27/06/2011

Exótico e óbvio


Mulher Chorando - Pablo Picasso


Cronista 
                
        O que aconteceu com Bruna Lombardi, Xuxa, Paula Burlamaqui, Ana Maria Braga? Por que essas mulheres insistem numa beleza que não lhe pertence? Por que congelar a imagem tornou-se para elas uma regra?
Desde que inventaram a cirurgia estética e o botox que a mulher nunca mais foi a mesma. Surpreendo-me quando ouço algumas dizerem que “esperam a idade para entrar na faca”. As crianças de hoje lamentam não terem idade para as cirurgias e as adolescentes, antes de terem o corpo formado, se deformam com silicones e maquilagem. Há uma contradição nesse modo de viver: quer-se envelhecer quando não se deve e morrer jovem quando não se pode.
A pressa de viver tem levado a juventude para a degradação dos químicos. Quando não é o álcool ou outras drogas, são os produtos para o rosto, corpo ou cabelo. Mas nem isso é suficiente, porque nada faz da mulher uma fotografia. A corrida pela aparência não resolve a fatídica corrida contra o tempo, nem a verdadeira imagem no espelho. A última mudança do mundo é essa famigerada fome de viver tudo de uma só vez, sem respeitar as etapas, nem as marcas do amadurecimento.
        Que diferença faz para o Brasil e para a Bahia a aparência estética de Maria Bethânia? O branco de seu cabelo, escovado como “antigamente”, é como uma liberdade perdida. Quando vejo Bethânia, não vejo outra.
        No mundo uniforme dos cabelos não há mais lugar para as ondas do cacheado, nem o emaranhado impermeável do negro, porque neste mundo não há lugar para diferentes e, ser negro, ainda é ser diferente. Melhor esticar ou pintar de louro e parecer outra, ou outro, como fazem alguns jogadores de futebol. Enquanto isso, nos fogem as imagens africanas das ruas. Espaça-se a diversidade original da ruiva, da loura, da morena – do índio, do mameluco e da mulata.
        Nunca entendi o que ou quem estamos procurando. A beleza muda, dizem, mas parece que o que muda mesmo é o conceito. Há uma distorção entre beleza comercial e a verdadeira beleza: “a beleza do erro, do engano e da imperfeição”. Quando entenderão que “a beleza é em nós que ela existe”, que “a beleza é um conceito e a beleza é triste”?
        Haverá um dia em que nos surpreenderemos quando não nos encontrarmos mais. “E aquilo que neste momento se revelará aos povos surpreenderá a todos, não por ser exótico, mas pelo simples fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio”.

Licença Creative Commons
Exótico e óbvio de José de Paiva Rebouças é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogdojottapaiva.blogspot.com.

4 comentários:

  1. Por isso tenho orgulho do meu cabelinho! E mais orgulho tenho ainda de quem se deixa envelhecer sem medo. É daí que vem a beleza dos homens, da velhice!

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  2. Realmente, estabelecemos um bom diálogo. Intertextualidade.
    A velhice e a infancia, as duas pontas da vida são temáticas q persigo, q me encantam.Só não consigo condenar q tem medo de envelhecer. pq o proceso é doloroso, é fisico antes de ser psicológico. "Eu não tinha esta face"...nem este corpo, reconhecer q nos transformamos em algo mto diferente do q fomos é desolador e exige mto de nossa própria evolução....Pensemos!

    um grande abraço
    Prima ASS
    lete

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  3. Polêmico e complexo. Olhar-se no espelho e perceber que o corpo não corresponde à vida que se carrega nas veias, tem levado muitas pessoas (homens e mulheres)a essa corrida pela mudança de aparência. Mas Paiva tem razão quando aborda: "A corrida pela aparência não resolve a fatídica corrida contra o tempo, nem a verdadeira imagem no espelho". As marcas e os vestígios das mudanças são nítidos, não há como mascarar as marcas definitivas que o tempo deixa na gente. No entanto, muitas vezes a mulher se obriga a passar pelos apuros da cirurgia estética para sentir-se jovem e voltar a despertar a atenção do companheiro que, como todos, abrem a boca diante de uma beldade que passa na rua.

    Também nota-se que O Texto não se limita ao campo das vaidades, mas também a não aceitação da beleza que se tem. Por outro lado, o que não se pode ter, é descaso pela sua fisionomia. Cuidar da saúde e do corpo ainda são indispensáveis para que gozemos um pouco mais dos prazeres da vida. Maravilhoso seu texto! Mas confesso, não serei refém dos cabelos brancos nem das varizes! kkkk
    Bjs.
    Regiane,

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  4. “Gente, o Urubu Mor já é o escritor nordestino de minha preferência na atualidade a cerca de dois anos ou mais.
    Com a dificuldade de ler os textos no escritório fui obrigada a ir a uma lans e imprimir.
    Isto me deu de presente a possibilidade de, na segunda-feira, o texto lido para a Alice e o Tarcis antes da sonega da noite, foi justamente o seu.
    O texto fala de uma verdade incontestável, e fala com ousadia só permitida a um poeta escondido por trás do cronista.
    Somente os poetas entendem o quanto a beleza é efêmera.
    Seus textos Jotas são escritos por gente grande.
    O Tarcis alega que os meus ficam a altura, mas eu me recuso a acreditar nisto.
    Sou sua serva, meu rei!”

    Eliana Klas

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