02/07/2011

Maria, Maria, Maria


Sociedade Parisiense - Max Beckmann


Publicitário

Recebi, logo cedo, uma ligação de uma amiga especial (amor platônico, tenho que admitir). Resolvemos nos encontrar para almoçar e colocar todas as novidades em dia. Escolhi um restaurante japonês, fiz a reserva e lá me fui após uma manhã incrivelmente tranqüila de trabalho.
Sobre o trabalho, atingi o topo rápido. E sem aquele clichê que tem que começar de baixo. Consegui um estágio de assistente de marketing nessa grande empresa (a mesma que estou hoje) quando tinha 20 anos, no finalzinho da faculdade. Sorte? Não. Competência. Destaquei-me e fui subindo de cargo, até chegar onde estou hoje: loft; land rover branca, linda; dois cachorros grandes e uma biblioteca/videoteca cujos exemplares já vão do chão ao teto e de um lado ao outro da sala. Tenho TUDO.
Perguntam sempre qual a minha religião. Eles acreditam que homens bem sucedidos não têm tempo pra essas coisas. Eu tenho: “Sou capitalista”. Não nasci para pouco, baixo nem pequeno. Claro, tenho que manter a fama de leão raivoso e ambicioso. Quem mostra sentimentos acaba se tornando vulnerável. E isso eu não admito. Mentira. Sou católico, batizado, catequizado, crismado.
12h, hora do almoço. Saí sem acreditar em como aquela manhã de sexta tinha sido tranqüila: dois e-mails recebidos, um telefonema, nenhum funcionário me fez raiva, não precisei gritar com ninguém. Sai feliz do escritório. Feliz.
Encontrei Maria já esperando na porta do seu prédio. Advogada, bem casada, bem sucedida. Sem filhos. Foi o tipo de mulher que cresceu sem noção alguma de sua beleza e sensualidade. Resquícios de uma adolescência sem luxos e de uma família que sempre batalhou muito. Simplesmente não havia tempo a perder. E ela soube construir sua carreira. E se o marido tem ciúmes? Ele não pode ter ciúmes de quem praticamente fez o casamento dos dois.
Nesse dia, em especial, ela estava linda demais. Cabelo liso amarrado em uma trança frouxa, colocada de lado; saia de cintura alta preta, marcando bem suas curvas; blusa vermelha sem mangas, com uma gola chamativa. De longe já pude sentir seu perfume: uma mescla de fotossíntese com um cheiro quente de quem dormiu uma boa noite de sono. E sua marca registrada: o bom e já conhecido salto alto vermelho, que fazia muitos homens da empresa tremerem (seja de medo ou de prazer nas horas de sexo solitário).
Primeiro comentário quando entra no carro:
- Vagabundo. Você é um vagabundo! – isso demonstra nosso nível de intimidade.
Dois beijos trocados, um forte abraço e aquela risada característica que eu tanto gosto.
Durante o caminho até o restaurante, falamos sobre trivialidades: Como vai sua empresa? Como anda o casamento? Já vai ter filhos? E você? Não casa mais? Anda saindo com alguma sanguessuga? Cadê aquela última que você deu o fora? Jogou aquele engenheiro na cadeia depois daquele caso? Conseguiu atingir as cotas daquele último lançamento? E assim por diante...
Escolhemos uma cadeira ao fundo do restaurante, em um canto aconchegante no qual pudéssemos conversar sem ser interrompidos.
- Tenho que te confessar, Maria, que conheci alguém.
- Prossiga... – ela falou com um sorriso mais do que safado na cara.
- Maria, feche os olhos por um minuto e imagina o homem mais bonito que você já viu em toda a sua vida! 1,80, moreno, belo sorriso, inteligente, bem relacionado, futuro promissor, arquiteto, independente, com uma tatuagem extremamente sexy no braço; fã de desenhos animados, enfim, juntou tudo que você gosta em um canto só...
- Olha, esse homem já existe. Eu casei com ele! HAHAHA!
- Deixa de ser boba! – falei com uma cara blasé – Sério. Agora transfigura essa criatura para a forma de uma mulher...
- Claro! Sou EU! Você está apaixonado por mim!
- Maria, vai à merda! – e comecei a rir!
- E quem é esta criatura perfeita?
- Pois é. Também estou impressionado desde o momento que a conheci.
- Faz muito tempo que vocês estão juntos?
- Pois é de novo...
- Pois é O QUÊ? – Maria pergunta, com um tom sarcástico e urgente na voz.
- Então...
- É um homem. Você é gay! Eu já sabia!
- Maria, vai se lascar! – ri alto. Senti até vergonha dos demais clientes olhando pra mim. – O problema é que ela é casada.
- Ah, mas você já tem pós-graduação em sair com mulher casada. Pra quê o drama?
- Maria, mas ela é especial. É diferente! Eu quero casar!
- Cara, na boa – falou Maria com um ar pilantra – Você está bem? Está com problemas no trabalho? Já sei. Está ficando careca e o peso da idade batendo... É gatão, 38 anos não é pra qualquer um.
- Mais uma dessas, eu me levanto e deixo você só aqui com a conta pra pagar, certo? Estamos combinados? – falei, segurando o riso.
- Olha, não sei pra quê esse teatro todo – falou decidida – Vai lá e pega logo. Vai ser que nem da outra vez. DaS outraS vezeS – enfatizando bem o S - Você transa duas, no máximo três vezes, ela não pode abandonar a família, você também não vai abandonar nada por causa dela. Daí você enjoa e nunca mais atende as ligações.
- Eu faço isso?
- Faz. E você sabe. Não se faça de desentendido.
- É... Não sei o que fazer.
A comida chegou. Uma barca maravilhosa com todos os tipos de sushi que eu precisava. Com todos os tipos de sushi que Maria merecia. A quem eu quero enganar? Maria foi a mulher mais perfeita que já conheci. Pena que sempre tive medo. Um homem tão ambicioso, tão determinado com medo de um relacionamento. Paradoxo.

Licença Creative Commons
Maria, Maria, Maria de Davi Moura é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogadorocomer.blogspot.com.

3 comentários:

  1. Em todas as fases da minha vida eu sempre tive um grande amigo q se declarou e, por fim, me colocando numa situação constrangedora. Ainda bem q o seu personagem teve medo. A amizade é o melhor e o mais digno relacionamento q se pode estabelecer com um ser humano.Gostei mto era o final q eu queria na minha vida real.

    Maravilhoso meu esposo..rs...
    Lete
    Prima ASS

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  2. “Davi, sem palavras.
    Quebrar tabus e expor relações cujo clichê marcante na sociedade é "pecado" "errado". Expor estas relações pelo lado de dentro, ou seja o lado verdadeiro, o lado real que nem por ser real deixa de ser belo, limpo, romantico!
    Estas são suas marcas, querubim disfarçado de urubu!

    Parabéns pelo texto,
    De sua alma gêmea literária:
    Klas, ASS Sudestina!

    ****Tu tá feito rapaz, arrumou esposa e alma gêmea no sudeste. O melhor é que estamos longe o suficiente para não te dar trabalho, kkkkkk.”

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  3. MA-RA-VI-LHO-SO!
    Putz, meu querido! Adorei o texto! TUDO! O conteúdo e a forma. Vc está ficando grande menino!
    abraços!
    Regiane

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