07/06/2011

Celular, dente azul e saudosismo


Sucata - Francisco de Oliveira Braga

Professora

Outro dia fui a uma dessas lojas de celulares. Havia perdido o meu prá lá de pré-histórico. E quando o digo, me refiro ao período de apenas três anos atrás. Meu modelo era bem simples: lanterna, calculadora, um despertador, lembrete, mensagens e ainda podia realizar as chamadas. Na loja, comecei a escorregar os dedos pelas vitrines e fui apontado um a um para saber dos modelos e dos preços. Pense num arrependimento! A vendedora da loja, cujos olhos não se viam por conta do excesso de sombra roxa, começou a debulhar sobre as conveniências de determinados modelos:
__ Senhora, este dispõe de um sistema operacional Android 2.2, Tecnologia 3G, Wi-Fi, GPS, TouchScreen c/ Tela de 3.2, Câmera 3.2MP, Filmadora, MP3 Player, Rádio FM, Bluetooth, Fone, Cabo de Dados e Cartão de 2GB.
__ Para que me serve um android desses? (Aterrorizada!)
__Senhora, este novo sistema Android 2.2 permite maior velocidade, acesso a milhares de aplicativos no Android Market com atualizações automáticas e a instalação dos aplicativos no seu cartão Micro SD.
__ Uhmmmmmm.. (fingindo entender). Olha, você não dispõe de um modelo mais simples que este?
__ Claro, esse outro tem um teclado Qwerty, câmera 2.0MP com zoom 4x, MP3 player, Rádio FM, Bluetooth estéreo 2.0, fone e cabo de dados.
__ Para que serve este blue, blu, ...
__ Bluetooth, querida. BLUETOOTH.Você não sabe para que serve? (meu marido admirado da minha tamanha ignorância tecnológica).
__ Com o Bluetooth, senhora, é possível um celular passar informações para o outro, como arquivos de músicas ou imagens, por exemplo.
... Melhor nem seguir com a delonga do diálogo porque não quero que sofram com isso. (Se é que alguns sofreriam!). Mas a questão, é que eu não precisava de MP3, do tal do bluetooth nem do  teclado Qwerty, muito menos ainda do tal Android. Não! Eu só preciso de um telefone móvel. Ligar. Falar. Ouvir. Mensagens. Tchau e pronto. Simples assim. Ilusão. O avanço da tecnologia não me permitia mais ser simples. Celular para fazer ligações já era! Agora podemos mais que isso. Daquele aparelhinho é possível acessar internet ultarápida, fazer ligações com vídeo chamada, enviar arquivos, tirar fotografias de ótima qualidade, gravar, filmar e... Vixe! É tanta coisa que nem cabe no papel.
Diante da moça que aguardava pacientemente minha escolha, lembrei-me de quando comprei meu primeiro celular há uns 6 anos. Não o queria, acreditem! Mas meu chefe pressionou-me. Motivo: queria me achar a todo custo para substituir alguma mão de obra escrava. Como diz o povo do Ceará, lasquei-me! Tornei-me refém do infeliz celular e hoje não imagino meu cotidiano sem um desses. Sem contar que ainda me tornei refém do patrão. Bastava somente ele teclar meu número e eu atender. Pronto, lá ia eu pegar a topique 13 para chegar à Av. Bezerra de Menezes...
Hoje, eu peço licença à modernidade para gritar Casimiro: “Oh, que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais...”. Borboletas azuis? Bananeiras, laranjais, tardes fagueiras? Carícias de mãe e beijo de irmã? Não Casimiro, agora preciso decidir qual celular comprar. Se com ou sem Bluetooth, se com câmera 2.0MP ou com 5.0MP, se com ou sem teclado Qwerty. Pensando bem, vou precisar de um que tenha Wi-Fi ou 3G. Internet à mão é sempre um mal necessário. Salve o futuro! Salve o ponto 11 do Manifesto Futurista! Duvido que tenha passado pela cabeça de Marinetti um avanço desse tipo. Mas, certamente ele ficaria fascinado com o TouchScree.
Enquanto eu divagava sobre tudo isso, a moça perguntou-me se eu havia decidido pelo modelo do celular.
__Não, moça. Acho melhor pesquisar na internet todos esses itens que estes aparelhos têm pra eu entender melhor o linguajar do telefone móvel...
Voltei frustrada para casa e chateada por ter perdido meu celular com sua lanterna intensa e seu cheiro de fóssil. Meu marido, coitado, pra lá de indignado porque não alcancei a dimensão dos celulares de última geração.
Durante a madrugada, a palavra bluetooth ficou azucrinando meu juízo. Ouvia-a qual o sussurro de um fantasma ao pé do meu ouvido. Bluetooth, Bluetooth... Que diabos queria dizer aquela palavra? Meu amigo professor de inglês me disse que era uma palavra universal. Blue- tooth, dente azul... Adormeci imaginando-o, mas acabei sonhando com o tempo em que não precisava de nada disso... com o tempo em que eu queria saber do mundo. Hoje o mundo cabia na palma da minha mão. Pode? iPod! 

7 comentários:

  1. Regiane já foi minha aluna e esse diálogo travado na conversa, ela tentando tirar as dúvidas, lembra-me DEMAIS os tempos de sala de aula. Regiane, bem empolgada, perguntando tudo sobre as atividades do livro e ainda cutucando o marido: "Olha marido, é assim!". Texto primoroso!

    *pontinha de inveja de conseguir escrever assim*

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  2. “ Catzo...só posso ficar feliz lendo um texto assim.
    Sinto-me meno pré –histórica, pois se minha reina, exemplo de dinamismo, modernismo e independência fica assim diante “destas coisas” (sim, resumo este monte de nomes americanizados em “coisas”, e salve a língua portuguesa, com certeza, a brasileira!) eu me sinto livre pra debulhar minha semelhante agonia.
    Pior eu, que já uso o Bluetooth mas ainda o chamo de de ‘BLUTUFI’.

    Amiga, seu texto é uma crônica maravilhosa, pra lá de cotidiana, pra lá de atual e sua angustia é partilhada por dezenas de milhares de leitores, pode apostar!

    Confesso que, assim como o urubuzinho, invejei o texto, assim como o de ontem do Jota.

    Vontade louca de sentar e digitar loucamente sobre como e quando comprei meu primeiro ‘aparelho móvel”.

    Como o tempo não me permite, vou editar um, que tenho e postar quinta.
    Vejo que terá tudo a ver com a temática da semana.

    Beijos enlouquecidos desta fã sudestina.

    ASS Klas.”

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  3. Regi,
    "IPOD" me matar de rir com sua história, q está mto bem contada por sinal. Grande sacada de humor,o final. Aliás, o texto todo. Os diálogos provocam aquela sensação de conversa vazia e entediante, típica dos vendedores, creio q nem eles sabem bem o que estão dizendo...automatismos...rs...E vc antecipa e declara comungar conosco, os leitores, dessa mesma senação. Fantástico.
    Gosto mto de ler-te, sabes bem o qto. Fico feliz, mto feliz mesmo!

    Um bj enorme

    lete
    Prima ASS

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  4. Excelente. Um tiro. indispensável cada palavra. Habemus escritora.

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  5. Oi querida professora, texto maravilhoso. não precisamos de tudo isso para viver feliz, mas a tecnologia teima em complicar.Abraços, Lúcia.

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  6. Bem a cara da minha orientanda. Como costuma se portar o bom cearense, agindo sempre como desentendido a cronista leva o leitor a reviver a eterna dúvida que temos ao comprar novo aparelho. E que apesar de todas as atrações ainda falta fabricarem o que me interessa. Parabéns Regiane!

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  7. Amiga concordo com vc. É por isso que te admiro pq vc é prática e sinsera. Adorei!!!!!

    Grande beijo.

    Sheila Maria

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