04/07/2011

A república de Rodolfo


Rodolfo Fernandes no Chuva de Bala no País de Mossoró - George Vale


Cronista

Dona Fátima, dona Fátima! O Rodolfo Fernandes morreu mesmo? Não, é que fiquei pensando... A senhora sabe que penso muito, embora pensar seja, como diz o Arnaldo, “um ato proibitivo fora de internet”. Mas eu pensei em perguntar a ele se não queria voltar a ser prefeito, sabe? Não é questão de gênero, mas de sobrevivência mesmo. Assim, porque, se ele botou os cangaceiros pra correr, como vi ontem, lá de frente a igreja, a gente podia fazer tudo de novo. Fiquei muito emocionada com o poder de mobilização daquele homem. Se agente se unisse, dona Fátima, talvez nem fosse preciso fazer trincheiras.
Sabe o que é? É que estou cansada de me esconder: muro, portão, cerca elétrica, sensor, grades, pega-ladrão, fechadura, ferrolho, trava elétrica, alarme, seguro obrigatório, seguro privado, seguro de vida, seguro de morte, tudo precisa ser assegurado e no fim...
Concordo com Marx, um dos amigos do meu marido. Esse negócio de estado, às vezes, não serve pra nada. Sabe que vou perguntar ao Arnaldo onde esse homem mora para eu dizer a ele que ele está certo! Não, porque, veja a senhora: por que pagar imposto se tudo que a gente tem é particular? Lá em casa a gente tem plano de saúde, segurança privada, escola particular, previdência privada e onde a gente estaciona tem de pagar aos flanelinhas, então, seu Marx tem ou não tem razão?
Por isso, estou perguntando sua opinião, porque pretendo participar do próximo encontro dos camaradas amigos de meu marido lá em casa e propor a eles mudar tudo. Aí pensei em sugerir que a gente fosse procurar seu Rodolfo Fernandes para que ele reveja essa história de estado e que também reúna seus homens que é pra gente dar um fim a essa brutalidade que tem nas ruas. Bora botar é pra correr os traficantes, meliantes e todos os sujeitos de alta periculosidade que estiverem por aí, pra ver se a gente dorme pelo menos uma noite sem ter medo.
Não queria dizer, dona Fátima, mas aqui pra nós... No ouvido... Tenho medo até da polícia.
Como não sei em quem confiar, já que o Arnaldo tem viajado muito com esse negócio de cavar petróleo, pensei que se a gente mudasse o jeito do estado, eu pudesse viver mais em paz quando estou só.
Agora, se o Rodolfo Fernandes não aceitar, fiquei pensando em procurar o seu Marx pra ver se ele não queria entrar na conversa. Parece que ele é mais de escrever do que de fazer, mas bem que se a gente juntasse os dois, talvez déssemos um jeito de criar uma nova república onde houvesse a encarnação da pura racionalidade... Seríamos perfeitos como Cuba ou os Estados Unidos.
...
Né dona Fátima?

Licença Creative Commons
A república de Rodolfo de José de Paiva Rebouças é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported. Based on a work at www.aspirinasurubus.blogspot.com. Permissions beyond the scope of this license may be available at www.blogdojottapaiva.blogspot.com.

4 comentários:

  1. Puxa,adoro essa prsonagem. Jotta, vc tem q escrever um livro só de histórias contadas a D. Fátima.
    Fantástico!
    Agora ela mistura personagens históricos a realidade latente da classe média em ascenção. Para falar de uma possível luta de classes...rs...Mto bom gosto! Mto bem construído. Mto bom mesmo!

    obrigada por este novo regalo!

    Um abraço enorme
    lete
    Prima ASS

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  2. “Dá pra comentar um texto assim?
    Dá pra fechar os olhos e não ler as entrelinhas?
    Fazer pensar o primeiro dever de todo escritor.
    O Jotta cumpre isto a risca.

    Este é daqueles textos escritos para quem sabe das coisas.
    As tais coisas das quais fujo. (Estado, ditadura, comunismo, republica, mudança e nossa participação nisto tudo!)

    O gosto da desesperança sentido em cada linha, traço marcante do escritor.

    Eu, sou dos tais que pensam que os “bons são maioria” e que para uma República jovem como a nossa estamos no caminho.

    Aprender a votar é o grande segredo.
    Sou daquelas que pensa que uma nação tem os líderes que “merece”.
    Somos nós, eu e você, que desenhamos nossa história.
    Este país esta construindo sua trajetória, estamos escrevendo nossa história e se personagens como a “Dona Fátima” responderem isto talvez possamos conhecer um Marx que escreva menos e faça mais.
    Cuba não é este sucesso todo.
    (Meu pai quando esteve lá constatou isto)
    Fujo de toda ditadura, mesmo que seja aquela que prega o que eu acredito.
    O Estado Democratico não é só para mim.
    Cabe a esta imensa nação de sofredores perceberem que somos maioria e podemos mudar nossa história.”


    Eliana Klas

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  3. A cada semana consigo identificar cada vez mais os detalhes e limites de cada um. Esse personagem de "Gorete" conversando com Dona Fátima é INCRÍVEL! E, cá entre nós, é um jeito super válido de me fazer prestar mais atenção nos textos de caráter político. A mistura do novo com o antigo e da ignorância de gente simples com aquela vontade de que tudo melhores embalam o texto como um presente a quem o lê!

    Parabéns pela obra!

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  4. Mais uma vez, Paiva faz uso da cliente de D. Fátima para instigar-nos a uma reflexão sobre a situação sócio-político a qual estamos refém. A crítica, a princípio, soa de maneira sutil, mas - na verdade- fica evidente o convite urgente a uma postura política e atuante.
    Texto maravilhoso, inteligente... a voz de uma mulher provinciana grita enquanto o Estado dorme...
    Cronista de mão cheia! (pense num orgulho!)
    (macabeiazinha)

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