20/06/2011

Marcha da maconha


Proibidoporque


Cronista

Oi dona Fátima, hoje eu não quero cortar nem pintar. A senhora pode só alisar? Não, não é alisamento progressivo, só alisar com a escova, eu pago como se fosse um alisamento progressivo. Só quero conversar. O Arnaldo viajou de novo e não gosto quando fico sozinha. Não gosto de não ter com quem conversar. A senhora sabe, mulher gosta mais de falar do que de ganhar presente. Quer dizer, de ganhar presente e falar... Ai, eu morro de rir de mim mesma. Eu rio de muitas coisas, sabe, e não entendo a maioria delas. Quer ver? Me explique, dona Fátima, por que o povo é bom para defender coisas que, como diz o Arnaldo, não são “prioritárias”?
A senhora viu essa tal de marcha da maconha? Minha nossa! Nossos meninos estudando em escolas caindo aos pedaços, meu carro com o aro amassado por causa dos buracos da rua e um monte de gente defendendo essa tal “descriminalização da maconha”! Até o FHC foi pra televisão defender o comércio da erva... A senhora sabe que antes de me casar eu era danada que só? Pois era, menina! E sabe que até fumei um baseado? Não tenho nada contra quem fuma suas coisas, mas vendo o que estamos vendo, com esse tal de crack, defender liberação de droga, num sei não viu dona Fátima? Num sei não...
O que mais me irrita mesmo é o povo ter disposição para defender essas coisas, sem ter tempo para fazer panelaço, que nem os argentinos que vi no canal a cabo. Lá eles protestam contra o governo e coisas sérias. Tanto imposto aqui e quase nada funciona, nem as marchas aqui servem pra nada. A gente podia fazer um panelaço contra essa tal de... Como é mesmo que o Arnaldo chama? Ah! Carga Tributária. É isso mesmo. Carga Tributária. Ele me disse que essa tal “Carga” é a junção do que o governo arrecada do nosso bolso com o que já tem arrecadado. Pense numa ruma de dinheiro, dona Fátima! Perguntei isso a ele quando eu estava estudando para aquele concurso que nunca chamou ninguém, a senhora se lembra? Pois bem...
E as mortes dona Fátima, a senhora sabe quantas pessoas já morreram de tiro só neste ano? Um horror de gente já morreu, mas ninguém faz caminhada do jeito que faz para a maconha. Ninguém faz protesto contra a falta de segurança. Arrombar casa por aqui não é mais delito é quase uma profissão. Sim, porque, como diz o Arnaldo, “tudo é permitido nesse mundo vão”. Num dá nem para se estressar porque, a senhora mesma que fala muito nesses assuntos, sabe que a saúde nunca prestou neste país. Nunca vi sujeitos mais difíceis de lidar do que o tal do médico. Como eles são difíceis! Aí o resto é tudo sucateado e se você pagar um plano não serve de nada. Eles também não têm estrutura e você é encaminhada para o mesmo hospital público. Vê se pode!
Dia desses encontrei aquele deputado que lhe falei naquele dia, não lembro o nome, sabe aquele que aparece sempre perto da campanha eleitoral? Pois é, esse mesmo. Tive vontade de perguntar a ele por quanto tempo as operadoras de celular vão lesar a gente? Mas esse povo é muito bem treinado, dona Fátima, eles falam com a gente e se despedem tão rápido que só dá tempo sorrir. Enquanto isso, não se consegue fazer uma ligação direito. Essas operadoras são horríveis. Horríveis e caras, e ainda querem nos obrigar a mudar de plano a todo o tempo. Deus me livre! Desse jeito a “carga tributária” só pode aumentar. E por falar nela, de novo, a senhora sabe quanto custa o carro do Arnaldo lá no México? Menos da metade do que ele pagou por uma versão intermediária! Como é que pode, hein dona Fátima?
Eu não sei como se pode viver desse jeito. No final das contas, acho é que vou me juntar à marcha da maconha, porque do jeito que vai, como diz aquela musica do Chico, “a gente vai fumando que, também, sem um “cigarrinho” ninguém segura esse rojão...”
Já acabou dona Fátima? Pois faça uma trança agora...

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Marcha da maconha de José de Paiva Rebouças é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogdojottapaiva.blogspot.com.

7 comentários:

  1. gente, eu queria uma D. Fatima na minha vida...rs...
    Gracioso, leve sem perder o caráter de protesto. Quem disse q o povo não sabe o q quer, sabemos sim, só não somos verdadeiramente ouvidos.
    Parabéns, Jotta, vc foi magistral!
    Beijo enorme
    lete
    prima ASS

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  2. Título sugere texto com delongas e milongas; no entanto, o conteúdo narrativo e rápido suaviza a força crítica que o todo encerra. Também posso dizer que, a criatividade de usar a tagarelice da personagem dentro do universo "salão de beleza", agregado à presença terapêutica de D. Fátima para tratar de um tema polêmico como este, só endossa a sua competência literária. Ótimo como sempre!
    Regiane.

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  3. Quando eu crescer quero escrever assim. A maturidade literária do Jota sempre me impressionou. Nunca consegui relacionar seus anos de vida com o que escreve. Jovem na idade mas com uma escrita Madura, rica, indagadora, inconformada e persistente! “

    Eliana Klas

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  4. Realmente muito boa. Profunda e sem muito peso atinge em cheio a consciência 'de quem ainda tem, é claro' para os reais problemas da nossa sociedade. Parabéns!!!!
    Dia desses conversando com um amigo, ele se mostrava muito feliz com a volta dos movimentos, principalmente aqui no Estado.

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  5. Eu tenho CERTEZA que a inspiração feminina do Jotta é a Regiane. Consigo enxergar nossa querida professora nas linhas desse texto. MARAVILHOSO!

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  6. Assim como o Davi, não tenho dúvidas de quem foi a musa inspiradora do nosso Urubu Rei. Visualisei nitidamente a cena e ouvi claramente cada palavra dita pela personagem central. A Rê todinha! Meu Deus! Rss...

    Parabéns, Jotta. Isso mostra sua sensibilidade poética e seu inegável poder literário.

    Abraço.

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  7. Acho que o enredo foi muito bem escolhido, mas um possível "caráter de protesto" não! A meu ver aquele que lápida a palavra escrita precisa ter a minima responsabilidade em não denegrir ou resignificar erroneamente certos temas. E esse em especial que, felizmente e finalmente, vem sendo aberto a discussão na sociedade brasileira merece um pouco mais de "tato" para não acabarmos reproduzindo preconceitos e falta falta de sensibilidade. A nível de nota A Macha da Maconha não luta por liberação de droga, mas pela legalização da maconha. Para evitar confusão no uso desses termos sugiro, inclusive ao José de Paiva Rebouças, que veja o filme em cartaz atualmente "Quebrando o Tabu". Neste entendemos a posição do FHC que está menos interessado em defender o "comércio da erva", do que reconhecer a ineficiência do combate às drogas através da criminalização dos usuários. Diria que o autor foi mais intolerante do que provocador do real, uma lástima!

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