02/06/2011

Caça a bruxa Loueiny Lask


Moça Lendo - Mikhail Vasilyevich Nesterov


Secretária

Escrever era como voar, se asas ela tivesse...

A alma pedia calma,
e calma ela só tinha quando escrevia.

Escrever era dolorido.
Colorido.
Era suspiro que saia das letras,
Escrever era parir letras como quem paria um filho.

Mas escrever tornou-se um pecado, tornou-se a denúncia de que sua alma voava...
o que antes era gesto de liberdade se tornou arbitrariedade, contrariedade.

Tornaram medíocre o que para ela era santo.

Primeiro juntaram seus papéis em uma imensa fogueira feita com papel usado nos banheiros públicos.
Viu todos seu papeis ardendo em nesta fogueira.

Seus sonhos de menina dilacerados, seus projetos de mulher enxovalhados,
sua vida exposta, sem direito de resposta.

Depois foi chamada de meretriz.
Sem direito a resposta.
De novo, sem direito a resposta.
Meretriz. Bruxa. Pervertida.

Ela sempre soube que os homens eram canalhas, mas jamais pensou que aquele fosse também covarde.
Mas ele foi.
Escondeu-se em sua covardia e deixou-a sozinha para ser queimada como meretriz, bruxa.

Mas aquela bruxa sabia quem era e ninguém iria tirar isto dela.

Sabia que não era santa, e nem buscava este rótulo.
Mas sabia que amava a busca da santidade como todos os santos antes dela.
Sabia que amava ‘Aquilo’ ou ‘Aquele’ que os santos buscam e amava mais que a sua própria vida.
Ela sabia, portanto, que não era uma meretriz.

Não se importou com estas palavras, pois foram ditas não por um sacerdote, mas por uma mãe.
E às mães tudo é perdoado.

No meio dos sacerdotes, havia o rei.
Este homem santo a olhou e em seus olhos ela viu misericórdia e amor.
Ela viu a unção dos reis e sacerdotes chamados para uma missão.
Por isto ela perdoou.
Perdoou a mãe e o sacerdote.
Perdoou a todos, pois nem conseguia conceber o “não perdoar”.

Perdoou quando os outros, os que não têm missão, a jogaram na fogueira sem pena.

Rastejou no meio das cinzas.
Recolheu pedaços dos seus versos, sentindo ainda o calor das brasas...
Sua carne queimava, mas ela nem sentia...
Doía- lhe os papeis que se perdiam para sempre...
Doíam-lhe os versos roubados, muito mais do que a vida que lhe seria tirada.

Como animal lambeu seus folhetos, enxugou-os na pele, na vã tentativa de recuperar sua alma.
Mas era tarde... A multidão embrutecida já notara que ela se preparava pra voar novamente.
Tiraram a pena de sua mão, rasgaram todos os papeis, esconderam as tintas.
Condenaram-lhe a morte.

Ninguém percebeu que quando seu corpo pendeu sem vida, a vida já havia lhe deixado, muito antes...a vida lhe fora tirada no minuto que lhe tiraram os versos.

...só esqueceram que quem tem promessa, não morre.
Ela retornaria.

Era uma bruxa, afinal. E as bruxas sempre voltam.
Bruxas são feiticeiras.
E feiticeiras são a face feminina dos Sacerdotes do passado.
São mulheres que aprenderam a ouvir a natureza, natureza que carregam no próprio corpo.
São mulheres que descobriram que na falta de fé em Deus, lhes restava a natureza para crer.
E por crer na voz da natureza foram condenadas.
Mas sempre retornam.
Pois não é possível matar uma “bruxa”.

Ela voltaria, pois no final de sua missão iria professar como diz a lenda: um homem chamado santo professou:
“Combati o bom combate, acabei minha carreira e guardei a minha fé.”
Ela se chamava, e é bom não esquecer este nome, pois você pode precisar dele um dia, Loueiny Lask.


Loueiny Lask. de Eliana Klas é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.eutodososdias.blogspot.com.

8 comentários:

  1. Klas,

    parece q conheço essa bruxinha...rs.. q se supera a cada tema escolhido, a cada palavra escolhida, a cada parágrafo, a cada virgula, a cada silencio...maravilha! Aliás, Klas sabe aproveitar como ninguem o poder de palavra e o poder de silencio q pode haver num texto escrito com a alma.

    Um abraço grande

    prima ASS

    lete

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  2. Conserteza meu texto favorito ;)
    Aprendo sempre com você mãe .. Só você pra encinar coisas que eu não queria aprender .. MAIS APRENDO :p

    Aprendi com você :"Não se importou com estas palavras, pois foram ditas não por um sacerdote, mas por uma mãe.
    E às mães tudo é perdoado."

    Meus PARABENS minha mamusca sz

    I LOVE YOU sz

    ALICE KLAS

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  3. Minha amiga querida..andei lendo uns textos seus aqui..simplesmente ótimo.Vc tem uma facilidade com as palavras q eu sempre admirei.. Peço desculpas n ter comentado antes, espero q entenda..
    Te adoro muito viu Klas
    Sucessoooooo!!
    Bjuca no coração

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  4. Um texto simples e ao mesmo tempo difícil. Eu diria audacioso (me repito) como se você tivesse fechado os olhos e partido para dizer tudo de um único fôlego. Gosto muito quando você faz isso. Seu texto tem um som de muita pretensão e até arrogância, na pontuação e na forma que nos obriga, inconscientemente a reverenciá-la. Excelente.

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  5. Comentários abertos sem moderação. Beijos.

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  6. Klas, como sempre, demonstra ousadia. Adoro isso! Abusa da liberdade literária que lhe é permitida e simplesmente vai... como um barco sem bússola, mas que pela confiança em si e nos ventos, sempre acaba encontrando o rumo certo.
    Este texto me fez lembrar D.Quixote que vivia qual um cavalheiro medieval em pleno século XVII. Enquanto ele vivia esse sonho, era um homem determinado e feliz. Quando lhe roubam as novelas de cavalaria e lhe proíbem de sair no mundo como tal, ele definha e morre... ".a vida lhe fora tirada no minuto que lhe tiraram os versos.".
    Grande abraço querida! Texto lindo!
    Reina

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  7. Este mergulho na essencia de uma mulher que sabe estar Viva, bem como sente a verdadeira morte me faz lembrar de Joanna Dark e de Madonna (a cantora), duas manifestações de uma mesma Divina Bruxa.
    Este texto abre nossos peitos com dor, mas nos conduz a um exame de consciência na medida em que produz a questão. ""Quantas vezes minhas palavras são lenhas a alimentar a fogueira que queima uma irmã Bruxa?""
    Wilton Paulo

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  8. Uma palavra: CAR*LHOOO!

    Pronto, um lapso de adolescente impressionado.

    Porque que eu acho que esse é um texto de desabafo?
    Porque que eu acho que vi a própria Klas (sem nunca a ter visto pessoalmente) em todas as linhas disso ai?

    Bruxos, todos somos um pouco. Especialmente quando conseguimos fazer mágica transformando simples palavras em turbilhões de emoção.

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