24/07/2011

O terrível Malamém


Oswaldo Guayasamín


Dias atrás eu estava com alguns amigos falando das reminiscências, dos medos de criança, das figuras folclóricas que habitavam o nosso subconsciente. Falávamos das figuras do bicho-papão, do papa-figo e de outras personagens que eram utilizadas pelos nossos pais para nos pôr medo, no sentido de associar esses monstros fictícios à contradição ou desobediência em relação à ordem ou conselhos que nos davam. Falávamos principalmente da figura do papa-figo (corruptela de papa-fígado), que é uma das maiores lendas urbanas brasileiras. Cada cidade elegia o seu papa-figo.
Segundo a lenda, o papa-figo era um sujeito estranho, rico, que sofria de uma doença rara e sem cura. Alguns sintomas dessa doença seriam o crescimento anormal de suas orelhas ou o corpo leproso e que para aliviar os sintomas dessa terrível doença ou maldição, precisavam se alimentar do fígado de uma criança. Em Natal, a cidade em que eu nasci e onde vivi a minha infância e adolescência, o papa-figo era uma mulher: a viúva Machado. Era uma mulher rica e solitária, já que enviuvara sem ter tido filhos. Diziam que ela padecia de uma doença desconhecida que fazia crescerem suas orelhas. E que pra se curar dessa doença, precisava comer fígado de criança. Era o papa-figo de Natal. Ela tinha uns empregados que andavam num Jeep preto e diziam que eram eles que pegavam as crianças e levavam para a viúva Machado. E toda criança da minha época, quando avistava um Jeep preto tratava de correr logo pra casa com medo do papa-figo.
Mossoró tinha também o seu papa-figo, cuja figura ainda hoje é lembrada por muitos.
Estávamos animados com esse assunto, quando um dos integrantes do grupo disse que nada disso tinha atormentado tanto a sua infância como a figura do Malamém. Fiquei curioso, já que nunca tinha ouvido falar em tal personagem. E a explicação que ele deu foi no mínimo curiosa, pois segundo nos explicou, esse "bicho" só existia para sua família.
Ele falou que foi criado num sítio, sendo os seus pais agricultores e pessoas de pouca cultura. E que como a família era religiosa, todas as noites sua mãe juntava os filhos para rezar, principalmente o Pai Nosso. E que na sua maneira simples de pronunciar, juntava as palavras da oração, dando outro sentido às mesmas. Dessa forma, ao invés de dizer: "... e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém", ela pronunciava: "... livrai-nos do Malamém". E estava criada uma nova personagem para amedrontar aquelas crianças, já que na severidade da oração, o Malamém representava tudo de mal que podia acontecer a um cristão. Devia ser algo muito terrível, já que a mãe, diariamente, rezava para que Deus nos livrasse desse mal. Todos os seus medos de infância eram atribuídos ao Malamém. Só quando adulto foi que descobriu o significado da palavra que sua mãe sempre pronunciava em suas orações, acabando assim com o mito.
É assim que nasce uma lenda. E esse podemos dizer que é mais um daqueles "causos" que só acontecem no "País de Mossoró".


[AUTOR CONVIDADO] Geraldo Maia é economista e historiador. Nascido em Natal, mais vivido família, trabalho e literatura em Mossoró, onde se constitui num dos principais pesquisadores. O texto em questão foi retirado de sua coluna no caderno UNIVERSO do jornal O Mossoroense.

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