20/07/2011

Paixões e Ventanias


Arlete Mendes

Professora


Pegara amor àquela singela criatura. Não sabia se a amava por sua pequeneza ou por sua altiveza, porque o que tinha de nanica tinha de brava. Marandová.

Era peladinha. Dentes pontiagudos. Latido esganiçado. Muito inquieta. Não podia ninguém encostar no portão que a danada já latia. Além disso, adorava se atracar nos calcanhares das visitas. Alguns até se intimidavam. Outros nem se importavam. Saiam arrastando pela barra da calça. Era invocada. Mas com o dono não. Podia, se quisesse, fazê-la de encosto de porta, bibelô de estante, esquenta pés, pelo dono aceitaria qualquer sorte, boa ou má, o que fosse. Não. Isto não faria nunca. Era muito bem tratada.

A mulher enciumava. Também pudera. O marido regulava até o dinheiro da tintura. Pra que gastar dinheiro com tanta pintura nessa cabeça. Já a faceira ia pro banho e tosa de quinze em quinze. Voltava toda-toda. Vaidosa que só ela. Era a coisa linda do pai.

Caminhava com o bicho todas as noites, quando chegava do trabalho. Ia parando nas calçadas para prosa rápida com os vizinhos. As crianças não se atreviam.

Dali se achegava no bar para contar umas lorotas e tomar umas antes da janta. Depois seguia rumo à padaria. Comprava pão um dia antes para adiantar o dia seguinte. A cadela ganhava o biquinho do pão passado na margarina. Num salto abocanhava o naco no ar.

Ela acompanhava até o portão. Fitava seu dono até que ele desaparecesse na dobra da esquina.

Durante o dia ficava de peitica com os demais. Chegara até rosnar para as crianças. À mulher, então, a esta nem dirigia o olhar, quiçá um latido. Via nela uma rival. Era recíproco. Só não fazia mal a ela por medo de enredarem os malfeitos pro marido. A bichinha era esperta. Acharia um modo de delatá-la. Deixava estar.

A cachorra adivinhava a chegada do dono. Dada a hora, pregava no portão. Pois dali a pouco partiriam para o passeio de costume. Era assim que ela exibia o dono para os cães de rua. Magros, mancantes e cheios de rabugem. Heróis da resistência canina. Esses tinham de saber sobreviver por si só. Por vezes, ganhavam sobras, mas a vizinhança não via a cachorraiada com bons olhos. Eram sempre enxotados.

A cadelinha continuava altiva em seu passeio pelas calçadas tomadas por sacos de lixo e entulho de construção. Mas nem por isso a soberba da cachorra diminuía. Desfilava vaidosa. Mal encarada feito as modelos de passarela.

Naquele fim de tarde o dono tardava a chegar. Estava atrasado para o passeio. O tempo começara a fechar. O vento já agitava a copa das árvores presas às calçadas. Pegou a cadela e foi-se.

Dali a pouco uma ventania levantava as tampas das caixas d’água, desprendia as roupas dos varais e partia pequenos galhos. Percebendo o mau tempo, apertou o passo e puxou a corrente do animal, que teimou, por alguns instantes, em não ir. Cheirava um pé de ipê.

O vento já varria as folhas com fervor. Um redemoinho se formara misturando sacolas plásticas, lixos leves e folhas das árvores. O homem apressou-se numa marcha que mais parecia uma corrida. A cadela andava apressada, um pouco à frente do dono.

Num zas-zus de ventania o redemoinho girou mais carregado. Forte-veloz levou a cachorra escapulida da corrente. O homem, atabalhoado, tentou agarrar a corrente, mas tinha areia em suas vistas. Quando conseguiu abrir os olhos avistou do outro lado da rua o corpo minúsculo estrebuchando. Um carro atropelara a cadela voadora.

Contou o incidente na padaria. Todo choroso, o homem foi consolado por um copo d’água. Encabulados com a história os presentes se entreolhavam. Como pôde a cadela sair voando?

Pegou os pães e voltou para casa. Desta vez só.


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5 comentários:

  1. Nossa
    Voce disse que eu ia gostar pois é engraçado.
    Achei muito triste isso sim...
    Tadinha....
    bjus
    Cida

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  2. Lete, sua literatura é ágil, tátil, sensitiva, perceptiva, sensacional. Penso que quando escreve, a literatura escorre por entre seus dedos e a torna única e definida. o que vc faz é arte... cada frase elaborada cria forma e vida. Essa é a sensação que me deixa, sempre... bj minha querida!

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  3. Indizível a maneira como trata as fatalidades, dando verdade a algo que muitos poderiam fazer espetacularização. A falta de exarcerbação talvez seja a grande sacada do conto e de sua literatura.

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  4. Prima, ontem passei o dia em exames com minha pequena, infelizmente tive de conter a curiosidade e só li hoje o texto.
    ( A Alice está bem mas qdo tem consulta é o dia todo).
    Vamos lá:

    “ Catzo, to com a Cida, também achei triste demais, aff. Eu nem teria ido comprar pão mais...
    Li com um prazer enorme, saboreando os espaços (sabe que adoro espaços né? Risos),
    Não tenho mais como falar sobre sua escrita, que sempre ágil e prazerosa.
    Fiquei triste...vixi, o vento teria sido enviado pelos ciúmes da esposa???
    Beijos de sua fã sudestina”

    Eliana Klas

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  5. HORROR!

    Sua história poderia FACILMENTE estar em um livro de contos de terror!

    E foi por isso que eu AMEI!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Uma história daquelas que são um soco no estômago e você fica se perguntando o que foi que diabos você acabou de ler!


    P*TAQUEPARIU!!!!!!!!!!!!!!! AMEI DEMAIS!

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