19/05/2011

Vertigem


Eliana Klas

Secretária


Vertigem.

É a primeira sensação.

Frio.

Não um frio comum,

Mas um frio daqueles que começa na espinha e termina na alma.


E o silêncio repleto de significado, paira no ar com peso de chumbo.

Quase consegue tocar o silêncio.

Não há mais riso, não tem mais música,

Só o silêncio.

Estático passa os olhos pelos mesmos lugares,

Outrora cheios de vida, agora perdidos debaixo de uma fina poeira.


De novo a vertigem.

O chão?

Cadê o chão?

Ele estava aqui ainda há pouco, agora cadê?

Tenta se sentar, pra recobrar a sensação de apoio.

Mas não há apoio.

As paredes também sumiram, o teto, o quintal...

Toda a vida evaporou.


Antes o ar era respirável, agora insuportável.

Seco. Quente.

Contraditório.

Respira um ar quente, que entra e congela tudo por dentro.

Devora-lhe por dentro o frio, e por fora o calor.


O coração faz eco, no silêncio da noite.

E o chão?

Não o encontra mais, mas sabe que ele está ali

Debaixo dos seus pés...mas onde estão os seus pés???


Sempre achou que o vazio não tinha forma.

Agora percebe que tem.

E tem cheiro também.

O vazio tem gosto,

O vazio tem cor.

O vazio tem consistência e aderência.

Adere na pele, impregna-se em cada canto do corpo.

O vazio se esconde debaixo das unhas, no meio dos cabelos.

O vazio ocupa tudo, no meio das prateleiras,

Entre os bibelôs, sobre os enfeites de porcelana...

O vazio se mostra, grande, suntuoso, ofuscante.


Antes ela estava lá.

Falante.

Pulsante

Amante.


Agora era vazio.

A Tal presença da ausência de quem falara o poeta.


Vertigem.

De novo.

De novo o silêncio sepulcral.


Na espinha o frio.

Na boca o amargo.

Gosto amargo do dia seguinte.

Dia seguinte de um futuro perdido.


Ela se fora...

Sem meios, sem motivos, sem porquês.

Ela se fora.

Sem nem mesmo olhar para trás.

Na verdade ele sabia os porquês.

Todos eles.

O problema todo fora os porquês.


E agora, só vertigem.

Sem por que algum.

Ela se fora.

E não voltaria mais.

Se bem a conhecia, ela não mais voltaria.

Não levara nada, e mesmo assim ele sabia que ela se fora.


Aquele vazio contava pra ele que ela se fora.

Não o vazio dos armários.

Nem o vazio das panelas.

Nem mesmo o vazio da cama.

Mas sim

O vazio no ar.

Ocupando tudo.

Dando forma a tudo.


Vertigem.

Era esta a primeira sensação do fim.

Ele sabia.


Licença Creative Commons

4 comentários:

  1. Mais uma vez, vc faz um mergulho interior e nos leva a sentir essa vertigem torturante que, algumas vezes, nos visita... sua sensibilidade é perceptível em cada linha do seu texto.
    Parabéns minha linda!
    Reina,

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  2. Conduzir o leitor com leveza para dentro de um tema angustiante, como se faz isto? Eu não sei, mas a Klas sabe. Essa menina tem dedos, olhos, mãos e coração de fada. Magnífica prosa poética.

    Encantada.

    Abraço grande

    Prima ASS

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  3. Encontrei a Klas que conheci: a que não tem certeza do gênero que está escrevendo e que, por isso, torna-se a criatura literária mais sublime que precisamos. Uma mescla de conto - crônica e poesia, com uma metáfora redonda e um pensamento furtivo. É aqui que se condensa o eu lírico e o sujeito poético; o eu leitor e a escritora Klas.

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  4. Klas, é incrível como você consegue nos transportam para os recônditos mais longíquos da alma humana e, quando lá estamos, bebemos dos sentimentos mais amargos, porém sem sentir o seu gosto acre, apenas o doce sabor de suas palavras. Parabéns, amiga. Orgulho de ser sua irmã aspirínica. Abraço.

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