29/07/2011

A beleza do simples

Casal 2 _Constança Lucas


Professora

A cada dia que passa, mais se evidencia que a maioria de nós tem uma equivocada ideia de beleza. Influenciados por uma mídia que trabalha cada dia mais em prol do selvagem capitalismo moderno, atribuímos o adjetivo belo ao que é rebuscado, maquiado, exagerado. A mulher bonita é aquela que se reveste de uma armadura de base, pó, sombra e rímel. É a que se adorna de incontáveis acessórios tal qual uma árvore de natal. Entretanto só isso não se faz suficiente. Ela precisa se matar de fome e de malhação em busca do corpo perfeito. Mas como, em nossa sociedade, a perfeição é algo inalcançável, parte-se então para uma série ilimitada de cirurgias plásticas. São cortes, recortes, montagens que transformam muitas mulheres em verdadeiras bonecas plastificadas, sem idade, sem expressão, sem vida.

Embora muitos de nós tenhamos consciência dessa infeliz realidade, continuamos cada dia mais escravos dessa tirania da beleza que, com grande facilidade, esmaga nossos princípios e convicções, substituindo a essência humana que há em nós por conceitos siliconados de uma falsa eterna juventude.

Alegra-me, entretanto, ver que ainda há esperança. Há alguns meses, conheci um casal que me mostrou que nem todos os exemplares dessa “racional” espécie foram ainda contaminados pelo vírus da beleza artificial. Jonas e Cecília. Ele, um fotógrafo profissional. Ela, uma jovem dona de casa, que recentemente voltara a estudar, após ter largado prematuramente os estudos para cuidar do filho, também vindo de forma precoce, quando ambos sequer haviam alcançado a maioridade. Hoje, já se virando nos trinta, após quinze anos de casados, eles me apresentaram um relacionamento construído em sentimentos verdadeiros capazes de enxergar além do visível aos olhos.

Ele está sempre rodeado das mais lindas modelos, verdadeiros exemplares da beleza ideal exibida a exaustão pelos veículos midiáticos. Enquanto ela, estudante de Educação Física, convive diariamente, na academia onde é estagiária, com homens de corpos minuciosamente delineados. Porém fazem sempre questão de me asseverar que jamais traíram um ao outro. Confesso que, assim como você, duvidei de início. Afinal a fidelidade, hoje em dia, é algo tão difícil de se encontrar quanto uma beleza natural. Ele, entretanto, em particular, me confessou sem qualquer constrangimento das vezes que já fora tentado diante de corpos femininos tão bem esculpidos pelos cremes e bisturis. Todavia me assegurou que, nessas horas, lembra-se sempre de que toda aquela formosura artificial, mesmo convertida nos milhares e milhares de reais ali investidos jamais valeriam a mulher que dividia com ele tanta cumplicidade, alegria, sonhos e prazer. Jonas e Cecília não dividem só a cama, dividem a vida.

Que satisfação haverá de ter em estar com alguém que de verdadeiro não tem sequer o traseiro? – questionou-me o fotógrafo. E arrematou: Amo Cecília do jeito que ela é, com todas as suas ‘imperfeições’ físicas. Amo suas celulites. Amo as rugas que já se desenham em seu rosto. Amo os quilinhos a mais ganhos nos últimos anos.     Amo porque foi vivendo comigo, na saúde e na doença, nas tristezas e nas alegrias, nas dificuldades e nos momentos de prazer que ela adquiriu tudo isso. Amo porque ela também me ama, apesar de meus incontáveis defeitos.

E quer saber? – finalizou Jonas - Não é quando ela se arruma, se maquia, se enfeita que ela fica bonita. É quando se encontra de rosto lavado, despida de toda e qualquer moda que vejo o quanto é linda a minha mulher. É na simplicidade de ser o que é que mora a verdadeira beleza da minha Cecília.

3 comentários:

  1. O texto da Rokátia é extremamente atual e revela um dos embates da nossa modernidade. O que é o belo? Apesar de ser uma pergunta perseguida por seculos, foi agora na modernidade e nas sua contradições que esse tema ganha relevancia. Mto bom, mesmo.
    A beleza é triste!
    bj grande
    prima ASS

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  2. Como diz o ditado, "O amor é cego, quando se ama o feio, bonito lhe parece". Na realidade a maior beleza do ser humano é a interior, pois o corpo envelhece, o que hojé é novo e bonito um dia será velho e feio. Certo dia um amigo da onça me mandou uma mensagem que dizia o seguinte: " É melhor ter um amigo feio como você, do que um bonito, pois, feiura é para sempre e beleza um dia se acaba". No fundo ele tinha razão, beleza se acaba com a idade, Beijos

    Augusto Néo

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  3. Hj seu texto me fez lembrar meu querido Bandeira: "O que eu adoro em ti
    Não é a tua beleza
    A beleza é em nós que existe
    A beleza é um conceito
    E a beleza é triste
    Não é triste em si
    Mas pelo que há nela
    De fragilidade e incerteza ".
    Esta beleza engessada que se impõe, destrói o que é belo na essência. Essa para mim foi a grande sacada do seu texto.
    O exemplo do casal me emocionou, acho que porque penso da mesma maneira. Corpo sarado e mente ôca não me dá tesão! Não desperta nenhum interesse em mim...
    A beleza do outro se revela no caráter e na postura que se toma diante do cotidiano. O belo é subjetivo e pode vir acompanhado de uma gordurinha e cabelos brancos...
    Gostei do texto!
    Abração amiga!
    Regiane.
    (ps: agora que vi que a prima tb lembrou Bandeira!)

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