14/06/2011

Escárnio em maldizer


Mapa do inferno de Dante - Bartolomeo


Professora


Inércia é uma atribuição dada à falta de ação, de energia moral ou intelectual e para os casos de indolência e torpor. No entanto, apesar da evolução da espécie humana, estamos caminhando a passos de caranguejo quando colhidos por medidas que ferem a cidadania. Junto a isso, vem a acomodação, a falta de iniciativa, a lerdeza e a hipocrisia. Boca e olhos são muitos. Mãos e pernas são poucas. Diria até que raras.
Acho que a palavra mais adequada para esta revolta que sinto hoje, cabe em INDIGNAÇÃO. As pessoas estão cada vez mais melindrosas. Escondem-se em suas carapaças de porcelana e posam para uma fotografia digital. Sorriso amarelo. Tudo anda bem. Se surpreendidos diante de medidas sem respaldo lógico que ferem a constituição e os direitos humanos ou ambientais, reagem com tagarelices ao vento, manifestam desacordo em um bate-papo cabeça pelos corredores (lugar de muita ação e pouco trabalho efetivo) e, depois, dormem o sono dos injustos. O agir sempre espera o primeiro passo. Para ser mais dura, acho que não espera por mais nada.
O mais desastroso é presenciar certos encontros que tem como proposta organizar algum movimento prol disso, prol daquilo. Na ocasião, todo mundo rasga seus feitos de décadas passadas, outros discorrem sobre seus talentos, outros traçam minuciosamente o fracasso alheio, mas na hora de ser objetivo num plano de ação que beneficie o bem comum: Vou ali tomar um café, volto já. Estamos numa era que exige praticidade e determinação. Não podemos perder tempo com discursos tradicionais ou achar que o sistema maior vai beneficiar os que representam a minoria. Como diria Séneca, “É preferível ser menosprezado por causa da integridade do que arcar com o suplicio de uma dissimulação infinda”.
Estou cansada da dissimulação. Cansada de oportunistas, cansada de gente que não avança. Estou cansada da inveja, da falta de criatividade e de atitude política. No entanto, apesar de toda a sujeira instaurada no organismo humano, aparece uma voz resistente que se levanta timidamente e busca a palavra AGIR num dos cantos dos entulhos. Quando alguém limpa o pó e ergue o caco de significado que a palavra comporta e partilha com os demais colegas que fazem parte de sua corporação, é descaradamente esmagado pela soberba e, ao invés de se unirem e se organizarem como uma unidade, debocham de quem decidiu não ser parasita e tratam de buscar argumentos, sem fundamentos, para “abafar o caso” e deixar tudo como está: - Não sejamos precipitados, vamos esperar para vê o que acontece.
Basta. Melhor a voz se excluir de qualquer representatividade e caminhar como pessoa física e como cidadã; que siga o rumo só ou que busque novas vozes menos covardes para se aliar à causa.
Quando não me caibo, faço-me palavras e deixo-lhes poemas. O poema é tudo que ainda tenho... Escárnio:

O outro não levanta a vista,
esconde-se entre os escombros
de sua máscara hipócrita,
para que a sua pele de camaleão
não sobreponha
a sua falsa pele de cordeiro
que cobre um corpo infectado
pelo mau-caratismo de ser...
E nesse jogo de querer revelar
aquilo que não se é,
a essência se perde
no sórdido dialogismo que se estabelece
entre o discurso do que se é, nos outros,
com o que não se é, no nada de sempre.
Sem lógica, sem verdade,
invertida conversa,
desmedida e insana.
Dou-te, por fim, às costas
e cuspo na tua sombra criatura
que se estende na lama de tua atuação.

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8 comentários:

  1. Esse texto serve como desabafo para muitas situações que estamos passando no nosso estado e no nosso país nesse momento. Parabéns pela força do texto!

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  2. Será q dá pra gente fazer uma troca? Proponho colocarmos a Regi no lugar da Dilma, acho q teríamos resultados mais imediatos para todas as mazelas sociais e morais que assolam nosso pobre país...

    Eu voto!

    Parabéns prima, sobretudo, pelo polifonia tão bem utilizada em teu texto, são muitas vozes, q juntas dão força e grandeza a teu texto.
    Ah, acho q Ferreira Gullar morreria de inveja do teu poema!
    abraços e mtos bjs...
    lete
    prima ASS

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  3. Justo a sugestão do nome de Ferreira Gullar pela Arlete. Ele bebe dessas coisas. O texto é forte e foge do circulo convencional: lê-se como se quiser: crônica, desabafo, desaforo... A única coisa que não me agrada é que o texto lembra muito a mim mesmo como agente político e inquieto. Vejo que as coisas se repetem e não evoluem, o que quer dizer que toda a angustia que vivi e vivo, vez enquanto, tem feito mal a tantas outras pessoas, inclusive a Regiane que não costuma fazer os outros sofrerem por conta de inercia.

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  4. Prima, pelo amor de Deus! Gullar sentir inveja? kkkkkkkkk, vc enche demais a minha bola viu! bjs.
    Como disse Paiva, lê-se como quiser. Eu confesso que estava possessa no dia em que escrevi este texto. Tinha mais veneno, mais meu mentor preferiu que eu fosse menos cruel...rs. adoooooooooooro quando ele intervém e me guia!

    Bjs todos.
    Regiane

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  5. “Reina, sua indignação quando feita poesia me inflamou ainda mais que a eloqüência da crônica!
    Parabéns pelo texto inflamado por um ideal que vai além das palavras!”
    Eliana Klas

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  6. Numa creio, tinha mais? Agora fiquei curiosa. Paiva, só espero q não esteja sendo castrador. Cuidado! Deixe minha reina vomitar as verdades na cara de quem as suportarem. rs

    bjs amados
    lete
    prima ASS

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  7. Esse texto é demais para meu pobre intelecto, mas confesso que a cada leitura que faço nesse blog suprimi minha ignorância...
    Vcs são meus ídolos!
    bjs

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  8. Lí, maravilhosO! Você é demais!!!!!!!
    Adeny.

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