15/06/2011

Promessas


José Malhoa - 1933



Professora


Havia prometido a mim e ao Jotta que não escreveria por um bom tempo, já que ando numa sangria desatada. Além do que essa recorrência à escrita me causa um esgotamento. Não igual ao de um dia de trabalho duro, mas algo bem semelhante ao cansaço posterior ao de uma transa louca, livre e desenfreada. A escrita me leva a um estado de languidez e preguiça. E preguiça é coisa que não posso me dar ao luxo de sentir. Tenho de me manter ávida. Atenta.
Nem sei como arrumo tempo para escrever. É ... Meus alunos fazem as tarefas. Eu escrevo. Filas. Escrevo. Reuniões chatas. Escrevo mais ainda. A espera é meu motivo de escrita. Espero, logo escrevo. Escrevo, logo espero. ( Descartes que me perdoe o trocadilho)
Vamos ao que me levou ao rompimento da promessa.
Faz parte da minha rotina esperar por minha vez nos semáforos. Tem um que me prende por 5 minutos. Todos os dias. Por ali sempre ficam crianças e balas. Tem dias que as compro. Em outros elas me compram. Vejo-as em sua infantil empresa. Mal estar. Mas Elas estão sempre brincando, só quando envermelha,voltam ao trabalho. Fazem de seu trabalho um brinquedo. Chego a acreditar que a infância tem uma força indestrutível. Ninguém rouba. Está tão dentro delas que não dá para tirar assim. Diante da ameaça eminente a infancia se transmuta, se reconstrói, se ressignifica. Não importa o tamanho da estupidez que as levaram até ali, continuarão brincando, porque esta, talvez, seja a única saída.
Contudo, desta vez não foram as crianças quem me chamaram a atenção.
Ah, esqueci de contar... ao lado deste farol mora um rio, que gosta de devorar parte do asfalto. Quando os carros me apertam na beirada do asfalto comido, tenho aquela sensação de queda, como nos sonhos, quase uma vertigem. Sorte que passa rápido. Também aprendi que passar sem olhar para o rio, que corre sujo e indiferente, evita a sensação.
Logo em frente, no muro da ponte, que contem as pessoas, os carros, e as pessoas dentro dos carros de serem devorados pelo rio, vi duas senhorinhas. Juntinhas. Ar levemente sério. Na mão de uma delas despontava um papel branco, dobrado. Esta aparentava menos idade. Era mais tesinha, mais precisa em seus movimentos. Estava ali de frente ao rio, iniciara uma espécie de ritual. Agora segurava o papel com as duas mãos firmemente. Conjurou? Conspurcou? O olhar se lançava no horizonte do rio. Foi breve. Um pedido? Uma praga? Um agradecimento?
Lançou papel ao vento acompanhando-o com os olhos até que o rio o engolisse de vez. Deu o braço à outra senhorinha, que caminhava com dificuldade.  Neste instante o farol verdejou, por milagre os carros esperaram pela travessia das velhinhas. A longa travessia da velhice... mas ao término dessa jornada até o outro lado da rua, saíram mais vorazes do que nunca, talvez para compensar o tempo perdido. Fui embora, mas a cena não.
Matutei e lá me veio a lembrança. Tinha ouvido sobre simpatias envolvendo papel branco, palavras mágicas e rios. Todas elas estavam associadas ao esquecimento, ao banimento, ao mandar o rio carregar o que não se quer. Uma pessoa? Uma doença? Uma lembrança?
Pouco importava. Em despeito do asfalto comido, do trabalho de brinquedo, do farol inverdejável e dos carros impacientes haveria sempre as duas senhorinhas. Lado a lado. Cheias de graça. Cheias de fé.

2 comentários:

  1. Lete, para mim, seu texto começa em: "Faz parte da minha rotina...". É aí que seu cotidiano ganha vida e magia. Consegui navegar em cada palavra devido a sua competência na arte de descrever e narrar. Texto terno, isso! Certamente, as velhinhas não imaginam a profundidade daquele ato, que podia representar tudo e o nada.
    Texto lindo, como sempre!
    Bjs, Regiane.

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  2. É o cotidiano - a maior lenha dessa fogueira chamada crônica. Gostei demais. Consegui visualizar cada momento do texto, cada detalhe das velhinhas, até mesmo a sua expressão, Arlete, ao visualizar tal cena. Consegui viajar. Tirou-me do espaço comum em um dia cheio de trabalho.

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