11/07/2011

Do tempo e do amor

A persistência da Memória_1931_Salvador Dali


Cronista


Eu olho para dona Caboquinha e pergunto qual será o meu futuro. Se terei a chance de também passar dos 80 com a mesma certeza de que a vida me deu a liberdade de ser feliz naquilo que fui e fiz. De ter tantas lembranças boas e, sobretudo, um grande amor, daqueles que faz chorar cada vez que se conta, mesmo se repetindo. De ter idade como uma ação natural do tempo, com mais vantagens do que medo. Por isso, penso e procuro, lá no começo da primeira estrada, o caminho que deixei de pegar e como faço para retomá-lo. Porque viver mais de oito décadas não é envelhecer, mas cumprir uma trajetória que nos foi permitida por Deus ou qualquer outra força da natureza.
Envelhecemos quando pensamos muito e, talvez, “a vida mais doce é não pensar em nada”. Estamos sempre procurando algo que não nos pertenceu sem ao menos olhar aquilo que temos e, quando menos esperamos, já fomos ou estamos para ir. Confesso que a vida é dura, mas como dizia Friedrich, “a vida vai ficando cada vez mais dura perto do topo”. Então, o que deveríamos escolher antes de alcançar degraus tão altos: viver ou pensar na vida? Pergunto isso como se eu fosse sujeito à auto-ajuda, embora haja dias que até ela, a inaconselhável auto-ajuda, seja o único refúgio para um fatigado como eu. Velho antes dos trinta porque penso mais e leio menos ou leio mais do que deveria andar. A vida está lá fora leitores, a partir da porta que lhe segura agora. A vida somos nós, bons ou ruins, pois se me permitem retomar o Friedrich, “aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal”.
Quando na infância nos abrem a bíblia e nos dizem que podemos seguir dois caminhos, um largo e um estreito, esquecem de nos dizer que quem decide qual é qual somos nós mesmos. Do contrário, tudo o que escolhermos será o caminho errado, pois que, para muitos, importa o que dizem os outros. Quando não é um livro que nos dita as regras, são as próprias regras que nos dita a vida. E nesse vai-e-vem, deixamos passar os dias e, com eles, as vontades, as verdades e os amores. Porque o amor, senhores, existe! Acreditem! E eu o vejo em dona Caboquinha, uma menina que nunca envelheceu para o amor, mesmo este já tendo partido há 25 anos. Porque esse tipo de amor não é fabricado como um boato, ele é construído com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante, porque só ama assim quem não espera nada em troca.

Licença Creative Commons
Do tempo e do amor de José de Paiva Rebouças é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogdojottapaiva.blogspot.com.

5 comentários:

  1. Talvez eu tenha me emocionado mais ainda com este texto pelo fato de eu conhecer D. Caboquinha. Mas também dou todo o mérito a Paiva por reconhecer nela o amor que ultrapassa décadas e, inclusive, a morte. O texto nos remete a uma reflexão sobre o sentimento que nutrimos e a relação que mantemos conosco e com o outro a quem escolhemos amar... "Porque esse tipo de amor não é fabricado como um boato, ele é construído com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante, porque só ama assim quem não espera nada em troca.". Escolha? Sim, uma decisão que exige, sem esforço, toda a nossa dedicação e onde o tempo só contribui para que ele seja fortalecido e se torne indestrutível.
    Texto belo. Como sempre.. bjssssssss. esposa!

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  2. Gosto mto qdo se poe a pensar e este pensamento o conduz a um estado sublime, pura epifania!
    Surpreendida sempre.
    bj
    Prima Ass
    lete

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  3. Lindo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Querido amigo, e sei que ela, vai se encantar tanto quanto nós. Pois li e reli para seu vizinho e batemos palmas de pé se fosse possivél para esta preciosidade!

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  4. Maravilhoso como todos os teus textos. Literariamente perfeito. Aprecio a leitura desde os meus 8 anos, quando li CARLOS MARGONO E OS DOZE PARES DE FRANÇA, de Alexandre Dumas. De lá para cá, li desesperadamente. Ainda leio. Estou a degustar (que interessante!) Grandes Esperanças de Charles Dickens. Mas leio você também, e creia, nada a dever de quem sabe empregar a metáfora como ingrediente capaz de nos mostrar a verdade. A literatura nos mostra a verdade da alma, da vida, do amor. E isso tu o faz com exatidão e maestria. Parabéns, mais uma vez. Sempre te vou dar os parabéns! (William Lopes Guerra).

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  5. “José de Paiva Rebouças...difícil entender que ele é meu amigo Jotta.
    José de Paiva Rebouças tem mais ou menos 85 anos, mas o Jotta não sabe disto.

    E do auto de sua vida bem vivida José é capaz de olhar pro lado e enxergar dona Caboquinha, que não conheço, mas tenho certeza que ele descreveu-lhe a alma.

    Sua capacidade literária me surpriende? Não mais.
    Mas me encanta terrivelmente.
    Fico completamente encantada com o jeito que brinca e joga com as palavras sem nunca perder o compromisso estreito com o “ensinar” e o partilhar conhecimento.
    Seus textos me encantam, sobretudo por sua sabedoria, e sinto muito, ela não vem dos seus vinte e tantos anos.
    Sua sabedoria vem das dores que te fizeram mais velho, e bendita velhice quando é vista do jeito certo.
    Bendita seja cada ruga que tens na alma meu amigo...mal posso esperar para ver o que você fará com as letras quando seu rosto estiver bem enrugadinho, com a idade de Dona Caboquinha.

    “Quando não é um livro que nos dita as regras, são as próprias regras que nos dita a vida.”

    Xeros sudestinos de sua irmã, sempre: ASS Klas.”

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