email de uma amiga, experimentei uma dor que não era minha. Contava-me da morte do esposo da sua tia. Juntos haviam somado 50 anos de matrimônio. Meio século compartilhado em vida... Não tiveram filhos, por opção. Parece triste ver-se sem prole, mas quem disse que para ser família a procriação é uma determinante? O fato é que tive o peito comprimido ao saber da separação indesejada e inesperada.
A sensação que me vem à tona é a do corpo dela se desprendendo da alma dele... Ela se metamorfesando em incompletude, apenas uma metade solta no vento. Agora, faltava-lhe a bússola e a balança. Um, pela sua peculiaridade, orientava da melhor maneira o outro e, ao mesmo tempo, ajudavam-se a equilibrar-se nos goles oscilantes do cotidiano. Mas, como diz Schopenhauer, “Este é o reino da existência finita”... Tal assertiva soa como uma lança para quem teve seu laço rompido pela certeza mais certa que o ser vivente pode ter...
Acredito que, naquela manhã, a palavra ‘finito’ ganhara uma força nunca antes sentida. Certamente, o significado dela lhe tenha feito experimentar a sua completa impotência. Fiquei imaginando-a em diversas situações: percorrendo os cantos da casa buscando o cheiro dele; bebendo todos os álbuns de fotografias que tinham; à mesa, inventado ânimo para levar a colher à boca; sentada no sofá, sozinha e submersa em si, rememorando as melhores cenas que desenharam; ou contemplando o quarto e cama que foi se ajustando aos corpos modificados pelo tempo...
Abusando do pensar, ousei também vasculhar as lembranças dela que, possivelmente, não serão poucas. Cogitei os nomes delicados que teriam escolhido para um nomear o outro; as manias que tinham em comum; o subconjunto das suas personalidades; os sonhos que alinharam ao longo da trajetória. Pior, tentei medir o peso da agonia dela... quilo, gramas, toneladas... Na verdade, acho que não existe uma medida exata capaz de precisar a dor que se sente quando se perde parte daquilo que se construiu com o outro e no outro. Quis até comparar essa aflição à dimensão do buraco negro, região da qual nada sai, nem a luz. Talvez seja isso mesmo. Nada, possivelmente, sairá mais dela. Perdoem-me o julgamento, mas acredito que seja assim. Sorte mesmo teve o casal, Donald e Rosemary Dix, que, depois de 55 anos de convivência, voltaram ao pó quase no mesmo momento. É exatamente deste modo que eu acho que deveria ser; afinal, são anos dividindo, aprendendo, aceitando, renunciando e convivendo, não me parece justo somente um ter que amanhecer sozinho. Se é que se amanhece depois do vazio que se incrusta nos olhos de quem fica... Onde estarão os olhos dela agora? Talvez perdido na incógnita do ‘o que será?’. Os meus se,(Deus me livre!), nesta situação, estariam enterrados e desejosos de cair na cova funda ou virar cinzas perdidas ao relento da noite.


12 comentários:

  1. O que nós, mortais, podemos fazer é rezar para ter a sorte de um amor assim. Sem amor, sem troca, a vida não é nada. Invejo quem consegue manter algo tão bonito durante tanto tempo, ainda mais nessas épocas de "mulher-fruta" onde TODAS e TUDO se tornam comestíveis. Aspirina Reina, parabéns. Quase consigo ouvir você lendo este texto. Essa é a melhor parte: sua sonoridade literária, se é que isso existe. Mil beijos.

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  2. A perda de alguém que estava como companheiro(a) é como uma semente de uma fruta,fica-se o sabor, no entanto, a continuidade do néctar deixa de existir.

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  3. Reina, que texto sublime! Coincidência (ou não) tive a mesma sensação que o Davi. Acho q ouvi a sua voz enquanto fazia a leitura. E como vc (APOSTO), chorei. Seu romantismo sempre latente gritou em meus ouvidos e aí, não teve jeito, as lágrimas rolaram compulsivamente. Bela história de amor. Quem dera um dia viver um amor assim!

    Bjos aspirínicos...

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  4. Belíssimo texto!!! Emocionei-me!!! Sem sombra de dúvida, todos nós queremos viver um amor assim: pleno, sólido, forte, recíproco, verdadeiro e, que nos dê a segurança do aconchego, da paz e proteção! Um amor que só a sentença da morte possa causar a separação, obviamente um amor assim (como citado no texto da professora) está em déficit, as pessoas vivem uma busca incessante e isso cada vez mais as tornam infelizes, porque indubitavelmente, não adiantará a realização profissional, se não tivermos com quem compartilhar e/ou dividir a nossa satisfação interior. Parabéns, Regiane, o texto é de uma riqueza singular e seu Blog merece nossos parabéns!!!

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  5. Prima,
    Que tema instigante, e o melhor, trabalhaste-o com a mais profunda e fina delicadeza. Tuas imersões nas possibilidades de pensamento, de sentimento foram precisas, maravilhosamente articuladas ao todo do texto.
    Tocante ao falar de um tema q para muitos é desesperador. Quem te ler certamente sentira o peso da morte mais leve... mais belo
    Amo-te

    Prima ASS

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  6. Se todos dizem que escutam sua voz em tudo que você escreve é porque você é a própria literatura, porque não dizer, Clariciana, mas do que um simples elogio.

    José de Paiva

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  7. Senti todo a dor contida no seu texto, pois me pus no lugar do conjuge sobrevivente, e com 11 anos de casado não me vejo sem a minha esposa LÍGIA! Prefiria que nós fizessemos a VIAGEM juntos... após nosso filho tiver com sua família!
    Visite nosso blog: aloeducacaoapodi.blogspot.com
    Seu ex-aluno Núcleo UERN.

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  8. O que não é a morte senão um retorno à verdadeira vida? Tudo neste universo é cíclico, tudo vai e vem. Depois de um dia de escola é hora de retornar pra casa.

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  9. Parabéns pelo texto sempre emocionante, como diz na minha terra você é jóia,admiro o estilo e a delicadeza.Lúcia.

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  10. Reina, chorei de emoção e alegria ao reler o texto que já havia partilhado comigo.
    A releitura dele ficou ainda mais tocante, e senti o amor dos meus tios, que eu acredito eterno, se eternizou de fato pela literatura.

    Eu sempre procurei um amor assim. Um amor para a vida toda, não por dogmas ou mandamentos, mas por acreditar que a união conjugal seja a melhor ferramenta que o Criador tem para lapidar nossa alma.
    Eu não sei se meu amor será eterno, mas sinto hoje pela primeira vez na minha vida que metade de minha vida caminha junto com ele.
    Pela primeira vez na vida sinto a eternidade no meu peito quando estou com alguém.
    Que os anjos digam amém.
    E se ele partir, tenho certeza que produzirá meus melhores versos.

    Beijos.

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  11. "Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
    nascem e morrem tantas vezes enquanto vivem,
    são eternos como é a natureza."
    [Pablo Neruda]

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  12. O seu artigo é deveras instigante no sentido de nos mostrar o vácuo que fica na vida da esposa que perdeu o marido, ou poderia ter sido o contrário. Por isso essa vontade impetuosa de você desejar ir junto, viajar também, conhecer o outro lado do umbral. Porque ela, a viúva, não vai ter mais o amigo para contar seu sofrimento, abrir seu coração, procurar, com ele, as soluções. A auto-estima vai para o espaço, daí a sua argumentação tão bem encaixada, correta, quando desejaria virar cinza num amanhecer ao perceber que aquele a quem amou por toda uma vida já não está mais ali. Elogiei o seu escrito e a sua maestria pela singeleza com que abordou tema tão delicado e caro para o ser humano: a morte, pela perda de alguém querido.

    William L. Guerra,

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