05/06/2011

Briga de Instrumentos


Capoeira - Carybé


O nome de nascimento era Hildebrando Soares de Amorim, natural de Macau, mas que viveu em Areia Branca até os sessenta e poucos, quando se mudou para Santos. De apelido, Alicate. Era porque tinha as pernas cambotas, à feição mesmo de um alicate. O apelido lhe foi dado por Costinha de Horácio, quando ele trabalhava de garçom no bar dele, aqui em Mossoró. Pegou, e ele ficou sendo Alicate.
Tinha uma voz bonita, potente, e quando o bar fechava ali por volta da meia-noite, Alicate ganhava a zona do meretrício com os demais garçons de Costinha. Esse destino da noite que parecem ter os que cantam bem, ou tocam violão. Tinha boas amizades aqui em Mossoró - tudo que era gente importante da clientela de Costinha. Médicos, advogados, políticos. Cantava bem, e era tudo que se pedia.
Uma particularidade - não era de agüentar pau no ouvido, e topava qualquer parada mesmo, fosse quem fosse o valentão. Nisto, puxou ao tio Cirilo Raposa, também de Macau e também cambaio, que na briga, de punhal, com um sargento da polícia, na beira do cais em Areia Branca, matou e foi morto. Foram enterrados lado a lado no primeiro cemitério de Areia Branca, onde é hoje o bairro Somoban.
Mas estava dizendo que Alicate foi garçom do bar de Costinha de Horácio, e tinha outro garçom com o apelido de Martelo, também dado por Costinha, este por causa de ter a cabeça grande chata. Costinha dava a todo garçom um apelido, que logo pegava. Queria muito bem a Alicate, entre outras razões, a do seu interesse comercial - cantava muito bem, de modo que era muito solicitado pelas mesas.
Quando foi um dia, que foi uma noite, enquanto fechavam o bar, os dois, Martelo e Alicate pegaram uma briga, quebrando tudo dentro do bar. Martelo levando desvantagem às cabeçadas de Alicate, sua especialidade nessas horas. Um médico tomando a "saideira" ainda tentou apartar, mas Costinha, do outro lado do balcão, chupando seu charuto - "Não se meta, não, doutor, que a briga é de instrumentos".

[Autor Convidado] José Nicodemos é cronista, filho de Areia Branca/RN e radicado em Mossoró/RN. Autor de “A velhinha de preto” é cronista há mais de uma década no Jornal de Fato.

2 comentários:

  1. Encantador!
    Numa linguagem mto própria traz referencias de um sertão, q apesar das transformações, matem traços incorrompíveis. Lugar mágico para mim.
    Obrigada por compartilhar esse texto conosco.
    um abraço
    lete
    prima ASS

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  2. Seu Nicó, com suas palavras coloridas, vai pintado um universo trágico-cômico quando coloca frete a frente o Alicate e o Martelo. Acredito que esses apelidos foram escolhidos a dedo e se encaixam perfeitamente a alguns cidadãos que insistem em agir feito instrumentos...
    Regiane.

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