01/07/2011

A indiazinha


Índia - Elon Brasil


Professora

Eu estava com seis anos de idade e estudava a primeira série do curso primário, que corresponde hoje ao segundo ano do ensino fundamental. A escola onde estudava se chamava Mundo da Criança, considerada, na época, a melhor instituição de ensino da cidade. Minha professora era nada mais nada menos do que a minha tia. Não. Não se trata aqui do modo clássico como as crianças chamam a professora das séries iniciais. Ela era mesmo minha tia, irmã de minha mãe. Se por um lado esse parentesco era bom, devido meus pais não terem condições de custear meus estudos e ser ela quem bancava tudo para mim naquela escola que, vale lembrar, era privada; por outro lado, isso me custava bem caro, pois por ser minha tia, a professora pegava demais no meu pé, querendo que eu fosse sempre a melhor aluna da turma e essa cobrança me incomodava, pois por mais que me esforçasse, ela sempre achava um defeito em tudo que eu fazia. Tanta exigência inflamava ainda mais o meu sentimento de inferioridade, uma vez que ali estudavam só filhinhos de papais e eu era a única pobretona do colégio. Tal fato, hoje, pode parecer bobagem, mas para a cabeça de uma criança de seis anos de idade que via seus colegas se exibindo com seus materiais escolares de primeira qualidade e com brinquedos sofisticados que sabia que jamais teria, isso doía e muito.
No dia 07 de setembro daquele ano, em comemoração ao Dia da Independência do Brasil, aconteceu em minha cidade, o tradicional desfile cívico. Naquela época, esse desfile era considerado um momento muito importante e lembro que, bem diferente do que ocorre hoje, todos os alunos queriam muito participar, pois fazer parte do evento era uma forma de demonstrar amor e respeito à pátria e também de exibir para toda comunidade tudo que a escola tinha de melhor. Todos os colégios da cidade participavam com a presença maciça de seus alunos. Cada escola se dividia em vários pelotões, ou seja, em subgrupos e cada um desses subgrupos representava uma temática: esporte, música, dança, história, etc.
Aquela era a minha estréia em um desfile cívico, já que era meu primeiro ano de estudo. Sim, eu entrei na escola com seis anos e já fui direto para a primeira série, porque apesar de nunca ter estudado numa escola, já sabia ler e escrever, pois minha mãe e tias me ensinavam em casa, mesmo antes de pensar em me matricular naquela escola. A minha iniciação em desfiles de sete de setembro foi para mim muito marcante. Apesar de ser bastante tímida, queria muito, assim como a maioria de meus colegas, desfilar pelas ruas da cidade naquele dia tão importante. Por eu ser uma das melhores alunas da escola, a diretora, Dona Céli, me convidou para fazer parte de um dos principais pelotões, o da História do Brasil. Contudo meus pais muito pobres não tinham condições de me vestir com os trajes de época necessários, uma vez que eram bem caros, pelo menos para minha família. E como, naquele tempo, não havia as ajudas sócias do governo que existem hoje (bolsa família, bolsa escola, bolsa qualquer coisa), minha mãe foi logo dizendo que tirasse o cavalinho da chuva que não poderia participar. Essas palavras entraram rasgando por meus ouvidos como a lâmina de uma afiada navalha, tamanha era o desgosto em meu infantil, mas já decepcionado peito. Doía saber que eu seria a única aluna daquela escola que não iria participar do habitual sete de setembro.
No dia seguinte a essa avassaladora negativa de minha mãe, ao chegar à escola, mesmo antes do sinal tocar, ainda do lado de fora do portão, eis que sou chamada pela diretora da escola a comparecer em sua sala. Timidamente como de costume, arrastei-me feito cobra pelo chão, desviando-me dos muitos colegas que se amontoavam junto ao portão de entrada. Durante o percurso entre o portão e a diretoria, mil pensamentos percorreram minha mente. O medo chegou e, mesmo sem qualquer convite, se instalou em mim de tal maneira que eu podia vê-lo confortavelmente sentado na sala de estar do meu apertado coração. Afinal no meu tempo de estudante, ser chamado à direção não era sinal de coisa boa. O que se trazia de lá geralmente eram broncas, advertências ou castigos.
Lá chegando, ela me olhou e certamente viu em meu acanhado semblante um acentuado desenhar de tristeza encobrindo os meus negros e pequeninos olhos. Após alguns minutos me fitando de forma séria e ao mesmo tempo piedosa, Dona Céli vestiu minhas retinas com um brilho de esperança, ao me sugerir que eu me fantasiasse de índia, representando os primeiros habitantes do Brasil, pois, segundo ela, a roupa era mais fácil de fazer.
Não me recordo com exatidão como minha mãe conseguiu confeccionar a roupa. Só lembro do adocicado sabor da felicidade que senti quando mamãe me mostrou a vestimenta que eu iria usar durante o desfile. Para completar o meu traje, meu pai também confeccionou um arco e flecha de madeira. Lembro que ele caprichou tanto, ficou tão bem feito, tão bonitinho que todos elogiaram, parecia até de verdade!
Depois de muita expectativa, eis que chega o grande dia. E lá estava eu toda indiazinha. Cabelo soltinho, roupa de penas, cara pintada, penacho na cabeça e arco e flecha na mão. Nossa! Percebi-me tão importante naquele dia! Pela primeira vez naquela escola eu não me sentia inferior por ser a mais pobre. Naquele momento eu era igual a todos os meus colegas. Talvez para os outros eu fosse só mais uma aluna no meio de centenas de estudantes desfilando, mas para mim, aquela indiazinha era alguém especial, era protagonista de um capítulo muito importante da história de minha vida.
Hoje, quando olho para a foto tirada naquele dia e vejo aquela indiazinha com uma carinha tão séria, lembro que por trás de toda aquela seriedade se escondia timidamente um sorriso de felicidade e um orgulho bom de alguém que se sentia importante, mesmo não tendo dinheiro, roupas boas, nem pais ricos. Mas que, na simplicidade e inocência da infância, já aprendia que mesmo não tendo quase nada, era muito na vida das pessoas mais importantes de minha vida: os meus pais.

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A indiazinha de Rokatia Kleania é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogdaprofessorinha.blogspot.com.

6 comentários:

  1. (Emocionei-me... poxa, lá vem outra lágrima..) vc e a Klas me fizeram ir longe... Hj vc me traz à memória os saudosos desfiles de 7 de setembro. Quando eu tinha 10 anos, foi o desfile mais feliz: eu ia sobre uma carruagem como a rainha do estudante, o destaque por ser a melhor aluna em notas, apesar de ser a mais tagarela. (Ainda bem que hj não sou mais, kkkkkkkkkkk!). Neste dia, para mim foi a glória, porque ser rainha ou princesa devido aos meus atrativos de beleza, estaria fora de cogitação. Mas naquele dia, eu era a rainha por causa do meu intelecto... dia inesquecível.
    Sobre o texto em si, nota-se claramente como seu texto é bem escrito, o que contribui para uma leitura desenvolta e prazerosa. Sua narrativa é leve, com gosto de saudade...
    Ótimo! Abraços querida!

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  2. “Primeira reação:
    Emoção desmedida por perceber neste momento do nosso caminho o quanto falamos a mesma língua, meus queridos companheiros literários.
    Somos todos e somos um..
    O José de Paiva sabe disto e isto me assusta e emociona, profundamente.

    Segunda reação: invejá-la, mas não com a inveja sendo pecado, e sim como contemplação do belo e merecido que o outro possui.
    A construção do seu texto causa inveja a qualquer escritor que seja sincero e tenha a alma parecida com a sua.
    Belo, bem escrito, rico em detalhes sem ser cansativo (como sei que os meus são, muitas vezes).

    Assim como os textos de nós outras meninas narrar nossa infância ou a infância que se aproximou da reina esta semana, trazia escondido uma “moral da história”.

    Cada texto nada mais é que a vóz da vida tentando dizer algo para quem já está surdo e não ouve mais o que ela nos quer dizer.

    Seu texto, professorinha, fala ao meu coração de uma maneira tão assustadoramente linda, trazendo os valores verdadeiros ao nosso peito.
    Ser índia era a poção mais linda que seus pais podiam te dar e você a recebeu com o coração mais puro que tinha e com a alegria mais forte que já sentiu, e era a mais rica daquele pelotão.

    (assim como fizeram o texto do Jota na segunda e do Davi sábado passado).

    Achar o belo na Bethania é para olhos de poucos.
    Eu vejo o Belo dela e o José de Paiva também.
    Permitir-se amar uma jovem, e depois de sua partida amar sua mãe é para poucos também. É para quem não tem medo do amor seja lá como ele vier. E o Davi não tem.
    Universalizamos, com nossas histórias, o que a vida quer lembrar a dezenas de centenas de pessoas que perderam seus valores.

    Enfim,
    Seu texto professora Rokátia, me jogou no chão, de joelhos em gratidão.
    Ainda que tenha sido duro, e eu sei que foi, este período escolar fez de você a mulher que é. E você sabe disto.
    Parabéns.”
    Klas

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  3. Poxa, Klas, agora ficou difícil comentar...vc não pensa nos colegas q virão? rsrsrrs...
    Re, pára, pq com suas pernocas, e seu sorriso encatador, meu bem, rainha é pouco!
    Como disse minha amiga Klas, estamos numa fina sintonia. Não sei se estamos escrevendo para um publico específico. Eu, pelo menos, qdo escrevo imagino vcs como meus interlocutores. Por isso,estamos tecendo um diálogo no mínimo interessante, estamos nos enredando e nos atraindo e isto é impagável. Quero ter leitores como vcs e quero sempre poder me deliciar com as histórias de cada um deste grupo tão maravilhoso.
    Sinto-me uma felizarda por terem me achado aqui neste fim de mundo.
    Vejo a sua literatura Rokátia como a minha uma busca incessante de um eu que já um outro e q teima em resistir mesmo diante de tanta adversidade.
    Somos todos indiazinhas!

    Meu grande abraço.
    Lete Prima ASS

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  4. Quando vejo um texto deste calibre, nunca sei se a experiência retratada foi real ou não. Particularmente, misturo minha realidade com doses de ficção. Mas a indiazinha retrata tudo com uma perfeição literária que só sabe quem passou por tudo isso.

    Nossos tempos de escola são uma fase inesquecível. É lá que estamos formando, sem saber, nosso caráter pelo resto da vida.

    Imagino a Rokátia, como a conheço, calma, tranquila, serena em uma situação dessa com seus anos iniciais de vida. É de emocionar!

    Parabéns! Parabéns DE VERDADE!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Texto emocionante! Através dele, voltamos à infância para lembrar episódios como esse que nos fizeram chorar e sorrir. Nos fez lembrar também o texto de Clarice, “Felicidade Clandestina” no qual a protagonista, uma menina pobre, era torturada pela sua colega sardenta que não queria lhe emprestar o livro de Lobato. Só mais uma coisinha, gostaríamos de ver a foto da professora Kleania vestida de indiazinha. (risos)

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