26/06/2011

O sequestro do santo


Procissão - Sadi Naif



Quando li Tieta, romance de Jorge Amado, foi inevitável associar Sant’ana do Agreste, cidadezinha onde a história acontece, a Apodi, pois assim como lá, por aqui tudo também é novidade que passa de boca em boca e se tem uma pitada de malícia ou infortúnio nos acontecidos ai o disse me disse fica mais divertido ainda. Muitos até exultam numa alegria quase perversa de ser o primeiro a contar e por tanto regalar-se em sua maldade até deixa de perceber a suavidade do beija-flor pairando lindo na sua fragilidade para alimentar-se da flor porque aproveita o momento em que o homem predador distrai-se nas suas confabulações.
Eu, nascida e criada por estas bandas, certo dia deixei de atentar para tais minúcias e fui alimentar essa face esquisita que sei não é só minha e a novidade que percebi e até incrementei com astuta imaginação deu-se assim:As pessoas começaram a chegar na praça com suas melhores roupas. Perfumadas e sorridentes, aguardavam com paciência religiosa o início da procissão em louvor a São João Batista, o padroeiro mais festejado da cidade.
Crenças. Costumes. Religiosidade.
Uma festa onde o sagrado e o profano se fundem bem em frente ao cruzeiro da matriz; onde as pessoas rezam, cantam, pagam promessas em nome de Deus e de João, no entanto, nem descem o último degrau da igreja, já estão a dançar o bem  animado forró nordestino dopados pela caipirinha, quentão e cerveja. Pois que toda essa alegria culmina na peregrinação pelas ruas da cidade - todos devotos de João.
A rigor, o santo também vem à praça com seus melhores adornos, com as flores mais bonitas, com laçarotes de cetim em várias cores – verde, vermelho e outras mais – a rodear-lhe os tornozelos, tudo para enaltecer suas virtudes de santo, o excelso soberano. Quando ele surge majestoso no adro da matriz, os sinos repicam, os hinos, as orações, por um instante é o eco harmonizador de todas as ideologias e convicções.
É o grande momento da festa.
Mas, no dia 24 de junho de um ano de grande efervescência política, o santo tardou e a ansiedade cresceu por entre a multidão curiosa e sedenta de notícias:
_Por que tanta demora?
_E o santo que não chega?
Falou-se até em sequestro...
Mas que absurdo!
No entanto, uma razão mais sutil percebida nas entrelinhas das conversas pelos atentos de alma maliciosa parecia profanar o entardecer do João Batista.
Mas que razão seria esta a tumultuar assim a inabalável e herética fé dos corações joaninos?
E o vento festivo trazia os sussurros:
_Lideres...
_Irão aparta-se...
_Novos rumos e tendências...
Ora, me pergunto: por que a imaginação tem tantas asas? O que teria em comum a demora do santo com um racha entre os baluartes desta cidade? Certo que, politicamente, vive aqui um povo extremamente passional... mas, a esse ponto?
Apenas a estatueta que, tradicionalmente, trajava-se na maternidade à luz das novas vidas, no ano em curso, tomou outro rumo e foi ornamentar-se na BR 405. Agora, verdade seja dita: com muito glamour.
E eis que surge o santo abençoando com seu petulante dedo de gesso o mundo revesso que girava a seus pés.

[AUTOR CONVIDADO] Cléa Morais é professora em Apodi – Rio Grande do Norte

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