07/07/2011

Libertar e Cativar o Amor

O Pintassilgo - Carl Fabritius (1654)


Secretária

Homem acostumado a solidão Alberico acordou com o silêncio e nem percebeu que o passarinho não cantou naquela manhã.

Eles tinham os pintassilgos há cerca de quatro anos.
Rosália havia pedido que ele lhe desse um casal de presente em seu aniversário de 15 anos.
Pobre que eram não haveria condições para festas e bajulações, mas os tais bichinhos ele não pôde negar á sua única filha.
As proibições de ter os tais passarinhos não chegavam naquele lugar onde o bichinho era tratado livre.
 Rosália era filha única de pai viúvo.
A mãe morrera no parto da menina.
Alberico descobriu que para ter as tais avezinhas era preciso autorização, uma chateação danada, que a vizinha de bom grado resolveu para ele a titulo de presente para a debutante que não ia debutar.

Com o casalzinho cantador em casa ele tratou de arrumar uma gaiola adequada, isto ele tinha aos montes: seu oficio deste sempre fora vender gaiolas na feira da cidade.
Vendia de todas: grandes, pequena, redondas, quadradas, com pés, de pendurar e até algumas de fazer inveja ao pobre que de seu só tinha a pequena casa no pé do morro que seu pai havia herdado do pai que já herdara do avô.
Foi destas que ele deu aos bichinhos: verdadeiro viveiro, castelo, em forma de ninho para o presente da filha.

As gaiolas que ele vendia ficavam penduradas nas paredes externas da casa forrando de grades sua pequena morada.
Casa modesta, mas que possuía dois quartos, grandes, além da sala que dava para a rua.

Rosália tinha um quarto só seu e só reclamava do quarto não ter porta.
A casa era assim, toda aberta por dentro, só tendo porta no vão de entrada principal.
Penduravam alguns lençóis e faziam deles cortinas pra proteger os quartos dos olhos mais curiosos, caso algum comprador viesse buscar sua aquisição na casa de Alberico.
Até na porta do banheiro, lugar obrigatório para uma porta, só se via uma colcha velha, aquelas de retalhos, já desbotada, encobrindo a passagem.
Antes de entrar era necessário gritar:
-Tem gente?!
Se a resposta fosse o silêncio podia entrar sem susto.

Mas a gaiola que arrumou pro casal de pintassilgos era de fazer gosto, uma ‘belezura’. Pintassilgo nenhum haveria de se queixar.

A filha pesquisou tudo sobre as aves, descobriu que alguns as chamavam de ‘carduelis’, nome que ela achou horrível e preferiu esquecer.
Descobriu que gostavam de sementes e pesquisou quais ela devia dar, além de frutas e verduras.
As avezinhas pintadas de amarelo encantavam o dia da menina.
Ela não entendia o motivo de a fêmea ser tão apagadinha perto de um macho tão vistoso. Mas havia de ser por ele ser ciumento e ela, modesta, preferia não aparecer.
Quando acasalaram os ovinhos azuis pareciam encantar a menina, mais que os passarinhos.
Alguns filhotes não vingavam, e tinham todo o cuidado para o casal não se desentender nesta época.
Era  ‘um tal’ de trocar de gaiola, e voltar para a gaiola, que nem mesmo terapia de casal poderia explicar.
Mas no fim dava certo e quando a bicharada chegava era uma alegria só!
A menina fazia propaganda e presenteava os amigos o pai mais sabichão vendia alguns e todo mundo ficava feliz.
Menina e passarinho alegravam o coração do Alberico.

Mas naquela manhã Alberico acordou com o barulhão que o silêncio fazia.
Sim, está certo que a casa era bem quietinha pela manhã, mas àquela hora já se ouvia a menina assobiando, os passarinhos respondendo, a água escorrendo, o cheiro de café dominando tudo.
Silêncio grande na casa.
O homem acordou acabrunhado.

Rosália já tinha dezenove anos e agora vinha com conversas de namoro, de músicas, de vestidos bonitos, de filme no cinema.
Na noite anterior Alberico foi dormir bravo, nem mesmo jantou, pois a menina; sua única filha e maior tesouro; cismou que havia de namorar com um rapazote que vendia bicho que nem se devia vender.
Rosália ralhou com o pai diante da negativa (ninguém podia com aquela menina, obediente mas determinada como só a mãe foi um dia), perguntou para que ele vendia tanta gaiola se não era pra por bicho dentro, o rapaz só fazia vender os tais bichos que iam encher as gaiolas que Alberico sempre vendera.
Alberico, pai severo e apaixonado pela filha, contestou, debateu, gritou que só vendia as gaiolas e que lá dentro só se deveria por bicho que pudesse prender, além disto, ele tinha moradia fixa, homem honesto que era, enquanto o rapazote andava errante de cidade em cidade, pelos cantos dos matos, roubando bicho da terra e vendendo pelo mundo todo.
Rosália chorou, arrancou os cabelos, deixou a mesa posta e foi para frente da casa olhar o casal de pintassilgo até que Alberico com raiva da teimosia da filha foi dormir por cima da zanga.
O silêncio da manhã despertou nele um sentimento de horror e perda que só sentira quando Deus lhe levara a esposa.
Dor. Medo.Arrependimento. E se ela tivesse partido por culpa de sua teimosia?

Correu até a frente da casa e encontrou a filha dormindo na entrada da casa. A seu lado o viveiro aberto.
Agachou, passou a mão nos cabelos de Rosália até que ela acordasse.
A menina olhou para ele, com aqueles olhos enormes e lindos que a mãe lhe deixará.
Os olhos estavam tão inchados do choro que mal podia abri-los.
Rosália abraçou o velho vendedor de gaiolas .
Silêncio.
- Pai, eu soltei os bichinhos. E quer saber? Eles voltaram. Estão nas árvores do terreno.
Durante muito tempo os passarinhos foram vistos nas copas das árvores. Voltavam pra perto da gaiola, comiam e partiam.
A menina jurou que só se casaria com moço honesto. Honesto igual o pai, que só vendia gaiola, mas junto não vendia a cadeia da alma do bicho.

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Libertar e Cativar o Amor de Eliana Klas é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.eutodososdias.blogspot.com.

7 comentários:

  1. Texto terno, poético... prosa encantadora.
    Sabe o que me ocorreu? O narrador me fala com uma voz infantil... gostei muito!
    Abraços!
    Regiane.

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  2. Um texto rico sobretudo nos recursos linguisticos e no emprego bem dosado da oralidade.
    Doce, terno, cândido.
    Encantadora e livradora dos males humanos, como sempre a Klas se vinga do mundo amando-o ainda mais!

    Meu grande abraço
    lete
    Prima ASS

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  3. Quão belo é este texto. De uma ternura e poesia capaz de encantar até o mais duro dos corações.
    Klas, parabéns por esse primor poético!

    Abraço.

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  4. A Klass emprega muita emoção em seus textos que faltam pouco gemer... bastante sensível.

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  5. “Meninas, vocês sabem ler as entrelinhas.
    Amo vocês.

    Eu fiquei fula da vida com a quantia enorme de erros gramaticais que descobri no texto depois de publicado, isto me frustra:
    a falta de tempo para a edição primorosa que literatura merece e precisa.

    Todavia espero pelo dia que a literatura me seja entregue como primícia e só então poderei corrigir tantos erros.

    Por hora basta-me o alento de ser lida por amigos como vocês que entendem a alma do texto.
    Obrigada.

    Lete:
    Vc sacou tudo.
    Meu amor não passa de vingança.
    Amo e sou feliz só pra me vingar pois aprendi que é esta a única vingança que vale a pena: Seguir amando.”


    Eliana Klas

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  6. Uma vez, quando li um conto de Mario Benedetti (Réquiem com tostadas) [autor uruguaio], me emocionei muito porque a sensação que tive era a de que o texto havia sido escrito por uma criança. Não pela questão da construção textual, mas pela doçura e inocência do conteúdo, entende? Essa foi a mesma sensação que o seu texto me deixou. Terno e ingênuo... puro!

    bjssssssss.

    Regiane,

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  7. Alem da candura contida o texto cria uma espectativa crescente que culmina com um desfecho ainda mais doce.

    Grato
    Wilton Paulo

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