13/07/2011

Mulher D'água

Alyssa Monks


Professora

Tem gente que conta história, mas tem história que conta a gente... E assim se sucede com que vou contar.

Era um pescador. Pobre de Cristo. Há muito não via peixe. O rio sempre minguava.
Pouco peixe, pouco pão, pouco tudo.
Noite alta lá se ia e o miserável tentando a sorte na rede. Nada. Deitou-se na barca e pôs a vigiar a lua. Vigiou também as estrelas. Vigiou também a noite. Preta. Cricrilante. Envolvente.
Quase que adormecera. Quando ouviu um borbulhar dentro d’água, voltou-lhe logo um ânimo. Só podia ser peixe. Aprontou a rede dando dois giros a lançou em direção as borbulhas. Não deu outra. Pesado e barulhento. Nunca teve um pescado assim.
Quando a lua clareou a rede, embascabou-se. Era uma mulher. Perfeita em forma humana. Nua em pele e pelo. Dos cabelos pretos escorriam longos pingo d’água pelo corpo moço, que por hora cintilava.
“Não pode ser. Mas só sendo. É tu que arrasta os homens pro fundo do rio e nunca mais devolve. Mas agora fui eu que te arrastou. E não te largo mais”
A mulher rogou ao pescador que não lhe fizesse mal. Em troca lhe daria filhos e fartura. Mas tinha um porém: Jamais o homem diria má palavra sobre a água. Sagrada para ela.
O pescador aceitou o trato. Tomou-a como esposa ali mesmo. Depois partiram para terra. A casa deschambrada. Não a merecia. Ficara mais malamanhada diante de tanta beleza.
Dali a prosperarem foi um pulo. A casa? Um brinco. Florira. Os meninos fortes e vivos. Faceiros feito a mãe.
Pena o pescador ser tão pobre. A pobre de alma foi se assoberbando. Pabulava de não precisar mais trabalhar, se engrandecia na rua e em casa também. Batia nos meninos por não trazerem as alpercatas, por não trazerem o fumo, por não adivinharem o que era que ele tinha pedido. Reclamava da mulher se muito doce, se muito sal, se muito sonso. Agora dera por beber, jogar e raparigar. Era só o que sabia fazer, além de reclamar.
De tanta reclamação a casa caiu em desgosto. Desflorira. Meninos sujos e ranhentos. Louça por lavar. Roupa por bater. Chão sujo. A mulher se ocupava em balançar-se no alpendre. Enquanto tudo, aos poucos, se desmanchava de vergonha.
O homem esbravejava. Dizia nome. De nada valia. A mulher permanecia em transe. Resignava-se apenas a se balançar na cadeira. Desgosto. Não estava ali de certo. Sua alma era o rio. Apartada dele se diluía. Sua infelicidade era estar presa na rede do pescador. Sob o balanço, só ousava sonhar. Liberdade.
Não prestou. O homem deu por endoidar. Não bastassem os xingamentos, os gritos, as maledicências, passou a surrar os meninos. Foi então que a mulher começou a libertar as lágrimas. Calada. O homem bruto de tudo arrastava-a pelos cabelos, jogava-a na parede. Humilhada. Resistia em sua valentia inerte. Tendo o homem perdido todas as estribeiras, num dia de ódio e de arrogância, maldisse a água de onde viera aquela mulher. Amaldiçoou todo e qualquer ser vivente que viesse daquela água. Bestializado pela ira. Urrava.
Essas más palavras ergueram a mulher da cadeira. Pisou forte. Agarrou os meninos pelos braços e sem olhar pra trás, correu em direção ao rio para ser livre, enfim.
Sem filhos, sem fartura. Sem nada. Ensandeceu-se. Ninguém mais acreditava em sua história. O homem se arruinou. Buscou sua redenção no fundo do rio. Inútil. Acharam seu corpo seco e intacto, boiando pela superfície.
A mulher? Ainda se pode vê-la em noite de lua, deitada sobre o rio. Nua. 

2 comentários:

  1. “Arlete Mendes, uma de nossas três digníssimas professoras.
    Nutro por estas três Aspirinas confessada inveja, daquelas invejas boas que nos empurram para o alto e para frente.
    Cada uma das três usa as palavras com sua oralidade própria, mas sempre perfeitamente!
    A Arlete sempre “arrebenta’ brincando com as palavras!

    A prima ASS com este texto me mostrou um lado que eu ainda não conhecia.
    Suas crônicas mesmo vestidas de enfeites sempre foram pontuadas por sua realidade.
    Este conto no entanto, fantástico, perfeito, me encantou totalmente pelo uso da ferramenta “magia” para explicar nosso cotidiano.
    Gosto demais disto.
    Gosto dos encantamentos das fadas, das feiticeiras, das bruxas, das sereias...Gosto por ser este um simbolismo carregado de significados e muitas vezes apedrejado.
    Enfim, mulher é coisa de outro mundo mesmo, e contada deste jeito sua história me deixou de boca aperta:
    Da-lhe prima ASS!
    Espero que construa mais textos assim!
    Beijos sudestinos, que mesmo de tão perto ainda são platônicos!”


    Atenciosamente,
    Eliana Klas

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  2. Conto.Belo.Mágico e instigante. Criatividade estonteante! Rápido e preciso. Cada detalhe revela a maestria da sua elaboração literária. Desencadeia reflexão. Relação. Construção.
    Sou sua fã, minha contista favorida. (sim porque, meu contista (masculino) é marido, rsrsrs.)
    Bjs querida!
    Regiane.

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