09/07/2011

Amor. Ponto

Mãe e Filho - Albert Anker


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        Outro dia conversando com uma amiga entramos em um campo feliz e doce da memória: a infância. Começamos a falar dos tempos de pré-escolar e as memórias mais fortes que tínhamos. Em uma dessas viagens mentais, deparei-me com uma memória bem guardada, embaixo da gaveta das recordações, perto da caixinha da nostalgia...
        Eu tinha cerca de 5 anos. Minha escola era pequenininha, poucos alunos, professoras carinhosas. Na hora da saída, eu sempre via os pais dos meus amigos irem buscá-los. Só que comigo era diferente: era minha irmã quem ia sempre. Uma vez minha mãe foi. Fina, chique, empresária, mulher do século 21 em plenos anos 90. Lembro com clareza a cena: ela entrando alegre e sorridente com sua boca enorme de batom vermelho, linda, parecia flutuar na sala.
        TODOS os meus coleguinhas olharam pra ela e pra mim ao mesmo tempo. Foi um choque gigantesco, afinal a figura materna naquela época de escolinha da cidade do interior era uma dona de casa, vestida de forma simples e bem tímida. Minha mãe era o oposto de tudo isso.
        Logo depois, no carro, tentei formular, ainda estudando as melhores palavras do meu vocabulário infantil, uma pergunta:
        - Mãe, porque você veio me buscar vestida assim? – perguntei, em tom curioso.
        - Assim como meu filho?
        - Assim mãe. – eu simplesmente não conseguia explicar.
        - Você está com vergonha de mim, meu filho?
        - Não, não.
        Não poderia ter vergonha daquela mulher que chamava atenção de todos. Era simplesmente ela.
        No decorrer da vida, especialmente quando chegou a adolescência, pude reparar como era a relação dos meus coleguinhas com suas respectivas mães. Sempre me perguntei qual era a revolta deles. Nunca entendi. Preferi viver meu momento com a minha. Saíamos juntos para compras, andávamos de mãos dadas, ela me buscava no colégio (em plena época de testosterona) e eu não tinha vergonha. Sentia um orgulho que não consigo explicar. Era a MINHA mãe. E era a melhor de todas.
        Minha querida teve 4 filhos e adotou mais 2. Seu coração enorme e a fez lutar pra dividir o pouco que tinha. Já teve todas as profissões possíveis do mundo. Mas a mais emocionante delas foi policial.
        Outra memória forte que tenho foi uma conversa informal que tivemos. Eu, deitado em sua cama com um bom livro. Ela, sendo melhor amiga das novelas da Globo.
        - Mãe, a senhora já trabalhou com tudo nessa vida, né?
        - Já, meu filho. Com muitas coisas.
        - Mas a senhora já fez TUDO mesmo?
        - O que você está insinuando, rapazinho? – com um tom reprovador na voz que só mães sabem fazer.
        - Nada, mãe. Nada. Só queria saber se foi TUDO MESMO.
        - Meu filho, só pra deixar claro pra você: eu nunca fui PUTA não, tá bom? – desabafou.
        - Não queria dizer isso não... – eu queria mesmo era saber se ela tinha sido presa já.
        É uma característica da minha velha. Não tem papas na língua. Fala mesmo e acabou. Doa a quem doer.
        Sua personalidade forte sempre entrou em conflito com a personalidade serena do meu pai. O velho anda nas nuvens. A velha tem os pés fincados no chão.
        Recordo-me bem a cena em que vi carteiras, pratos e panelas voando pela casa. Qual o casal que nunca teve esse tipo de discussão, né? Logo depois do quebra-pau, fui conversar com ela e disse coisas encorajadoras a ela em detrimento ao meu pai. Lembro-me, até hoje, da resposta. Foi uma das lições mais valiosas que aprendi na vida:
        - Meu filho, deixa eu te dizer uma coisa: Você é meu filho e eu te amo. Mas no meu casamento mando eu. Eu que sei quando devo parar de brigar. Então quero que você nunca mais se meta onde não foi chamado. Amo muito o seu pai e pode deixar que eu me resolvo com ele.
         A maior prova da sua ousadia foi também sua maior prova de amor. 59 anos nas costas e anunciou pra toda a família:
        - Vou fazer uma tatuagem.

        Momento para entender a frase.

        CAOS!

        “Você já é velha! Você não pode fazer isso! Isso é coisa de adolescente! Vai fazer desenho de quê? Vai doer! Desista dessa idéia”. (!)

        E ela, claro, se sobressai:

        - Vou fazer a tatuagem SIM. É meu corpo e quem manda sou eu.

        Uma semana depois, chego em casa e ela está alegre conversando na mesa. Aponta delicadamente para o pé e lá estava escrito em letras de bonita caligrafia:
        “Davi”. 

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Amor. Ponto. de Davi Moura é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogadorocomer.blogspot.com.

3 comentários:

  1. Adorei o texto. Do fundo do baú das recordações pueris, sempre sai obra prima. Quer dizer, dádiva de quem faz das letras, das palavras, uma harmonia, uma arte... e isso, vc tem feito muito bem. Estou muito orgulhosa dos textos que vc tem produzido. Grande abraço lindo!
    Ah, adorei a ousadia da mãezona!

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  2. Meu PC travou.
    Por isto estou em cativeiro e sem poder trabalhar.
    A parte boa é que neste aqui consigo postar.
    Então lá vai:

    Davi, sua mãe sou eu!kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

    Ao descrever sua mãe me levou ás lágrimas.
    Sua alma nobre, madura para a idade, permite o que muitos filhos só enchergaram com a idade ou com a chegada dos próprios filhos: a descoberta de que mãe é gente. Carne, osso, sentimentos, defeitos que só contribuem para faze-la mais linda.
    Enfim, choros e lágrimas, tenho certeza de que qdo a Alice ler este texto vai dizer: Vixi, a mãe do Davi mora lá em casa, kkkkkkkk.
    Ela, aos 15 anos, ainda se assusta comigo.
    Mas sei que na sua idade irá entender tudinho.
    Risos.
    Saudações urubuzinho.
    Você é foda e certamente saiu a mãe.
    Asspirina Klas.

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  3. essa personificação da figura materna feita por Davi nos eleva e nos enobrece, sentimos orgulho de sermos o q somos qdo lemos teu texto. Só tenho a agradece-lo e pedir q o mundo tb nos veja com teus olhos.
    Abraço bem forte
    prima ass

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