22/06/2011

Museu..eu..

As três idades de mulher - Klimt
Professora

Estou preocupada. As octogenárias que aparecem na TV estão teimando em não envelhecer. As capas de revista são meninas de no máximo trinta, mas aparentam 15. E uma criancinha fica 4 horas no ar, perdida, coitada, feito mico de circo.

Estão apagando a imagem da velhice dos nossos olhos e pouco a pouco de nossas mentes. Como nos sentirmos bem se sabemos que a cada dia caminhamos para isso? Como envelhecer quando tudo que nos lembra a velhice parece trazer uma espécie de mal estar? O fato é que estamos desaprendendo a envelhecer, ou, num olhar mais otimista, estamos ressignificando esse conceito.

Comigo, claro, não é diferente. Sou um ser que vive as agruras de seu tempo. Dentre tantas, estará lá, talvez no topo, a ditadura da juventude eterna. A vontade de criarmos uma Neverland infinda, onde todos somos Peters Pan e vivemos aventuras inenarráveis todos os dias (descritas, registradas e narrada no mundo virtual, de preferência). Hoje isto parece ser uma necessidade...

Mas porque estou pensando nisto mesmo? Ah, me lembrei. Hoje quando me aprontava para ir ao trabalho resolvi caprichar no visu. Fiz maquilagem, escovei os cabelos, escolhi com muito cuidado a roupa e os sapatos... Enfim, tudo para me sentir bela e jovem... Minha filha, ser iluminado, após me dar um beijo de despedida me disse: “mamãe, você está com cheiro de museu!”. Demorei um pouco para assimilar a declaração. Tá me chamando de velha, menina atrevida? Ou seria a minha cara rebocada de base e de pó que havia me dado um cheirinho e um aspecto estático de peça de museu?

Então, só considerei o fato de que ela havia herdado de mim a memória olfativa de coisas e de lugares e a descaração desmedida da sinceridade extrema. Menina esclarecida, minha Clara!

6 comentários:

  1. “Prima ASS, falaste pouco mas falaste tudo.
    Hoje li uma matéria de uma famosa atriz global dizendo que envelhecer não é fácil, porém é algo pelo qual devemos passar.
    Pois é...eu continuo achando que só não envelhece quem morre cedo, e entre um e outro fico com as rugas. Mas é fato incontroverso que a velhice perturba, e que dela fugimos mais que do “danado”.

    Belo texto, e sua filha deveria dar as mãos para a minha no quesito “deslavada sinceridade”. Não tem criatura melhor para nos apontar defeitos do que os filhos. Defeitos ou deslizes. Nada escapa a elas. Beijos e duvido que vc estivesse cheirando a museu. Ou as vezes era aquela parte do museu onde servem os cafés. Pode ser que vocÊ estivesse com cheiro de chocolate quente, hummmmmmmmm”


    Eliana Klas

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  2. Tenho um texto que se aproxima disso. Converso sobre essas coisas, às vezes com dona Fátima, e ela pergunta quando voltaremos a comemorar os cabelos brancos que resultam de nossos esforços - bom, ela não pergunta assim, mas gostaria de perguntar. Muito bom.

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  3. Lete

    Hoje eu estava olhando meu e-mail do IG que faz mais de 1 ano que eu não abro. E vi uma mensagem sua do blog de vocês.

    Aí entrei no blog e vi um texto que você postou hoje , da Clara te chamando de MUSEU.

    Lete eu ri tanto, tanto...Achei tão engraçado

    Fiquei imaginando a cena.

    Impressionante como voc consegue fazer as coisas simples do dia a dia virarem um boa história...

    Beijos

    Ahhh .. Eu gostei tanto do btom que voce me deu no meu aniversario, uso todos os dias, hoje minha coleguinha aqui perguntou se eu nunca mais vou trocar de batom.. kkk

    beijos





    Maria Aparecida Souza

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  4. "O fato é que estamos desaprendendo a envelhecer". Essa frase salta do texto, pelo menos para mim.
    Olho ao redor e vejo as mulheres de 40 já se submetendo a plásticas, a overdose de tintura nos cabelos e a uma desenfreada busca pelos silicones. Rugas, cabelos brancos e peitos consideravelmente caídos, é coisa do sec. passado. Hoje é mais chique morrer numa mesa de cirurgia para retirar aquela gordurinha que conVIVER com ela. Sem contar nos excessos de "reboque" para disfarçar as manchas ou aquelas ruguinhas teimosas...Seu texto grita: "por favor, deixe-me envelhecer sem disfarces!". Eu queria ter essa coragem de render-me totalmente aos 33 que me rodeiam, mas confesso, dói!
    adorei o texto prima!

    Abraço apertado!
    Regiane.

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  5. Seu texto surge realmente como um grito de todos nós, pobres mortais, que nos vemos cada dia mais bombardeados com essas ideias de juventude eterna. E, assim, sofremos por nos sentirmos obrigados a beber do elixir da juventude da nossa capitalista sociedade. Muito bom!

    Aspirínico beijo.

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  6. Quem me conhece sabe que admiro bastante a velhice, o envelhecer. É um processo lindo! AMEI o texto. Isso me faz lembrar das minhas pequenas que tenho em casa.

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