29/06/2011

Sobre a ciência e o saber


Yeondooo Jung


professora

Nunca fui boa em Química, o que eu gostava mesmo nesta disciplina era de ver as infinitas combinações entre os radicais gregos e latinos nos nomes dos compostos, orgânicos e inorgânicos, também gostava de ver toda bela, colorida, quadriculada e grandiosa tabela periódica, que cobria quase por completo o quadro verde-fosco.
A professora, que fique bem claro que isto nunca partiu da vontade do alunado, queria realizar uma feira de ciências. Separou os grupos. Sugeriu os temas e até algumas experiências. Não sei como, mas inventei de falar sobre a água oxigenada. Acho que pela acessibilidade. Tinha desse material em abundância em casa, minha mãe era cabeleireira. Quase uma alquimista, portanto. Além disso, achava mesmo muito curioso vê-la espumando em cima das minhas feridas. Ela também descoloria meus pelos e me deixava pintas brancas nas pontas dos meus dedos.
Fiz algumas experiências para testar sua espumosidade em diversas matérias. Descobri que ela fervilhava com muito mais alegria quando posta em contato com a matéria orgânica complexa. Tipo: carne fresca. Humana ou animal, ao menos nisto ela não fazia distinção. Fervia mesmo!
Levei a minha fabulosa descoberta para a feira de ciências, ninguém do meu grupo se preocupou, éramos, na verdade, um grupo de uma pessoa só. Mas elas ficaram comigo durante a exposição, dando apoio moral, afinal quem tinha inventado aquela massada era eu. Estava muito decepcionada. Os visitantes pareciam mais interessados no vulcão de argila e gelo seco da mesa vizinha. Lógico, visualmente mais atraente. Eu continuava firme em meu propósito e quando alguém esbarrava acidentalmente na mesa eu, muito solícita, tentava vender a minha ideia científica genial. Inútil! O outro grupo vizinho, que chegara atrasado, acabara de colocar compotas com cobras capturadas, embriagadas no álcool e mortas por eles próprios e o melhor: uma tarântula viva, que, coitada, se debatia em vão dentro de um vidro de maionese. Até eu larguei minha experiência para ver e ouvir mais de perto as façanhas da captura. Tarântulas são mesmo fascinantes. Não é a toa que aparecem em filmes de terror, sobretudo nos cines trash.
Tive de voltar correndo para a mesa, pois acabara de levar um cutucão das meninas. Havia adentrado na sala o rapaz a quem eu platonicamente dedicava uma paixão. Parecia sabê-lo, também meu desmilingue denunciava. O moço se dirigia diretamente a minha mesa. Petrifiquei. Afinal, ele não era da escola, morava ali por perto e conhecia todo mundo. Boa pinta. Boa praça.  Estudava numa escola padrão lá em Santo Amaro, fazia o 3º ano do colegial e já trabalhava. Enquanto eu nunca nem tinha ida além ponte sozinha. Provinciana. Inocente-pura-e-besta.
Fiz a demonstração. Tremia feito vara verde. Suei, gaguejei, derrubei água oxigenada para tudo quanto foi lado.  Depois de presenciar minha pequena catástrofe, ele só me fez duas perguntas: “Você sabe que água oxigenada é o nome popular, nome de venda, né?.“É? Legal!”... Silêncio...“E você sabe qual o nome científico desse composto?”... Sepulcro... F.D.P! Se queria me constranger havia conseguido. Minha vontade era de me enfiar dentro do vidro de maionese e fazer companhia para a amiga tarântula. Como eu fui esquecer de pesquisar isto? Mirou-me com ar de desdém e disse: “Perrróxido de oxigênio”. “ O que?”.“Perrróxido de oxigênio”. Ttinha problema de dicção, o que para mim era seu maior charme, o “r” gutural lhe dava um ar de galã de filme francês. Nossa, o cara me ferrando e eu ainda arrumava meios de achá-lo um encanto. Que raiva de mim! E ainda foi embora sem dizer tchau.
Graças à Boyle, à Lavoisier, à Scheele que aquele circo de horrores já estava se acabando. Sobrou apenas recolher meus restos. Joguei a carne, a madeira e o ferro fora. Limpei a mesa transbordante. Fui para casa com a narina entranhada com o odor da água oxigenada e as pontas dos dedos esbranquiçadas. Ficaram assim por dois dias.
Na semana seguinte, as meninas vieram logo ao meu encontro para fazer o que sabiam de melhor: me dar apoio moral. Disseram que ele estava se exibindo e que se ele queria me chamar atenção é porque também gostava de mim. Amigos são ótimos nisto. Também, nada mudara em meu coração. Gostava mesmo do filho da mãe.
Ah, não pensem vocês que não aprendi nada com esse episódio. Confesso, continuo não entendendo nada de Química e muito menos de amor, mas se um dia eu for participar de um programa de perguntas e respostas, sei que somente eu terei a resposta certa: peróxido de oxigênio!

6 comentários:

  1. Acho que, pelas memórias da Arlete, ela deveria ser feinha quando pequena. O texto é bom pela desprendimento das classificações, é lúdico e engraçado. Uma boa crônica.

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  2. Óooooooootima crônica! Adoro as descrições e a rapidez da narrativa. Fico encantada com as escolhas dos adjetivos e da harmonia delas com o contexto. Perfeito!

    Vejo que a química não era a matéria odiada só por mim..rsrs. Vc tb decorava a tabela como eu: OS SeTe Po(loneses)? (Oxigênio, Enxofre, Selênio, Telúrio, Polônio)kkkkkkkkk, Eu inventava uma frase para cada coluna da tabela periódica. Na época, quem nos socorria com a química, era o colega mais linnnnnnnnnnnndo da turma, que não é a toa, hoje é doutor em química. Eu o recompensava nas provas de português, espanhol e física. Sempre admirou minha capacidade de dominar as humanas e as exatas, mas como eu era bem feinha, o mocinho preferia as gostosas burras, kkkk. (na verdade, eu que acabei saindo no lucro! o cabra era um tremendo galinha e sem vergonha, kkkk)
    Amei mais uma vez seu texto.
    aperto bem grande!
    Regiane

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  3. “Prima,
    Seus textos nos levam nos braços de uma adolescência que ainda existe dentro de você.
    Alcança leitores que vivem esta mesma busca que te consome.
    Pode apostar que dezenas de milhares de mulheres quando Lêem seus textos vão dormir pensando; Putz, é foda mesmo!
    Eu te aplaudo por escrever crônicas doces que nos embalam, apesar de esconderem uma dor, e uma busca
    Klas.”

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  4. José Paiva... Engano seu... A Lete era linda...
    A mais bonita e a mais inteligente da escola.
    Ganhou até o concurso de miss primavera nesta mesma época da agua oxigenada.
    Ganhou nao só pela beleza mas também pela inteligencia. Quando os jurados (kk) perguntarm qual pais ela desejava conhecer ela respondeu: GRÉCIA.
    Até hoje admiro ela por isso. O "lingua presa" também enxergava a beleza dela e queria mesmo se exibir.
    Beijos
    Cida

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  5. Cida, meu amor, vc sempre levantando minha bola... amo vc...

    um bj
    lete

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  6. Gosto MUITO de textos que expõem relacionamentos, independente da idade,do sexo ou da cor. É daí que surgem as melhores crônicas - acho que acabou até virando um traço meu. Quase todas falam de um relacionamento.

    Confesso que terminei a crônica com um sorriso nos lábios! Lembrei da minha "Infância com gosto de manga" e também de todas as desventuras adolescentes da última geração que conseguiu se manter inocente e não vulgar.

    Adorei a construção do texto, a descrição das cenas, os diálogos indiretos! TUDO!

    Super lerei novamente!

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