16/06/2011

Ultima suplica


Solidão - Amanda Cass



Secretária

Deixa-me morrer assim, perdida aqui, neste lugar qualquer.
Deixa meu olhar perdido e louco, vagar sem rumo, sem pouso ou calma.
Deixa minh’alma fugir de mim,
Deixa-me assim enlouquecida esquecer da vida, 
E aqui esquecida deixa-me morrer em paz.

Te peço que me esqueça,
Que não me busque mais, que me deixe em paz,
Te peço que  não me dê comida, que me tire a vida.
Te peço que me deixe passar  frio, perdida no jardim de casa.

Te peço que me permita um dia, um único dia, o desvario dos loucos.
Preciso me arrastar, preciso me sujar, preciso que me largue.
Preciso ir embora, preciso me perder, preciso que me mate.
Preciso que me deixe, que nunca mais me olhe,
Preciso deste medo, preciso desta dor, preciso que me devore a hora de não mais te ver.

Preciso enlouquecer, preciso te perder, preciso não te ter de volta.
Preciso que a morte lenta, vestida com cor de prata, me toque um pouco agora,
E que ela diga me levar embora, e que nos seus cabelos eu possa esconder-me.
Preciso debruçar nos braços dela, e lá me acalmar,
Preciso deste medo, preciso deste cheiro, preciso me entregar a este passo morteiro.

Suplico que me esqueçam, suplico que me deixem morrer.
Suplico que desliguem tudo, que apaguem as luzes, que façam silêncio.
Suplico que não me peçam nada, que desistam de mim, que não me esperem mais.
Suplico que não cantem mais, que me velem em paz, que me deixem e só.

Preciso que não me perguntem mais, que ignorem tudo, que não mais me olhem.
Preciso não falar, preciso esquecer.
Esquecer.
Preciso que me deixem esquecer.
Preciso que me esqueçam, que me finjam morta e me deixem morrer.

Deixe-me, eu peço,
Preciso,
Suplico que deixem me esquecer.

Licença Creative Commons
Ultima suplica de Eliana Klas é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com.
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4 comentários:

  1. Este eu-lírico me fez lembrar de um 'eu meu' em que precisava desprender-me de tudo, inclusive de mim mesma. E é exatamente isso que se grita nesta prosa poética. Um desabafo, um pedido de socorro, embora se queira a solidão de ser. Um tormento estampado em cada palavra, um desejo de morte em cada verso.
    Tocante e sofrido.
    Bjs, Klas.
    Regiane.;.

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  2. Apagar a propria existencia. Terrével, mas ao mesmo tempo tentador...O Impulso de Thánatos seduzindo-o ao abismo, o abismo do próprio esquicimento. O fim.
    Belíssimo texto. Denso. Profundamente denso.

    Um grande abraço
    lete
    Prima ASS

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  3. Gosto da Klas tímida por trás da armação grossa dos óculos que se parece mais comigo. Esse texto é forte demais. Ainda prefiro a Klas que - na minha cabeça - é a única que tem paciência de se sentar comigo à beira mar e contar estrelas na madrugada ou aquela que tem a curiosidade de saber se o cachorro enxerga verde ou preto e branco - enfim, uma menina crescida. Essa é minha impressão. Essa dor do texto vem de um canto que eu desconheço...

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  4. “Davi, não sou tímida, ou finjo que não sou pra disfarçar a timidez,
    mas você acertou em cheio:
    Sim, eu sou capaz de ficar horas e horas olhando o céu, contando estrelas e tentando entender o olhar da lua.
    Sim, me intriga não só como os cães enxergam mas também o que pensam.
    Quanto ao texto:
    Esta dor ai é mesmo feia. O Tarcis odiou este texto.
    Eu gostei.
    Fala de uma dor que já vi algumas vezes em um certo olhar.
    Beijos.”

    Eliana Klas

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