27/07/2011

A menina que tinha medo da ...



Professora

À Sueli Justino, a quem desejo a imortalidade...


Para cada criança parece existir um tipo de medo. Medo muda muito de maneira, pode assumir qualquer forma.
Luzia, como todas as crianças, tinha seu medo e, por ser como todas as meninas, só não tinha medo de ter medo. Assumia-o com toda coragem. O problema era que seu medo particular era um tanto quanto singular para uma criança. Tinha medo de morrer antes de virar gente grande. Por isso, nunca falava de morte...nunca! Nunca assistia a filmes de terror, nunca ouvia histórias de assombração, nunca abria os olhos no escuro. Ir a velórios ou a cemitérios, então, nem se fale. Nem passava perto de funerária ou IML. A menina evitava mesmo a morte. Aliás, ninguém falava sobre esse assunto. Pronto, não está mais aqui quem falou.
Para se garantir, sempre que podia conferia o pulso, conferia o coração. Sabia se o coração parasse de bater, era sinal de que a “indesejada das gentes” havia chegado. Cruzes!
Também, partir assim tão novinha era uma baita de uma injustiça. Não seria mocinha, nem teria uma juventude, muito menos uma velhice...Sem filhos, sem netos, sem bisnetos. Nada. Seria nada. Que triste não existir. Para quem nunca existiu isso é fácil, mas para quem pegou gosto em existir é muito duro. E ela era viva. Era muito viva. Tão viva, que fazia mesmo pena em não vê-la viver.
Quando pensava em não existir, chorava. Chorava. Chorava que se indignava. Afinal, que falta do que fazer, tanta gente por aí praticando a crueldade, porque que a visitante inconveniente não carregava esses que aparecem na TV: os procurados, os bandidos, os malvados... Ela era uma menina tão boa, obedecia aos pais, fazia as tarefas de casa, não respondia a professora, cuidava das irmãs, rezava antes de dormir, não dizia palavrões, ia à missa, recebia a comunhão. Não, não merecia, não!
Todos os dias ao se deitar agradecia a Deus, pois ainda estava viva. Todos os dias também pedia a Ele que aquele anjo ceifador nunca aparecesse na sua frente. Já que isto seria o fim. Credo!
Embora não gostasse de ouvir sobre ...hum...hum... Vez ou outra acontecia de um, sabe? Hora ou outra ela chega e se torna um assunto inevitável. As pessoas sentem certa necessidade de dizer alguma coisa a respeito, para amansar a braveza do silêncio que as invade... “Pobre coitado, era um bom moço!”... “Quem sofre é quem fica!” ... “Está em paz agora!”...
Acontece que uma tia da sua mãe de bem velhinha, dormindo, passou desta para melhor. Dizem que esta é a melhor maneira, dizem, mas para aquela menina não existia a melhor maneira. Ficou mesmo muito apavorada com a ideia, já pensou assim, dormindo? Como será? A pessoa pode ficar aprisionada num sonho, paralisada para sempre numa mesma cena, numa mesma imagem...um pesadelo! Desde, então, pegou a mania de dormir com as mãos cruzadas por sobre o peito. Bem do lado direito. Assim, cada vez que acordasse poderia conferir se o coração ainda batia. Sorte que sempre batia. Ufa! Graças a Deus... estava viva!
Certa noite a garota despertou muito lentamente, aos poucos foi dando conta de que estava se acordando, e, como de costume, foi conferir o coraçãozinho. O que? Não! Não achava...ele... não batia! Num único pulo saltou do alto do beliche onde dormia e voou até o quarto dos pais: “Eu fui, eu fui, tá me levando.... Pai! Não tá batendo... meu coração... Pai...
Na verdade quem quase teve um troço foi o pai, tamanho tinha sido o susto. Mas logo entendeu o apavoro da filha, se recompôs e tentando acalmá-la... “Pensa, filha, se você estivesse ido de vez teria se levantado lá do alto do beliche? Teria vindo até aqui no meu quarto? Teria me dito tudo isso?”.
Verdade, a menina riu e voltou ao seu quarto, mas a ideia a perseguia...Agora mais do que nunca tinha de arranjar uma saída e descobrir outra técnica para saber quando se fosse de verdade.
Luzia pensou... Pensou por muitos dias, muitos meses, até anos. Tanto que pensou que começou a achar tudo aquilo uma bobagem. Uma irrelevância, pois sendo isso um mistério, não haveria ela, uma menina tão medrosa, de solucioná-lo assim... mas de uma coisa  ela não abria mão. Sempre dormiria coberta dos pés a cabeça com o cobertor ... não importava se frio ou calor ...  Ali bem presinho, forrado junto ao corpo, pois assim se sentia segura.
Certa vez faltou luz e todos foram dormir mais cedo. No escuro. Tudo escuro. Luzia foi logo se enrolar todinha com o cobertor, mas não tinha sono. De tanto que cerrou os olhos, ficou com dor e resolveu abri-los e foi assim que ela viu. Luzia, pasmem, luzia! Dela saia uma pequena cintilante luminosidade. Parecia um anjo do céu. Sentia-se reconfortada. Fora acometida por uma coragem soberana, dali em diante não temeu a mais nada... Absolutamente nada!

 (Publicado originalmente na Revista Cruviana: www.revistacruviana.blogspot.com)


4 comentários:

  1. Arlete, você resolveu utilizar seu estoque todinho de surpresas nos últimos dias?
    Mulher, que texto maravilhoso!
    Luzia muito bem descrita, muito mimosa, muito faceira nos contando dos seus medos quase põe para correr meu texto “Dona Ela”!!!
    Gostei demais desta crônica, leve, divertida, profunda sem ser larga, milimétricamente pensada para nos cativar!
    Sou fã do seu vocabulário, disto vc já sabia né?
    Parabéns e muitos beijos.
    E ai, quando vamos tirar uma foto juntas para fazer ciúme/inveja aos nossos lindos amigos nordestinos??
    Klas”

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  2. Flor...
    Eu nao sei fazer esses comentarios técnicos que seus colegas fazem...
    Só sei elogiar do meu jeito, essa Luzia parece comigo.
    Eu até os 30 anos, dormia com o corpo todo coberto, se precisasse levantar andava com as costas encostadas na parede e mesmo sem sono ficava com os olhos fechados... Só parei com essas bobagens depois que tive a Helo, a maternidade deixa a gente corajosa né?
    Só nao entendi uma coisa: O fato de voce falar que ela dormia com a mao do lado direito do peito foi proposital? Por isso que ela nao sentiu o coração? kkk
    Desculpe minha ignorancia, mas fiquei sem saber se voce se enganou ou se foi de proposito.
    Beijos amiga...
    Cida

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  3. "Luzia, pasmem, luzia!"
    Me fascina a construção dos seus contos. Sentimos, tocamos... a narração ganha vida e pés a cada frase lida.
    Texto encantador, como sempre querida!
    Regiane

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  4. Cida, amada, seus comentários smpre são pertinentes, o q todo escritor quer e compartilhar o q sente e o q vê para q outros se identifiquem com esses sentimentos, entendeu? Perfeito seu comentário.
    o engano foi meu kkk... até hj tenho esse problema com direita e esquerda...kkk
    bj amada e obrigada pela leitura atenta!
    lete

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